Rim: o silêncio que impacta a vida

São várias as tarefas desempenhadas por este órgão, sendo a mais comum a filtração, ou seja, "a limpeza do sangue" (Foto: Kindel Media/Pexels)

O rim tem diversas funções, a mais importante de filtração. Quando deixa de funcionar, a vida do doente é fortemente afetada. O Dia Mundial do Rim celebra-se a 10 de março e o foco é alertar a população para a importância do diagnóstico precoce.

Descobriu por um acaso o problema nos rins. Milton Monteiro, agora com 71 anos, percebeu em 1978 que o seu dia a dia mudaria para sempre. Um ano antes do diagnóstico foi fazer análises de rotina, “check-up completo”, chama, garantindo que estava tudo bem. Bastaram alguns meses para que uma dor de cabeça e tensões altas o levassem a novos exames, que, agora, mostravam alterações. Valores da ureia elevados.

Iniciou-se uma panóplia de análises, exames e uma biópsia. Até chegar o diagnóstico: doença renal crónica. “Tinha a sentença lida, a partir dali, só sobrevivia com diálise.” E desde então a rotina de Milton Monteiro mudou, das idas semanais ao hospital até às alterações na alimentação. Especifica que só pode “comer 200 gramas de fruta diariamente”. Tem todas as refeições contadas.

A doença renal crónica não é o único problema a afetar os rins, mas é o principal, até porque, aponta Edgar Almeida, “todas as doenças dos rins podem evoluir para essa fase”. O presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia explica que os problemas neste órgão descrevem-se pelo aparecimento de “cicatrizes” irreversíveis, que se vão acumulando até ao órgão perder as suas funções.

A incidência portuguesa

Em Portugal, lamenta o nefrologista, o quadro “não é simpático”. São mais de 20 mil as pessoas que se encontram atualmente numa fase “muito avançada” da doença renal crónica, sendo obrigadas ao tratamento de diálise. Mas não é apenas o estádio mais grave da doença que preocupa o médico, que reforça que 6,1% da população tem já algum tipo de doença renal crónica. “Em termos europeus é mau.”

E o que faz o rim? São várias as tarefas desempenhadas por este órgão, sendo a mais comum a filtração, ou seja, “a limpeza do sangue”. “No nosso metabolismo produzem-se substâncias que têm de ser eliminadas, algumas pelo fígado e outras pelo rim. Com a falência dos rins e a acumulação destas substâncias, ocorre uma intoxicação urémica.”

É nesta fase que o doente vê a sua vida mudar para sempre, tal como aconteceu com Milton Monteiro, professor do secundário aposentado e atualmente a viver no Bombarral. O tratamento assenta, essencialmente, em diálise, dividida em dois tipos: a hemodialise e a diálise peritoneal.

Edgar Almeida é presidente da Sociedade Portuguesa de Nefrologia e quer alertar para a importância do diagnóstico precoce (Foto: DR)

Há casos em que se coloca a opção de transplantação, que é o tratamento que mais aproxima o doente da sua vida anterior, salienta Edgar Almeida. No entanto, lembra o médico, “a transplantação só é possível com imunossupressores, para manter o rim, e estes têm efeitos adversos”, que nem todos os doentes aguentam. Também não há órgãos suficientes, alguns doentes estão limitados pela idade ou por outras doenças que tenham. Por isso, essa opção nem sempre se coloca. O nefrologista Edgar Almeida coloca esperança nos novos medicamentos, “que estão a ter indicações para utilização e que ganharam aprovação recentemente. Já é um pouco mais para intervir e a expectativa é que estes novos fármacos possam trazer benefícios”.

Milton Monteiro conhece a realidade de fazer diálise três vezes por semana, cada sessão a durar quatro horas. “É um tratamento a que nenhum doente se dirige com vontade, vamos porque é a única possibilidade de viver. Não é que passemos mal, mas podemos passar, e esse receio leva-nos a ir com medo.” No caso do ex-professor, durante uma das sessões já se sentiu mal, mas garante que não ficou “traumatizado” – é a única hipótese que tem para viver. Também já fez uma transplantação. Diz, em tom de brincadeira, “que é o doente mais experiente do assunto”. “Fiz transplante com rim de cadáver, mas mais tarde ou mais cedo o corpo começa a criar anticorpos e rejeita o rim.” Recebeu o “novo” órgão em maio de 1987 – tem todas as datas na ponta da língua – e este “funcionou” até setembro de 2003. Depois disso, voltou à rotina da diálise.

Os números de Portugal relativamente ao resto da Europa não são animadores. Segundo Edgar Almeida, só o Chipre e a Grécia têm mais pessoas a fazer diálise por milhão de habitante. “Preocupa-nos porque gostaríamos de não estar nesta posição e para isso temos de aumentar o conhecimento da doença renal, quer a nível da população geral, quer de outros médicos de cuidados de saúde primeiros.” Essenciais, diz, pelo que o nefrologista considera primordial quando se fala do assunto: o diagnóstico precoce. “O rim é um órgão silencioso e os problemas só se percebem através de análises. É preciso fazê-las porque um diagnóstico atempado pode acrescentar anos de vida com qualidade.”