Jovens portugueses aprendem a ser cidadãos europeus

A seis meses das eleições europeias, marcadas para 9 de junho, meia centena de alunos de escolas profissionais portuguesas ganharam a oportunidade de conhecer as instituições europeias em Bruxelas. A visita permitiu reforçar a importância da União Europeia nas suas vidas.

Chegou a Portugal há pouco mais de um ano. Veio de Cabo Verde, ao encontro do pai e da irmã, à procura de oportunidades que não existiam no seu país e que espera encontrar, agora, na Europa. Se Leonardo Moreira, de 19 anos, tivesse oportunidade de ser eurodeputado por um dia, uma das suas prioridades seria “facilitar a entrada de migrantes” que “procuram um trabalho” e, tal como ele, um futuro com dignidade. A seis meses das eleições europeias, Leonardo foi um dos 50 alunos vencedores do concurso “Por que vou votar nas Eleições Europeias de 2024”, promovido pela eurodeputada socialista Margarida Marques em parceria com a Associação Nacional de Escolas Profissionais (ANESPO), com o objetivo de premiar os melhores trabalhos sobre a União Europeia, nomeadamente o papel do Parlamento Europeu e sobre a importância de votar nas próximas eleições europeias que decorrem, em Portugal, no dia 9 de junho. O prémio converteu-se numa viagem de três dias, de 16 a 18 de novembro, a Bruxelas, para visitar o Parlamento Europeu.

Foi a primeira vez que Leonardo Moreira esteve no centro das decisões europeias. O aluno de Comunicação e Serviço Digital foi um dos mentores do projeto “Assembleia de Alunos” da Escola Profissional da Moita. “É um Parlamento onde os alunos tomam decisões e organizamos eventos para a nossa escola”, explica. É composto por alunos de todos os cursos que se reúnem, em plenário, uma vez por mês, para discutirem os pontos mais importantes para melhorar o estabelecimento de ensino. “Uma das últimas sugestões foi a necessidade de existirem aulas de educação sexual na nossa escola.” E, sem hesitar, identifica que a melhor ideia que saiu da assembleia foi a criação de “aulas de tutoria”. “É aí que conseguimos solucionar os problemas que os alunos enfrentam. O objetivo é mesmo dar voz aos alunos porque às vezes surge problemas e ninguém sabe deles e não são resolvidos”, nota, orgulhoso dos projetos que o levaram a Bruxelas onde conseguiu constatar que é no Parlamento Europeu – tal como na assembleia de alunos da Escola Profissional da Moita – que se decide a vida de milhões de europeus.

Leonardo Moreira é estudante da Escola Profissional da Moita. Foi um dos vencedores do prémio “Por que vou votar nas Eleições Europeias de 2024”
(Foto: DR)

Da Escola Profissional do Fundão, foi o projeto do grupo de Cristóvão Farinha, de 20 anos, o premiado para conhecer as instalações do Parlamento em Bruxelas, onde trabalham cerca de cinco mil pessoas. Na génese do trabalho que permitiu a quatro alunos da escola integrarem esta viagem está a conceção de uma aplicação, com a ajuda de inteligência artificial, com toda a informação sobre a União Europeia. “Juntámos uma equipa de programadores da escola e começámos a trabalhar no desafio”, conta o estudante do curso Técnico de Comércio. “Fizemos um trabalho de pesquisa, nos sites oficiais da União Europeia e em jornais portugueses, para desenvolver um breve texto sobre a importância da União Europeia, com alguns protótipos de questões e as devidas respostas. Depois, com esse trabalho e essas informações, ensinámos a própria inteligência artificial”, resume. Na prática, estes alunos treinaram a inteligência artificial com conteúdos sobre o Parlamento Europeu para conseguirem automatizar essa informação numa aplicação onde é possível adquirir conhecimentos através da resposta a quizzes didáticos. Cristóvão não tem dúvidas: “Com esta aplicação é mais fácil de chegar aos mais jovens e também pode ser aplicada em sala de aula, para dinamizar um pouco as disciplinas”. Já à pergunta do que fazia se fosse eurodeputado por um dia, o aluno da Escola Profissional do Fundão não hesita: “Trazia os jovens para o centro das decisões. Somos a base e a força das sociedades e estamos cada vez mais afastados da política”.

(Foto: Matthias V.D. Elbe/wikimedia)

No fundo, esse também foi o objetivo de Margarida Marques, que está a terminar o seu primeiro mandato, ao proporcionar a visita destes jovens para “perceberem como é que funciona a União Europeia, como é que funciona o Parlamento Europeu e também permitir aos deputados poderem ouvir as pessoas”, refere a deputada do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu e antiga secretária de Estado dos Assuntos Europeus. Satisfeita com os projetos que foram selecionados e que teve oportunidade de conhecer mais de perto, durante um jantar no Parlamento Europeu com a comitiva portuguesa, a eurodeputada salienta que estes jovens “procuraram sair da escola e contactar a população”. “Foram a outras escolas e promoveram o interesse das pessoas sobre a União Europeia e a importância que a União Europeia tem nas suas vidas”, acrescenta, congratulando-se pela iniciativa.

Impacto da UE na vida dos jovens

Em 2019, a taxa de abstenção nas eleições europeias atingiu os 69% em Portugal, com pouco mais de três milhões de votantes, segundo dados da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna. Foi a sexta pior taxa da UE. Para Margarida Marques são números “muito elevados”, mas que não espelham o interesse dos mais novos. “Não acho que os jovens estejam afastados da política ou das questões europeias ou da União Europeia”, admite. No seu entender, a votação do Brexit – referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia – é um bom exemplo disso mesmo, uma vez que foram os jovens que votaram para “que o Reino Unido se mantivesse na União Europeia”.

(Foto: Freepik)

“Há um interesse dos jovens pelas políticas europeias porque há um impacto enorme na vida destes jovens, por um lado, e, por outro, esta possibilidade de mobilidade das pessoas de um país para o outro, de fazer um estágio de dois meses, ou de uma semana, reforça a ideia da cidadania europeia”, constata Margarida Marques.

Jorge Gamboa, 50 anos, professor e diretor pedagógico da Escola Profissional do Fundão, vai mais longe e afirma que os jovens devem reconhecer a importância da União Europeia diariamente nas suas vidas. “Há 50 anos, para ir a Espanha, era necessário esconder os rebuçados debaixo do banco para passarem na fronteira. Isso é algo que os jovens nunca pensaram. O que seria de Portugal se estivesse sozinho à procura de vacinas contra a covid-19, o que seria do combate aos incêndios, das nossas estradas, da ferrovia ou do ensino profissional que é financiando pelo Fundo Social Europeu?”, questiona. “Os jovens têm de encarar a Europa no centro deles, nas suas regiões. Iniciativas como esta permitem dizer aos jovens que se vão assumir no futuro e que vão ser os multiplicadores de informação que a Europa está presente todos os dias na nossa vida”, defende.

Os quatro alunos da Escola Profissional do Fundão, acompanhados pelo professor Jorge Gamboa
(Foto: DR)

Consciente desta presença diária das políticas europeias na sua vida está Ana Vedor, de 18 anos, estudante da Escola Europeia de Ensino Profissional de Braga, que tem descoberto a Europa através do programa Eco-Escolas. Um projeto promovido pela Associação Bandeira Azul da Europa e que reconhece as escolas que se distinguem com boas práticas ambientais. Se a estudante do curso Técnico Auxiliar de Saúde fosse eurodeputada por um dia, uma das suas apostas seria “criar mais estratégias para preservar o ambiente”. “Vivemos neste planeta, por isso temos que obrigatoriamente cuidar dele e esse é um tema que deve estar sempre na agenda de qualquer político.” Para conquistar um lugar nesta viagem a Bruxelas, Ana, juntamente com três colegas, desenvolveu um conto infantojuvenil “Pó de Estrelinhas”, que conta a história de uma “estrelinha” que cai no continente europeu e parte à descoberta da União Europeia. A história é didática e permite conhecer o passado e os pilares da União, nomeadamente a Liberdade e a Igualdade, bem como a importância do voto.

Como combater a abstenção e os extremismos

Foi nessa necessidade de ir às urnas que os alunos se debruçaram nestes trabalhos e que confirmaram na sua estadia em Bruxelas. Margarida Marques não vê que a redução da idade mínima ou o voto obrigatório possam contribuir para a redução dos números da abstenção. A eurodeputada considera que ao reduzir a idade mínima para os 16 anos estamos a aumentar também o “número de votantes” e, simultaneamente, podemos ter também percentagens mais elevadas de abstenção. Já quanto ao voto obrigatório, a socialista não está convencida que “leve mais pessoas a votar” ou que isso signifique “uma adesão efetiva à União Europeia”.

Margarida Marques, eurodeputada portuguesa do Partido Socialista, está prestes a completar o primeiro mandato de cinco anos no Parlamento Europeu
(Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

“É preciso continuar a debater e as pessoas perceberem que as decisões da União Europeia têm implicações nas suas vidas. Por exemplo, quando vemos aparecer em vários países forças antidemocráticas, anti-União Europeia, isso preocupa-nos. O que esperamos é que as pessoas entendam, sintam que é necessário defender aquilo que já conseguimos. É necessário defender que a União Europeia continue a ser democrática, continue a ter um papel importante nas nossas vidas, nos países e no Mundo”, realça.

Para Sara Pereira, professora da Área de Integração na Escola Europeia de Ensino Profissional de Braga, que acompanhou um grupo de quatro alunos, este é um momento importante para a UE chamar para si os mais novos, tal como aconteceu ao longo desta iniciativa. “A União Europeia é um projeto de paz. E, num momento em que em toda a Europa os extremismos, principalmente da extrema-direita, começam a crescer, a Europa tem que ter um papel fundamental. E tem que fazer uma aproximação aos jovens.” No seu entender, é cada vez mais importante que os eurodeputados, bem como os decisores políticos, falem “cara a cara” para estes jovens. “Era importante haver mesmo ciclos em que os políticos europeus fossem às escolas para existir esse contacto direto.”

Do Parlamentarium à Grand Place

A visita dos 50 jovens portugueses a Bruxelas não se ficou apenas pelas instituições europeias. Depois de contactarem com a eurodeputada Margarida Marques, de visitarem o Parlamentarium (o centro de visitantes do Parlamento Europeu) e o hemiciclo, os estudantes aproveitaram para conhecer uma pouco mais da capital da Bélgica. “A cidade é incrível. Gostava de voltar cá mais uma vez. Visitei a Grand Place e algumas lojas de chocolate mais famosas. Como gosto de chocolate, não perdi a oportunidade de as visitar”, revela Leonardo Moreira.

Já os estudantes da Escola Profissional do Fundão levam várias ideias na bagagem para implementar na escola. “Com a visita ao Parlamentarium reparámos que existem vários sistemas visuais que podemos elaborar nas nossas aulas. O mapa gigante da União Europeia, com todos os países membros, também nos chamou a atenção e vamos fazer um idêntico para colocar na entrada da nossa escola para servir de inspiração para os nossos colegas”, assinala Cristóvão Farinha.

O grupo de quatro alunos da Escola Europeia Profissional de Braga, com a professora Sara Pereira
(Foto: DR)

O professor Jorge Gamboa não tem dúvidas do sucesso da iniciativa e dos três dias na capital belga. “Somos uma escola do Interior. Não somos menos, mas estamos no Interior. Os alunos não vão a Lisboa com regularidade e, para muitos deles, foi a primeira vez que andaram de avião”, destaca. “Este prémio, de contacto direto com as instituições europeias, foi a cereja no topo do bolo que lhes permitiu ter uma experiência que tão cedo não se repetirá nas suas vidas.”

Para Ana, Cristóvão e Leonardo, três dos jovens que ganharam este prémio, o dia 9 de junho terá um significado muito especial. Será a primeira vez que vão votar e contribuir para a eleição dos 21 eurodeputados portugueses. “Estou muito ansiosa. É uma escolha importante, é o meu direito e dever. E acho que é algo muito importante de se fazer”, reconhece Ana Vedor. A aluna de Braga sabe que ainda precisa de “recolher muita informação” para saber em quem vai votar. Mas está confiante: “Vai ser a primeira vez e vou fazer a escolha mais acertada”. No mesmo sentido, Cristóvão Farinha também confessa que ainda não sabe onde irá colocar a cruz no boletim de voto, até porque ainda não são conhecidos os candidatos e os programas eleitorais. Mas atira: “A minha escolha será pelas causas. Será no partido, independentemente da sua ramificação política, que for ao encontro daquilo que a sociedade necessita e dos valores democratas”.

O grupo completo que teve a oportunidade de visitar as instituições europeias
(Foto: DR)

Leonardo, que se sentiu um verdadeiro “político” em Bruxelas, também sabe que a ida às urnas, em junho, é ponto assente. E vai deixar um apelo aos colegas: “Escolham conforme as expectativas que têm para o futuro. Analisem bem as propostas e façam a escolha de acordo com as necessidades que sentem, mostrem que a vossa presença vai definir um rumo para a sociedade e para a União”. E as ambições profissionais do estudante da Moita também já estão bem definidas na sua cabeça: quer trabalhar em atendimento ao cliente e gestão de redes sociais. Depois de nascer em Cabo Verde e viver em Lisboa, espera encontrar trabalho em França, onde tem “muita família”. Vai novamente à procura de oportunidades no centro da Europa.

Sabia que…

  • 3 314 423 foi o número de votantes portugueses nas últimas eleições de 2019 (30,73%). Estavam inscritos 10 786 049.
  • 705 deputados compõem o hemiciclo do Parlamento Europeu (61% foram deputados estreantes, 41% mulheres). Estão distribuídos por sete grupos políticos, representando 200 partidos nacionais. Há 21 deputados portugueses.
  • A sede do Parlamento Europeu é em Estrasburgo, onde decorrem 12 sessões plenárias por ano. As reuniões de comissão e dos grupos políticos acontecem em Bruxelas. Existe ainda uma delegação do Parlamento Europeu no Luxemburgo, que acolhe a parte administrativa que garante o normal funcionamento da instituição. Em Bruxelas está concentrado o maior número de funcionários (cinco mil), no Luxemburgo são dois mil e em Estrasburgo apenas 200.
  • Na União Europeia, existem dois países onde os jovens podem ir às urnas com 16 anos: Áustria e Malta. Na Grécia, o direito ao voto é concedido aos 17 anos. Já o voto é obrigatório em cinco estados-membros: Bélgica, Bulgária, Luxemburgo, Chipre e Grécia.
  • O Parlamento Europeu lançou um site dedicado às eleições europeias do próximo ano. Para consultar, basta aceder ao seguinte link https://elections.europa.eu/pt/. Na página encontra tudo sobre o processo legislativo e algumas razões para não deixar de usar o seu direito de voto. Pode ainda ativar um lembrete, através do email, para não se esquecer de votar.