O euromilhões de quem venceu o cancro duas vezes

Escaparam ao cancro mais do que uma vez. Hoje, são pessoas diferentes. Não se consideram mais fortes nem mais lutadores do que aqueles a quem a doença rouba a vida. Sobreviveram ao fim de tratamentos e cirurgias. E contam a história sem se esquecerem de confessar o medo. O mesmo medo que está sempre presente. Mas que os torna muito mais atentos a qualquer sinal suspeito.

Escusa de jogar no Euromilhões porque já lhe saiu a sorte grande duas vezes.” A frase vai sendo recorrente em consultas de oncologia e é proferida por alguns médicos de pessoas que sobreviveram ao cancro. Não uma, mas duas vezes. E a quem a vida, que está longe de ser um jogo, voltou a ganhar equilíbrio depois de vários avanços e recuos, vitórias e retrocessos. O cancro não surgiu pela primeira vez na vida de Vera Lima, de 39 anos. Já tinha perdido o pai para a doença, com apenas 54 anos – apareceu fulminante e o desfecho aconteceu no espaço de mês e meio, há uma década. Habituada a fazer o autoexame da mama, detetou algo estranho enquanto tomava banho, em agosto do ano passado. “Ao levantar o braço, vi uma retração na pele por baixo da mama que nunca me tinha chamado à atenção”, conta. Partilhou a dúvida com o marido, marcou consulta com a ginecologista, fez vários exames e perante o pedido de “uma biópsia de urgência” percebeu qual seria o vaticínio. Agiu rapidamente. “O cancro não espera.”

A confirmação chegava uma semana depois: carcinoma da mama invasivo grau II. Perante o diagnóstico, chorou das dez da manhã ao meio-dia. “A partir daí decidi que não ia chorar mais. Ia fazer o que tinha de ser feito.” Vera mora em Areosa, Viana do Castelo, e foi seguida na CUF Porto, por opção própria. Teve medo de se aventurar pelos hospitais públicos por tudo o que ouvia nos noticiários sobre a pandemia. Duas semanas depois, estava no bloco operatório para ser submetida a uma tumorectomia [cirurgia conservadora da mama] onde foi possível preservar a mama. “Felizmente, a doença estava localizada e o gânglio sentinela veio negativo.” Teve ainda de se submeter a 20 sessões de radioterapia, de segunda a sexta-feira, até dezembro de 2020.

“Todos os dias acordo com medo, mas tenho de aprender a fechar a página deste livro. Não podemos ficar a pensar toda a vida se o cancro vai voltar”, reconhece Vera Lima
(Foto: Rui Manuel Fonseca/Global Imagens)

Na primeira consulta de seguimento com o cirurgião que a tinha operado, a 6 de fevereiro deste ano, lembrou-se de mostrar um sinal que já tinha identificado há dois anos na orelha, mas que cresceu, entretanto. “O médico não gostou nada do que viu e reencaminhou-me de urgência para uma colega dermatologista.” Voltou a fazer os exames necessários e recebeu o diagnóstico de melanoma. Uma semana depois, regressava ao bloco. “Fiz amputação de metade da orelha com reconstrução imediata.” O segundo tumor também estava localizado e não foi necessário submeter-se a mais tratamentos. “Já não sei qual terá surgido primeiro porque estava mais assustada com a questão da mama e foi por esse motivo que procurei logo ajuda médica.” A vigilância do cancro da mama e do melanoma acontece de seis em seis meses, mas Vera desloca-se mensalmente à CUF Porto para que lhe seja administrada uma injeção. Faz ainda uma medicação hormonal que a irá acompanhar por alguns anos.

Enfrentar o embate

No passado, António Sala já tinha ultrapassado dois tumores benignos, aos quais teve de ser operado. “Foram difíceis e bem superados”, recorda o conhecido comunicador. Mas, em fevereiro de 2012, sofreu “um embate tremendo” quando ouviu pela primeira vez que tinha um cancro num rim. “Foi brutal. Parecia que o Mundo me fugia debaixo dos pés. Tal e qual como se me tivessem tirado o tapete da vida que eu estava a pisar.” Depois, com tempo, foi serenando e ganhando confiança para enfrentar o que seria necessário. Agarrou-se à sua fé e acreditou que tudo correria bem, com a ajuda dos médicos, da família e dos amigos. Foi operado no Hospital de Egas Moniz, em Lisboa, para lhe ser retirado 40% do rim, esteve internado duas semanas e não precisou de tratamentos adicionais. Atualmente, efetua análises e exames radiológicos uma vez por ano, rotina que foi sendo espaçada ao longo do tempo.

Dois anos depois, novembro de 2014, recebe um novo diagnóstico. Tinha um cancro da próstata. A reação foi diferente da primeira e “um pouco menos dramática”, como o próprio assume. Pensou que seria outro grande susto e que iria voltar a viver tudo o que tinha passado. “Rapidamente tentei recuperar o otimismo e a força anímica. Voltaram a ser momentos tensos, mas que, graças a Deus, às equipas médicas e aos que me amam, foram mesmo ultrapassados”, diz.

António Sala já era voluntário na Liga Portuguesa Contra o Cancro no IPO de Lisboa desde os anos 1990, antes de lhe ser diagnosticado qualquer cancro. “Nos últimos anos, dou apoio às refeições em vários serviços, mas, infelizmente, devido à pandemia, muito do voluntariado está suspenso e sinto falta desta função semanal.” Depois de ele próprio superar dois problemas oncológicos severos, sente que a sua passagem de testemunho de esperança, que sempre tentou deixar em cada doente com quem se cruzava, acaba por ser “motivadora, inspiradora e bastante encorajadora” para todos os que o veem como um exemplo concreto e um caso real de superação da doença.

“Sou mais sereno, relativizo melhor as diferentes situações do dia a dia. Vejo o Mundo com olhos mais tolerantes”, assegura António Sala
(Foto: Álvaro Isidoro/Global Imagens)

Elisabete Dias, 40 anos, vive em Ourém, mas desloca-se regularmente ao IPO de Lisboa, hospital onde já tratou dois tumores malignos. Casou em outubro de 2008 e associou uma perda de peso acentuada ao stress da cerimónia. Em fevereiro do ano seguinte, detetou um pequeno quisto na zona do pescoço. Seguiram-se os procedimentos normais e, em março de 2009, recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Não recorda ao pormenor todos os detalhes, mas as datas marcantes continuam agarradas à memória e ao corpo. “Apesar de não ser um processo fácil, consegui ser acompanhada no IPO de Lisboa, fiz tudo o que me foi recomendado e tudo correu pelo melhor.”

Foi ainda necessário fazer radioterapia devido a uma mancha que tinha na zona torácica, mas optava pelo período da noite, pois tinha de se deslocar todos os dias à capital e continuava a trabalhar. “Senti um embate aquando do diagnóstico, mas pensei sempre que a vida não acabava ali. A vida ainda agora estava a começar.” Contou com um grande apoio do marido e dos pais. Os três acompanharam-na em todos os tratamentos, o que fez toda a diferença. “Nunca falharam.” A sua profissão – educadora social num centro de apoio a pessoas com deficiência mental e profunda – ajuda-a a relativizar as situações. “Um cancro abala a nossa estrutura e a nossa família, mas diariamente lido com pessoas que vivem com muito mais limitações e que não deixam de ser felizes.”

Seguiram-se anos de vigilância de rotina com o desejo de ser mãe sempre presente, mas nunca lhe foi garantida essa possibilidade devido aos tratamentos que tinha realizado. Numa das consultas, foi-lhe dito que estava em condições para começar a tentar engravidar. Tudo correu bem e no espaço de três anos, entre 2013 e 2016, teve dois filhos, José e João.

A tranquilidade e a felicidade viriam a sofrer um revés quando, a 18 de maio de 2019, realizou uma mamografia e percebeu pela reação da técnica que algo não estaria bem. “Foi tão expressiva que não me restaram dúvidas.” Voltou ao IPO de Lisboa e sem demoras foi reencaminhada com urgência para uma biópsia. Chegado o resultado, recebeu a notícia de que as características do tumor obrigariam a realizar uma mastectomia com reconstrução mamária. “Não posso mentir sobre o impacto que teve em mim este segundo diagnóstico. Já era mãe, tinha um filho de cinco anos e outro com 20 meses, e isso muda tudo.” Nessa fase, os pais asseguraram a logística com os filhos. E o marido, “o companheiro sempre presente e que não vacilou”, como descreve, emocionada, acompanhava-a aos tratamentos de quimioterapia que se seguiram.

Gestão de emoções

Existem vários fatores de risco para o surgimento de mais do que um cancro, nomeadamente, o risco hereditário, alguns tipos de infeções virais e fatores ambientais. “Um tumor primário é uma lesão maligna que se desenvolve num órgão específico”, explica Patrícia Pereira, médica no Serviço de Oncologia Médica do IPO de Lisboa. Na consulta, é muito mais frequente surgirem casos de recidivas e metastizações de um cancro primário já tratado no passado do que o aparecimento de dois ou mais cancros que surgem de forma independente.

A nível psicológico, a forma como cada doente lida com o aparecimento de um segundo cancro é muito variável. Magda Oliveira é psicóloga clínica de referência da consulta de psico-oncologia na CUF Porto e acompanha vários casos de segundos tumores malignos. “O que observo clinicamente na fase de sobrevivência é muito semelhante ao que observo em qualquer outro sobrevivente em termos de manifestações ou respostas psicológicas. O que que me parece diferente em alguns dos casos clínicos é a reação inicial ao diagnóstico.” Ao revisitarem o processo de doença e ao estarem expostos a uma certa antecipação daquilo que vão reviver, podem suceder várias emoções. “Depois do choque inicial, reorganizam-se melhor e reequilibram-se mais rapidamente do que outros doentes porque têm elevadas expectativas de sobrevivência relacionadas com a experiência de sucesso do primeiro diagnóstico.”

A psicóloga compara os doentes que passam por mais do que um tumor primário e os que têm uma recidiva ou metastização do primeiro tumor, para quem “a perceção de ameaça à vida é muito maior, tendo a experiência uma dimensão muito mais angustiante”. Existe ainda um segundo grupo de doentes em que se observa a exacerbação de alguns dos medos e inseguranças. “Uma sensação de maior desproteção e uma maior dificuldade na gestão da incerteza, não só por parte dos doentes, mas também pelos familiares”, acrescenta.

Também Patrícia Pereira assiste na prática clínica a diferentes perfis de sobreviventes. “Há doentes que enfrentam com menos medo e lidam melhor com as idas regulares ao hospital, pois já conhecem os tratamentos e, nomeadamente, a quimioterapia não é desconhecida. Mas também há aqueles para os quais os tratamentos da primeira neoplasia foram traumatizantes e que têm mais receio.” O momento é desafiante para todos. E o mesmo acontece com a equipa clínica que tem de estudar cada caso e a possibilidade de um doente fazer determinado tratamento porque “há várias drogas que têm efeito cumulativo no organismo, o que significará que se este for atingido não podemos usar essa droga de novo porque pode causar danos em órgãos nobres. No entanto, por vezes, essa droga é importante para se atingir a remissão”, especifica a médica do IPO de Lisboa. E é ainda preciso considerar a capacidade funcional do paciente. “Um doente que receba um diagnóstico de um segundo cancro muito perto do final de tratamento do primeiro pode não apresentar condições para a realização do melhor tratamento na altura do diagnóstico do segundo tumor.”

Viver sem estômago

Aos 65 anos, Alberto (nome fictício) recebeu a notícia de que tinha um cancro da mama. Mais raro nos homens, pode levar a uma deteção quando a doença já está muito avançada. “Não foi o meu caso, felizmente”, salienta. Uma espécie de “picada” na mama, ténue, mas estranha o suficiente para fazer soar os alarmes, levou-o a procurar ajuda médica. A confirmação de tumor maligno, muito pequeno e em fase inicial, obrigou a uma cirurgia e a tratamento hormonal durante cinco anos. “Não precisei de quimioterapia.” Apesar de ter sido seguido num hospital privado, foi reencaminhado para a consulta de risco familiar do IPO de Lisboa. A médica Patrícia Pereira revela que existem mutações no gene BRCA1/2 que predispõem para “um maior risco de cancro de mama, ovário, próstata, pâncreas e melanoma, o que implica que os doentes tenham uma vigilância mais apertada”.

“Encarei a situação com alguma descontração e tive o apoio de familiares. Passado o choque, pensei: é para fazer, vamos embora”, explica “Alberto”
(Foto: Paulo Spranger/Global Imagens)

À época, já reformado, Alberto foi surpreendido com um segundo diagnóstico, dois anos depois, numa endoscopia de rotina. Apesar de, nesse caso, não ter quaisquer sintomas, foi-lhe detetado um cancro no estômago. Sempre foi respeitador dos exames de rotina adequados à idade e pode agradecer ao zelo com a saúde o facto de ter identificado mais um cancro em fase precoce. “Fiquei um pouco em choque quando recebi a notícia porque tinha conhecimento de um caso próximo com a mesma doença e que a pessoa não tinha sobrevivido, mas no IPO elucidaram-me que o meu problema era superável. Dada a natureza do tumor, foi-me retirado o estômago na cirurgia [gastrectomia total]”, pormenoriza. Seguiu-se uma fase de readaptação, sobretudo ao nível alimentar, uma vez que, apesar de não ter muitas limitações a esse nível, tem de comer em menor quantidade. Por esse motivo, perdeu algum peso.

Alberto e os outros sobreviventes que participam neste artigo não precisaram de recorrer a apoio psicológico. “Encarei a situação com alguma descontração e tive o apoio de familiares. Passado o choque, pensei: é para fazer, vamos embora.” Pelo percurso, lidou ainda com duas metástases ósseas tratadas com radioterapia e uma massa tumoral que se alojou na zona suprarrenal e no baço, não operável, para a qual teve de fazer quimioterapia durante seis meses. Neste momento, vai ao IPO de Lisboa a cada mês e meio e tem uma vigilância apertada com exames complementares de diagnóstico e várias consultas de rotina. Não se incomoda com a apertada agenda hospitalar. “Fico até mais descansado porque, se surgir mais algum problema, estou convicto de que terá resolução precoce.”

O maior desafio para os sobreviventes é “a necessidade de lidar diariamente com o medo de uma recidiva e com toda a incerteza e vulnerabilidade que isso traz para a sua vida”, realça Magda Oliveira. Essa experiência intitula-se síndrome de Dâmocles e requer “que o doente aprenda a viver saudavelmente com uma espada suspensa sobre a cabeça. Este é também um período de confronto com as múltiplas sequelas que podem advir do trajeto de doença vivido até ao momento.”

Reaprender a respirar

Para o motorista Rui Cabral, de 43 anos, os corredores de vários hospitais do Porto não são desconhecidos. Mora em Gondomar e foi em 2017 que uma dor lateral na zona das costelas o alertou. O diagnóstico de cancro do pulmão não foi imediato. Inicialmente, pensava-se que teria um quisto ou um abcesso pulmonar. “Estive um mês internado para me ser administrado antibiótico, mas não adiantou.” Foi submetido a uma biópsia do pulmão no Hospital Eduardo Santos Silva, em Vila Nova de Gaia, onde, mais tarde, chegou a confirmação de tumor maligno no pulmão direito. Depois de passar sete meses em sessões de quimioterapia, fez vários exames e acabou por ser submetido a cirurgia no Hospital de São João, no Porto, em setembro de 2018.

“O trabalho ajudou-me a aliviar a cabeça. Ficava mais liberto e não me focava tanto no problema que estava a viver”, conta Rui Cabral
(Foto: Ivo Pereira/Global Imagens)

Seguiram-se três meses de reabilitação respiratória “para que o corpo se habituasse a viver sem a parte do pulmão que tinha sido extraída”.

Rui tentou levar uma vida tão normal quanto possível e depois de todo este processo foi voltando ao trabalho, com o apoio da entidade patronal, para que o regresso fosse tranquilo. Em simultâneo, fazia a vigilância habitual enquanto sobrevivente de cancro. “O trabalho ajudou-me a aliviar a cabeça. Ficava mais liberto e não me focava tanto no problema que estava a viver.”

Mas, em junho deste ano, Rui Cabral teve de ser submetido a radioterapia para tratar um segundo tumor do pulmão, no IPO do Porto, para onde foi reencaminhado. “Quando fazia os exames de rotina, já aparecia uma mancha no pulmão esquerdo que estava a ser vigiada.” Os apoios do pai e da madrinha foram essenciais durante todos os tratamentos. A psicóloga Magda Oliveira adianta que “para os familiares também é muito doloroso ver o doente a viver tudo novamente, muitas vezes ainda sem terem recuperado inteiramente da primeira experiência de doença”. E a mãe de Rui faleceu com cancro de mama aos 59 anos. “Foi detetado tarde e os tratamentos disponíveis não eram tão avançados como hoje”, lamenta.

Reviver o medo, mas não deixar de acreditar

Vera Lima está atenta a cada sinal de alerta. “Todos os dias acordo com medo, mas tenho de aprender a fechar a página deste livro. Não podemos ficar a pensar toda a vida se o cancro vai voltar. O que aconselho é agir logo ao mínimo sinal de alerta porque o tempo para agir é crucial.” Tem aproveitado a mudança para a casa nova, um projeto que tinha sido idealizado pelo pai há 12 anos e onde vive com o marido e os filhos, Matilde e Diogo. “Julgo que o projeto da moradia foi a minha maior motivação durante a doença.”

António Sala sente-se grato e feliz por estar bem. “Sou mais sereno, relativizo melhor as diferentes situações do dia a dia. Vejo o Mundo com olhos mais tolerantes e julgo que sou mais humilde e até um pouco melhor do que era antes como pessoa. Afirmo-o sinceramente e sem qualquer tipo de vaidade.”

O maior medo de Elisabete Dias era não estar presente no crescimento dos filhos. “Por mais fé que tenha em Deus, sempre tive muita confiança na medicina.” O cancro tornou-a mais compreensiva e empática. “Cada vez mais acho que devemos valorizar o que temos e descomplicar”, defende.

Alberto agarra-se ao otimismo para lidar com qualquer imprevisto. “Diz-me a experiência que devemos realizar os exames de rotina aconselhados para cada idade. O cancro existe, temos de viver com a doença, mas há que acreditar que vamos superar.”

Rui Cabral interpreta o duplo cancro do pulmão como uma verdadeira lição e sugere a outros sobreviventes que “não desistam”. “Sinto que mudei e comecei a olhar para as pessoas com outros olhos.” Sobreviver trouxe a todos uma nova vida e uma visão diferente do Mundo. Onde a fé, o amor e a ciência prevalecem.