Disfunção erétil: o estigma que não é causa perdida

Há fatores a ter em conta para prevenir a disfunção erétil, um problema que tem tratamento

A disfunção erétil atinge até 15% dos homens, mas os doentes diabéticos têm três vezes maior propensão de desenvolver o problema. A 14 de fevereiro assinala-se o Dia Europeu da Disfunção Erétil e o primeiro inimigo a combater é o estigma. Os tratamentos existem e são eficazes.

São poucos os estudos e os números concludentes. A realidade da disfunção erétil, apesar de afetar a saúde sexual, física e mental dos doentes, está sub-representada. Os números atuais apontam que entre 10 e 15% dos homens têm disfunção erétil. No caso dos diabéticos, o risco é três vezes maior. A prevalência altera-se com fatores como a idade, problemas físicos ou psicológicos e comportamentos de risco.

“É preciso normalizar.” José Luís Castedo explica que “é um problema importante que afeta muitos homens, mas que tem tratamento”. Por isso, frisa o endocrinologista do Centro Hospitalar Universitário de São João, “vale a pena referir ao médico”.

E, para José Luís Castedo, partilhar o problema quando ele acontece ainda é o maior desafio. “Se o médico não perguntar ativamente ao doente se tem disfunção erétil corre o risco de nunca saber.” Em contexto de consulta, a maioria dos doentes tem “vergonha ou inibição” de abordar questões do foro sexual. O médico salienta que, em alguns casos, “são as companheiras que referem o problema na consulta, porque afeta o relacionamento a dois”. No entanto, nos pacientes mais novos, o estigma começa a ser desconstruído e “nota-se uma maior facilidade em abordar o tema”.

Mas os médicos também não estão conscientes da importância do problema. “Por várias razões, ainda se pergunta pouco nas consultas se há algum problema de disfunção sexual.” Uma das explicações apontadas pelo endocrinologista é a pressão colocada na Medicina Geral e Familiar, que “não permite perguntar sobre tudo”. “Mas também há uma certa inércia, porque este continua a não ser um dos pontos-chave no interrogatório dos doentes, mas devia.” Ainda mais no acompanhamento de doentes diabéticos, indica José Luis Castedo, pois “quando falamos em complicações da diabetes, a disfunção erétil é uma delas”.

Diabetes, risco maior e antecipado

Acerca do total de diabéticos afetados pela disfunção erétil, o médico de endocrinologia aponta, mais uma vez, a impossibilidade de obter números exatos. Além da sub-representação, na diabetes acrescenta-se o facto de esta ser uma doença multifatorial. “Há muitos fatores adjacentes que também contribuem, nomeadamente a idade, a obesidade, a duração da diabetes, entre outros.” Mas há um dado certo: “A disfunção erétil pode surgir de 10 a 15 anos mais cedo no homem diabético quando comparado com o não diabético”.

A diabetes é uma das causas mais frequentes da disfunção erétil

Mas quais os fatores que colocam um diabético em maior risco? “A diabetes é uma doença metabólica que se caracteriza pela hiperglicemia, mas abrange muitos outros componentes, como o aumento do colesterol, a hipertensão, a obesidade – e tudo isto são fatores que aumentam o risco de disfunção erétil.”

Outro aspeto diferente na diabetes é o maior risco de desenvolver hipogonadismo, em que existe uma menor secreção de testosterona, importante para a libido. Também as alterações nos micro-vasos (microangiopatia) e a disfunção dos nervos (neuropatia diabética), associados à diabetes, têm influência, pois “o processo da ereção depende da função nervosa autónoma e da circulação”, afetadas por estes dois problemas.

A diabetes, tal como a doença cardiovascular, provoca ainda a disfunção do endotélio, o revestimento interior dos vasos sanguíneos, levando a alterações na circulação do sangue que têm consequências na ereção. José Luís Castedo sublinha que “a questão circulatória tem uma importância tão grande que a disfunção erétil é, muitas vezes, um possível aviso para um problema cardiovascular futuro”.

Conhecer as causas para prevenir

São muitos os fatores que podem levar à disfunção erétil. “Há uns anos havia uma grande discussão sobre se teria mais influência a parte orgânica ou a psicológica, hoje sabemos que não é possível separar uma coisa da outra.” Pelas múltiplas origens que o problema pode ter, quando identificado, o primeiro passo é reconhecer a causa.

José Luís Castedo, endocrinologista, salienta a importância de combater o estigma associado à disfunção erétil

Os comportamentos de risco são os primeiros a eliminar. “Se o doente fuma, o mais importante é terminar com o hábito o mais rápido possível.” Também a medicação e as perturbações na saúde mental podem influenciar e, por isso, devem ser analisadas e, quando necessário, alterar comprimidos ou dar acompanhamento de psiquiatria ou psicologia são soluções para a disfunção erétil.

Já para os doentes diabéticos, manter os fatores de risco controlados é a chave. “Promover um controlo glicémico bom e tratar precocemente a hipertensão, de forma a prevenir lesões irreversíveis nos vasos sanguíneos” são duas ações a ter em conta para os diabéticos, que têm um risco acrescido, e precoce, de disfunção erétil.

Todas estas causas da disfunção erétil, quando eliminadas, podem resolver o problema. Mas, ao mesmo tempo, estas causas são também indicadores de fatores de risco e, por isso, quando tidos em conta antecipadamente, previnem ou atrasam o aparecimento da disfunção sexual. Por isso, José Luís Castedo salienta que levar uma vida saudável é fundamental, também, no combate à disfunção erétil.

Mas, depois de identificado o problema e de eliminados os fatores de risco, a primeira intervenção ocorre com recurso a medicação. Os inibidores da fosfodiesterase, o método mais conhecido para tratamento da disfunção erétil, “provocam um relaxamento a nível peniano que faz com que o sangue entre e permita a ereção”. Tal como todos os restantes números associados a este problema, também a taxa de sucesso dos tratamentos é variável. Mas o médico do Centro Hospitalar Universitário de São João garante que a maioria tem tratamento, com os estudos a apontarem entre 55 e 80% dos doentes tratados com a toma de medicação.