Valter Hugo Mãe

Os gatos vadios


Quero ser como as crianças quando inventam países onde só há chocolates e gomas de açúcar, e tudo é colorido e o arco-íris impera e vomita corações sobre as cabeças das pessoas todas as manhãs.

Andam pelas redondezas alguns gatos vadios. Já vi uns quatro diferentes, mas apenas dois são constantes. A cada vez que passo a grande porta vermelha do muro, tardam uns segundos a miar de fome, vindos dos telhados ou dos campos ao lado. Aos dois gatos constantes chamei Caravaggio e Picasso. O primeiro é pequeno e muito lindo, o segundo talvez seja fêmea e é maior, fala mais intenso, como se suplicasse protestando também.

Levo-lhes comida e observo. O Caravaggio come gemendo. Alguém me disse que é um sinal de satisfação e agradecimento. Entristece-me ou, melhor, enternece-me. Acho o bicho tão magro que me dá pena. Depois de comer, afeiçoado, sobe ao pé do espigueiro e fica ao sol por um bocado, a enfeitar o granito com sua ondulação permanente, um movimento imparável que parece manifestar satisfação e vigília.

Queria exterminar as ervas daninhas que se puseram a nascer entre as pedras da eira, mas o jardineiro diz que se atirar para ali veneno ainda mato os gatos. Outra opção é dobrar as costas e arrancar uma a uma cada plantinha silvestre, o que é absolutamente desadequado a um espírito contemplativo como o meu.

Passei a vida sem me relacionar com gatos. Preferi sempre os cães e quis dos felinos a mesma proximidade, a alegria inequívoca quando nos encontramos. De um tempo para cá, contudo, alguns gatos entraram no meu reduto de amor e confiança e já só demorei uns minutos até decidir que daria nomes aos vadios que rodam a minha casa, para me preocupar com eles e os favorecer de qualquer jeito. A minha casa já terá sido lugar de matanças. Muita galinha e porco, muita ovelha e vaca terão ido por ali até à morte. Não quero mais. Quero ser como as crianças quando inventam países onde só há chocolates e gomas de açúcar, e tudo é colorido e o arco-íris impera e vomita corações sobre as cabeças das pessoas todas as manhãs.

O pequeno gato preto que por aqui anda é mais raro. Dizem-me que dá azar, está habituado a ser escorraçado, tem maior medo e muito maior necessidade de ser matreiro. É uma desgraça sem fim que culpem a cor de um gato pelo azar que acontece. A superstição é carregada de preconceitos e estupidez. O Picasso, branco e de olhos claros, entra na cozinha e tenta subir à banca onde tenho os sacos com a comida para lhes dar. Esse, sim, é um ladrão todo sedutor que se pavoneia diante de mim acostumado a passar impune. Não o culpo. Se eu esfaimasse como deve esfaimar também roubaria de alguma cozinha aberta. Não seria roubar. Seria manter-me vivo, talvez desejar viver o bastante para alguém me levar para casa, me querer, me dizer coisas num idioma intraduzível que eu apenas entendesse com um gesto bonito de mão.

Alguns amigos assustam-me. Consideram que se alimento os gatos me arrisco a que multipliquem de quatro para vinte e depois cem ou mil. Por outro lado, se não tiverem fome alguma também não caçarão os bichos que por ali se ponham a conspirar. Os ratos, dizem. Um gato de barriga cheia até se amiga de um rato. Perde a sua natureza.
Eu nunca soube ter um gato. Parece que não sei ter sequer um gato vadio, quer dizer, um gato que não é mesmo de ninguém.