Raffaella Petrini: a supermanager

Raffaella Petrini é secretária-geral da governação da cidade do Vaticano

Nascida em Roma há 52 anos, esta freira franciscana é a número dois da gestão da cidade do Vaticano. Cuidadora de jardins e amante de flores, politóloga com pulsão executiva e professora de economia do bem-estar, quer cortar custos e defende uma economia com mais comunhão, mais cooperação, mais contribuição.

“Papisa de Bergoglio”, chamam-lhe, talvez por Francisco a ouvir tão atentamente. Esta freira franciscana, cuidadora de jardins e amante de flores, politóloga com pulsão executiva e professora de economia do bem-estar, prende de tal forma a atenção papal que recebeu do chefe máximo, contra a ortodoxia de séculos, a Secretaria-Geral da governação da cidade do Vaticano. Pela primeira vez na história da Igreja Católica, uma mulher ocupa o lugar de número dois do Executivo da cidade-Estado. Petrini será responsável pela gestão administrativa, pelos Correios e pela Polícia. Será dela o escritório até agora apenas ocupado por bispos.

Terá um superior masculino, é certo – o arcebispo espanhol Fernando Vérgez Alzaga. Mas não só responderá diretamente a Francisco, como a sua nomeação, pelo relevo, acrescenta um passo importante à intenção papal de prosseguir o caminho da inclusão das mulheres, a que se junta a designação de Charlotte Kreuter-Kirchhof, número dois do Conselho de Economia, poucos dias antes. Importante e irreversível.

Raffaella Petrini, de 52 anos, nasceu em Roma e pertence à Congregação das Irmãs Franciscanas da Eucaristia (a casa mãe está localizada em Meriden, Connecticut, EUA). Acrescente-se que era, até esta nomeação, funcionária da Congregação para a Evangelização dos Povos e pouco mais se sabe das origens e história de vida desta romana. A reverência à criação, legado de Francisco de Assis, nota-se no gosto pelas flores. E a pobreza, marca da espiritualidade franciscana, está no horror ao desperdício, bem afirmado em alguns discursos.

Recentemente, em conferência no Instituto Internacional Camillianum, em Roma, foi clara, referindo a “linha divisória que os economistas traçam entre o crescimento e o desenvolvimento”. A dicotomia entre “crescimento económico e as transformações mais profundas no plano social e cultural”, num “equilíbrio difícil de alcançar”. Por um lado, a “redução de custos e desperdícios” -, e ela está apostada em cortar custos. Do outro, pelo desenvolvimento, as novas correntes de pensamento económico, associados à tecnologia das redes e às plataformas digitais, que afirmou seguir com “muito interesse”, entre eles “a produção colaborativa baseada em recursos comuns”. A franciscana defende mais comunhão, mais cooperação, mais contribuição.

Em 2013, Jorge Mario Bergoglio comprometeu-se a aumentar a participação feminina na Igreja, especialmente em postos que marcassem o rumo da instituição. A nomeação de Barbara Jatta, em 2016, para diretora dos museus vaticanos – estreia feminina numa área fundamental que alia a difusão cultural à fonte fundamental de receitas – foi o primeiro passo relevante. Jatta inaugurou a presença de mulheres nas reuniões da Cúria. De resto, é a única que não tem um superior hierárquico masculino.

Ao longo dos anos, muitas outras mulheres foram nomeadas por Francisco. Os avanços são reconhecidos pelos católicos que reclamam reformas e criticados pelos que insistem numa transição mais suave.

Na verdade, ainda não há muito tempo, vários departamentos do Vaticano não dispunham de casas de banho para mulheres. E ainda que a última década demonstre um aumento de presença feminina de cerca de 6% na cidade do Vaticano e, em duplicado, nos dicastérios (dados da Santa Sé), as últimas nomeações, sendo muito importantes, sem outras medidas correm o risco de redundarem apenas em fachada. Críticas internas de quem quer, por exemplo, que as mulheres tenham uma palavra na avaliação de candidatos a seminaristas e na aprovação definitiva da entrada daqueles no sacerdócio – como já acontece em França, ideia do cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação dos Bispos. “Para um padre ou um seminarista, a mulher representa o perigo. Na realidade, o verdadeiro perigo são os homens que não têm uma relação equilibrada com as mulheres. Esse é o perigo do sacerdócio e o que devemos mudar radicalmente”, declarou, numa entrevista.

Francisco parece estar consciente: “Esta é uma sociedade com uma atitude masculina forte”. Melhor do que ninguém, sabe do que fala.

Raffaella Petrini
Cargo: secretária-geral da governação da cidade do Vaticano
Nascimento: 15/01/1969 (52 anos)
Nacionalidade: Italiana