Margarida Rebelo Pinto

Da amizade, dos homens e das mulheres


Rubrica "A vida como ela é", de Margarida Rebelo Pinto.

Ao longo da vida já fomos quase todas, de uma forma ou de outra, vítimas de algum tipo de abuso.

No meu hemisfério particular, um dia bom é um dia em que escrevo e um ano bom é um ano em que faço um amigo. Para quem só pode trabalhar na solidão, as ligações afetivas ganham uma dimensão quase de urgência, são oásis de carinho e de conforto para habitantes de um deserto quotidiano. Um ano bom não acontece todos os anos. Quando a vida me traz alguém que vale a pena, passo a chamar-lhe Mister ou Miss, seguido do ano em que o conheci. Não tem sido um ano fácil, porque ganhei uma Miss 2022 e perdi (ou dispensei) dois Mister, ambos pela mesma razão.

Em 1938, nos Estados Unidos, uma mulher foi presa por se recusar a ir depor a tribunal de vestido. Helen Hulick tinha 29 anos e era educadora de infância. Três vezes foi de calças, três vezes o juiz Arthur Guerin se recusou a ouvi-la, acabando por prendê-la durante cinco dias. O caso Hulick ficou para a história como mais uma conquista das mulheres em relação à sua liberdade pessoal. Helen era bonita e bastante feminina, tal como Laureen Bacall, que popularizou as pantalonas tornando-as um ícone de moda simultaneamente chique e afirmativo. Talvez o juiz tenha pensado que ela estava a ousar equiparar-se a um homem, quando estava apenas a mostrar que tinha o direito de se vestir como queria.

Os homens padecem de dois erros de perceção milenares: o primeiro é pensarem que queremos ser como eles. Não queremos. O que queremos é ser vistas como iguais e tratadas com os mesmos direitos. O segundo é acreditarem que uma amiga pode ser “partner in crime”, tal como um homem. Os dois amigos, que deixaram de o ser, eram machos de coutada, sedutores e inteligentes, com jeito para estimar as amigas e propensão para trair e enganar as mulheres com quem, ao longo da vida, se foram envolvendo. Em ambos os casos sentiram que “falhei” porque não me coibi de transmitir às respetivas o que sabia das suas vidas quando estas, também minhas amigas e contando com o meu habitual espírito de solidariedade feminina, me pediram que lhes dissesse a verdade. Perante as consequências que daí resultaram, ambos se sentiram traídos com a minha alegada falta de lealdade. A resposta foi igual para os dois: não sou um homem, portanto não contem com aquele corporativismo militante praticado pelas hostes masculinas que defende sempre o amigo, mesmo que seja um serial killer. E quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele.

Ao longo da vida já fomos quase todas, de uma forma ou de outra, vítimas de algum tipo de abuso. Nem todas as pessoas possuem ferramentas de defesa, estas adquirem-se muitas vezes a duras penas, aprendendo às nossas custas. O que continua a espantar-me é a atitude masculina de acreditar que um homem pode fazer tudo só porque é homem, porque tem tanto medo da dor que se deixa levar pelo prazer, e teme tanto a morte e a perda da juventude que engana a mulher ou a namorada para se sentir vivo e desejado. Não vale tudo, nem no amor nem na amizade.

Ninguém gosta de perder amigos, mas, se for em nome de princípios dos quais não queremos abdicar, então que assim seja. E já agora, também uso pantalonas, graças a mulheres como Helen Hulick, por isso lhe presto a minha solidária homenagem.