Margarida Rebelo Pinto

A sala dos golfinhos


Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

Nota prévia: a crónica que se segue foi escrita e enviada para a redação antes de ter conhecimento das notícias referentes a palavras, gestos e comportamentos insultuosos proferidos e realizados por alguns deputados contra várias deputadas na Assembleia da República.

Um par de dias longe de Portugal no fim de semana transato fez com que me passassem ao lado o breve episódio do meteorito, bem como o sururu em torno da posição de José Aguiar-Branco acerca das declarações de André Ventura. Aliás, foi só após ter aterrado em território nacional que me dei conta da polémica em questão. E se sobre ela me debruço, é porque gostava de perceber, ou pelo menos de tentar descortinar o que faz o português ser tão atreito a este hábito enraizado de escolher um carneiro por semana para sacrificar, às vezes mais do que um. Há cerca de década e meia, quando a rede social Facebook explodiu, era lá que rebentavam e criavam lastro as mais variadas polémicas. Parece-me que tal prática se alastrou para os meios de comunicação em geral, talvez por contágio por via desse terrível universo paralelo que, existindo apenas no éter, vai invadindo cada vez mais a condição humana.

Ainda sobre o fenómeno natural que iluminou o céu de norte a sul para espanto das populações, é interessante observar que uma matéria que vagueia só e errante pelo espaço, ganha uma luz bela e imensa em contacto com a atmosfera. Tal fenómeno corrobora a minha teoria, puramente empírica e pessoal, que defende o seguinte: aquilo que mais brilha e impressiona, é muitas vezes o mais inútil e estéril.

Desde a ascensão meteórica (passe a expressão) do partido de extrema-direita, com respetiva representatividade no Parlamento, que temos assistido a declarações incendiárias por parte do seu líder, aplaudidas de pé pela sua claque de serviço dentro do hemiciclo. Esta prática ufana, enfática e incendiária irrita os restantes deputados e o país, contribuindo para uma atmosfera de crispação dentro e fora das instituições democráticas. Não é bom nem é bonito, porque cria ruído e atrasa os trabalhos do Parlamento, onde representantes eleitos pelo povo precisam de gastar o tempo útil dos seus mandatos para aprovar leis e medidas que melhorem a vida dos portugueses. A Assembleia da República não é a “sala dos golfinhos” de um jardim de infância, na qual as educadoras e as auxiliares chamam a atenção às crianças quando estas comem com as mãos, cospem para cima dos outros meninos ou lhes roubam os brinquedos por uso da força. O que diz ou não diz André Ventura nas suas acesas e inflamadas intervenções é da sua inteira responsabilidade, não cabe ao presidente da Assembleia da República coartar ou censurar o seu discurso.

Aliás, para quem assiste ao circo político de camarote, não deixa de ser interessante observar como o ego infinito de Ventura está a fazer com que ele perca credibilidade e popularidade aos olhos de quem nele votou. Ressalvo que tal afirmação é fruto da mais pura especulação da minha parte, veremos se os resultados das eleições para o Parlamento Europeu confirmam o que a minha intuição me sussurra ao ouvido.