Queda acentuada de cabelo após infeção pela covid-19

O componente crucial do tratamento é ter consciência que se trata de um fenómeno frequente e autolimitado (Foto: Freepik)

O "Consultório Médico" desta semana, por Dinis Brito.

Desde que tive covid que noto que perdi muito cabelo. Já tomei suplementos, mas o volume não voltou a ser o mesmo. Já há estudos que mostrem de as pessoas terão recuperação de cabelo? O que posso fazer para voltar a ter cabeleira que tinha?
Juliana Brito, pergunta recebida por email

Cara leitora, os sintomas que persistem após a covid-19 são uma entidade clínica cuja fisiopatologia não está completamente estabelecida. Pode atingir vários órgãos, provocando sintomas heterogéneos que podem aparecer, persistir ou reaparecer após a fase aguda da infeção.

Estima-se que 80% das pessoas infetadas com SARS-CoV-2 poderão desenvolver um ou mais sintomas de longo prazo. Os cinco sintomas mais comuns são a fadiga (58%), a dor de cabeça (44%), défice de atenção (27%), queda de cabelo (25%) e falta de ar (24%).

O crescimento do folículo piloso é cíclico. As fases de crescimento rápido e alongamento do cabelo alternam-se com períodos de repouso e regressão, conduzidos por diversos sinais químicos. Este ciclo pode ser dividido em três fases: anágena (crescimento), catágena (transição) e telogénica (repouso). A perda de cabelo após a covid-19 pode ser considerada como eflúvio telogénico, que é definida pela perda de cabelo difusa após uma infeção ou outro importante fator agressor. As transições foliculares prematuras fazem com que o cabelo passe da fase de crescimento ativo (anágena) para a fase de repouso (telogénica) promovendo a sua queda. Alguns medicamentos poderão contribuir para este fenómeno. Trata-se de uma condição autolimitada, mas que pode causar sofrimento emocional.

A grande maioria dos pacientes recupera com a resolução da covid-19, embora a queda possa, em alguns casos, prolongar-se por meses. O tratamento consiste na correção da causa subjacente, que poderá passar pela interrupção de medicamentos que eventualmente possam ser prejudiciais. A correção de deficiências nutricionais pode ser importante. Vários medicamentos têm sido tentados, embora sem evidência robusta que os sustente. O minoxidil, a suplementação com biotina, ferro e/ou vitamina D podem ser úteis. De igual forma, poderão ser recomendados champôs anticaspa ou loções à base de corticoides.

O componente crucial do tratamento é ter consciência que se trata de um fenómeno frequente e autolimitado. O cabelo acabará por parar de cair e começará a crescer novamente, sabendo que poderá ter de esperar até 18 meses para que a espessura do cabelo volte ao que era.

Espero ter ajudado. Até breve.

Dinis Brito, médico de família

*A NM tem um espaço para questões dos leitores nas áreas de Direito, Jardinagem, Saúde e Finanças pessoais. As perguntas para o Consultório devem ser enviadas para o email [email protected]