Ensinar que na surdez cabem todos os sonhos do Mundo

Uma professora que ao fim de mais de 20 anos de ensino regular quis abraçar uma experiência tão exigente quanto singular, uma surda profunda que trocou a Biologia pela Educação para provar que não há barreiras intransponíveis, seis crianças que tentam constantemente ser maiores do que as dificuldades que se lhes colaram à pele. Desafios e conquistas de uma turma de surdos da Escola Básica Parque Silva Porto, em Lisboa.

David tem nove anos, cabelo ruço, olhos azuis penetrantes, gosta de Matemática, de pintar, de futebol, costuma jogar na escola, quando for grande gostava de fazer disso vida. Esconde timidamente as mãos nos bolsos, rodopia docemente os olhos antes de responder por gestos, meio a rir, meio introspetivo, como quem tem que pensar bem em cada resposta. Nasceu na Ucrânia, veio cedo para Portugal, é surdo. Mas é maior do que a surdez.

“Margarida, Margarida”, repete, para chamar a professora da sala e lhe pedir para ir à casa de banho. “O David já fala tudo, pode ter mais dificuldades em algumas coisas, mas já dá para perceber tudo o que quer dizer, tem tido uma evolução muito grande”, orgulha-se Margarida Gomes, professora titular do 3.º C, uma das cinco turmas de surdos da Escola Parque Silva Porto, em Benfica (Lisboa). “Aliás, o David é o meu intérprete, quando é preciso.”

Porque também para esta docente as aulas são um desafio constante, uma aprendizagem invariavelmente bidirecional. Depois de mais de 20 anos embrenhada no ensino regular, decidiu que queria ensinar uma turma de surdos. Mesmo que o conhecimento que tinha de Língua Gestual Portuguesa (LGP) fosse limitado: o alfabeto, meia dúzia de palavras, pouco mais. Mesmo assim achou que tinha de experimentar. “Pelo menos uma vez na vida.”

Mesmo sabendo de todas as dificuldades que vinham com a missão. “A principal, sobretudo no início, era não ter um conhecimento correto de LGP e ter de trabalhar com eles a oralidade, a leitura e a escrita.” Isso e o facto de os meninos que tem pela frente formarem um grupo exigente e heterogéneo.

Rafaela chegou no ano passado de São Tomé sem saber nada de LGP, Zara é paquistanesa, Gabriel veio de Cabo Verde com uma bagagem recheada de adversidades. A mãe nunca o foi realmente, ele tem um problema no crescimento, já teve até um AVC. E ainda há o Martim, o reguila muito bem-disposto que se apressa a contar (também por gestos) como adora aprender Português e Matemática. Ah, e escrever a data.

E o Afonso, oito aninhos, o mais novinho da sala, que diz que adora ir à escola por causa dos amigos e que quando for grande quer, imagine-se, estar ao telefone. Todos usam aparelho ou implante auditivo, o que lhes permite ouvir sons, mesmo que isso não garanta que os compreendam.

Gabriel veio de Cabo Verde e tem tido uma vida difícil. Oraliza, mas tem algumas dificuldades
(Foto: Gerardo Santos/Global Imagens)

Para ajudar Margarida a responder da melhor forma às necessidades dos alunos, a turma é acompanhada também por uma professora de Educação Especial. E por uma docente de Língua Gestual Portuguesa. Débora está mesmo em frente ao grande quadro verde, de frente para as mesas justapostas em formato de U, de onde os pequenos a observam atentos. Estão todos a conversar sobre a história que leram no dia anterior, ela ali no meio, rosto muito expressivo e gestos amplos e pronunciados, eles mais circunspetos, sem nunca deixar de interagir.

“Incentivar à luta individual”

Débora Carmo tem 42 anos, é professora de Língua Gestual Portuguesa há uns 20 – “já perdi a conta”, diz, meio a brincar, com a ajuda da intérprete -, tem um horário de 25 horas, divididas entre duas turmas. É surda profunda, ouve apenas pequenos sons, como as buzinas dos outros carros quando vai na estrada. Não tem implante nem aparelho auditivo. “Por opção minha”, esclarece, antes de se lançar no exercício de explicar porque quis ser professora de LGP.

“Bem, se calhar não tenho uma razão específica”, começa por dizer. E detém-se um momento. “Podia ter seguido Biologia, podia ter ido para a área da investigação. Mas há uns 20 anos havia uma falta muito grande de professores de LGP, era uma necessidade premente e fui contactada por vários professores que me incentivaram a seguir esta via. Acabei por aceitar, muito por querer proporcionar uma vida melhor às crianças surdas, queria poder ser um modelo, mostrar-lhes que podem fazer o que quiserem. Foi no fundo a forma que arranjei de incentivar à luta individual.”

Aprender LGP, garante, não é difícil. “É uma língua muito visual, há uma captação imediata. Claro que há coisas mais difíceis, gestos em que se enganam, mas regra geral as crianças surdas conseguem fazer uma aquisição muito rápida, no espaço de meses.” Rafaela, a menina de 11 anos que veio de São Tomé, é um bom exemplo disso. Chegou a Portugal praticamente sem conhecimentos prévios de LGP e numa questão de meses aprendeu a língua. “Ainda faltam aquisições mais complexas, mas coisas básicas ela já sabe.”

Débora Carmo tem 42 anos e é professora de Língua Gestual Portuguesa há uns 20. Chegou a ponderar seguir Biologia, mas optou pelo ensino para mostrar às crianças surdas que podem aspirar a um futuro risonho
(Foto: Gerardo Santos/Global Imagens)

No entanto, há barreiras que se continuam a erguer bem alto. “O grande desafio para mim são as crianças que vêm sem língua [sem conhecimentos de LGP]. O que acontece com as crianças ouvintes é que já nascem recetivas aos estímulos, têm um acesso à língua imediato e acaba por haver uma interiorização, uma aquisição de linguagem. O que acontece com as crianças surdas filhas de pais ouvintes é diferente. Porque muitas vezes os pais continuam a falar em língua portuguesa e os filhos são surdos e não ouvem. Isso cria uma grave barreira na comunicação.”

Por isso, a todos os pais com filhos surdos, deixa um apelo: “Os pais é que têm de se adaptar à criança. Os meninos surdos têm direito à sua língua. A grande luta dos professores de LGP é esta, a de sensibilizar os pais para esta mentalidade que tem de ser mudada”.

“Os professores saem arrasadinhos”

Aqui, na Escola Parque Silva Porto, parte integrante do Agrupamento de Escolas Quinta de Marrocos, um dos 17 agrupamentos de referência para educação bilingue no nosso país (e bilingue, porque se ensina tanto a Língua Gestual Portuguesa como o Português), a luta é uma espécie de missão diária.

Ao todo, a escola acolhe 71 alunos com necessidades educativas especiais, 47 deles surdos. Destes, 35 estão distribuídos por turmas bilingues (entre pré-escolar e 1.º Ciclo), outros 12 integrados nas turmas do ensino regular. Um desafio imenso, admite Isabel Neves, coordenadora deste estabelecimento escolar. “Na área da Educação nunca estamos habituados a nada, estamos sempre a habituar-nos. É muito duro, os professores saem daqui arrasadinhos, com tanta solicitação.”

A esta exigência constante juntou-se, durante a pandemia, uma dificuldade acrescida, tanto mais quanto falamos de grupos em que a leitura labial é fundamental para ajudar à compreensão de determinados sons: o uso das máscaras. “Se vieram dificultar? Muito”, esclarece Margarida, entre incontáveis solicitações dos pequenos.

“Sinto uma necessidade enorme de mostrar a boca, principalmente na parte de trabalhar com eles a oralidade. Estas [aponta para as máscaras transparentes doadas pela empresa Xula Mask] são melhores porque permitem uma maior visualização, mas não são perfeitas. Muitas vezes o que acabo por fazer é afastar-me e puxar a máscara um bocadinho para baixo. Porque se eles não desenvolverem a oralidade nunca conseguirão escrever como deve ser.”

Depois, claro, são as dificuldades inerentes ao trabalho com alunos surdos. “Há palavras que em LGP nem sequer usam. O ‘de’, o ‘para’, o ‘o’, o ‘a’. E temos de os pôr a escrever assim quando não estão minimamente habituados a isso. E na Matemática é complicado por causa da interpretação das perguntas e dos problemas. Não posso fazer como fazia nas turmas de alunos regulares, que leem e respondem sozinhos. Os conceitos de ‘quantos’, de ‘qual é a diferença’ são mais complicados para eles. Como é que se consegue? Com muito trabalho. Como eu costumo dizer: flete, insiste, flete, insiste.”

Quando chegou, David (à esquerda) nem sequer respondia. Hoje, até já é uma espécie de intérprete da professora titular da turma. À direita, Martim, de 12 anos
(Foto: Gerardo Santos/Global Imagens)

E a persistência vai dando frutos, numa luta diária que se transforma também numa aprendizagem recíproca. “Hoje já consigo comunicar muito mais em LGP. Ainda não consigo entender os intérpretes que aparecem na TV, mas já consigo comunicar com os meus meninos. Até ralhar. Antes dizia sempre: ‘Débora, ralha tu que ralhas mais rápido. Agora não”, atira, com humor. E os seus meninos, como lhes chama, também se fazem mais capazes a cada dia. “Desde logo nas atitudes, porque quando cá chegaram faziam o que queriam. Agora já aprenderam que há regras e as regras permitem trabalhar muito melhor.”

E dá o exemplo de David, o menino ruço de olhos azuis penetrantes, que hoje até já faz de intérprete, e que no primeiro dia “nem sequer respondia”. “Margarida, Margarida”, repete. Pequenos passos que fazem parte de uma caminhada maior. “Sobretudo tentamos mostrar que o Mundo não se divide entre surdos e ouvintes, que podem conseguir tudo o que quiserem, se se esforçarem.”

É essa a luta maior de Débora, surda profunda que há uns 20 anos, por vocação e altruísmo, preferiu fazer-se professora de LGP: “Não queria que as crianças surdas achassem que a vida delas ia ser limitada por serem surdas. Queria que os alunos olhassem para mim e pudessem ver que podem ter uma profissão boa, que podem ir à escola, que podem ir para a universidade. ” E então dedicou a vida a essa missão tão exigente, mas tão compensadora: ensinar que na surdez cabem todos os sonhos do Mundo.