Quando a velhice é um quarto escuro

Conceição tem sete filhos, Ermelinda três. Ambas estão esquecidas no hospital, enquanto aguardam por uma vaga num lar. Julieta abriu a porta de casa ao filho num momento de aperto. Foi destratada e insultada, acabou ameaçada de morte. E ainda há os episódios infelizes em lares. Camaratas atulhadas, idosos amarrados e infantilizados. E um alerta a soar fundo: “Muitos de nós vão ter um choque terrível, se tiverem a sorte de chegar à velhice”.

Conceição teve uma vida cheia. Dois casamentos, sete filhos, três do primeiro marido, mais quatro do segundo, um monte de netos, já lhes perdeu a conta certa mas serão aí uns 20. Entre a roda-viva familiar, ainda se entregou à labuta, foi padeira e rolheira, vergou a mola para garantir a justa reforma e um fim digno. E a vida foi seguindo o seu curso. Os filhos cresceram, emparelharam-se, saíram de casa, um por um, até ficar só ela, na “casinha” que tem em Mozelos (freguesia de Santa Maria da Feira). Já lá vão uns anos largos. Entretanto, um deles arrepiou caminho, o casamento deu para o torto, pediu à mãe que o voltasse a acolher, ela, claro, nem hesitou em abrir-lhe a porta. Foram meses assim, também já não sabe ao certo quantos, há um ponto na vida em que contar o tempo pouco importa. “Entretanto endireitou a vida dele, foi-se embora e nunca mais o vi”, lamenta Conceição, o brilho das estrelas prateadas da bandolete que traz sobre a cabeça a contrastar com as sombras que lhe turvam o olhar enquanto fala. Sofre de insuficiência cardíaca e doença pulmonar obstrutiva crónica, dá meia dúzia de passos e logo fica ofegante. E ainda há os problemas de visão. “Já não vejo para fazer nada.” Durante uns tempos, ainda se foi aguentando por casa, usava parte da reforma para pagar a uma senhora que a ajudava com as refeições e outros cuidados. “Mas à noite ficava sozinha.” Até ao dia em que ficou sozinha de vez.

Algures em junho, foi às urgências por causa de uma dor na anca. Medicaram-na e mandaram-na para casa. Mas no dia seguinte já lá estava outra vez, por “exaustão da cuidadora”, por não haver quem pudesse acolhê-la, por manifesta impossibilidade de sobreviver sozinha. E então foi ficando, dia após dia, irremediavelmente confinada às paredes do hospital, mesmo com condições clínicas para ter alta, uma vida tão cheia a dar lugar a um imenso vazio. Conceição, 90 anos, está sentada no cadeirão junto à cama, tem uma espécie de manta cor-de-rosa sobre os ombros, o tubo de oxigénio para a ajudar a respirar, vai falando lentamente, sem tocar no chá que arrefece, melancólico como o tempo. Cinco meses depois, continua a aguardar por uma vaga num lar. Ninguém sabe quanto tempo mais terá de esperar. Entre filhos e netos, nem um para cuidar dela. Uns mudaram-se para longe, outros ligam de quando em vez, há ainda os que simplesmente “não fazem caso”. Só uma filha e duas netas vão aparecendo para a visitar. “Tenho saudades, então não tenho? Eles lembrados ainda mais.” E os olhos tristes humedecem-se de súbito, sem ceder ao pranto. “Nunca pensei que com tantos filhos isto me ia acontecer. Sempre me dei bem com eles. Custa um bocado. Mas também não os posso obrigar, não é?”. E a pergunta fica a ecoar, o ar faz-se mais pesado, Conceição baixa os olhos para o chá já frio, resignada com a solidão que a entorpece.

Ermelinda, de Vale de Cambra, também a sente. Aos 94 anos, sofre de insuficiência cardíaca, as pernas já lhe falham, não consegue dar dois passos sem se agarrar à mesa, uma velhice cambaleante que se fez mais amarga há um par de meses, quando deu entrada nas urgências com uma dor na virilha e por lá ficou, à custa de não ter quem dela cuidasse. Resiste ao queixume, ainda assim. “Estou bem, estou bem. Hoje dói-me a barriga, mas de resto estou bem.” Ermelinda tem um terço enredado na mão esquerda, uns olhos claros muito expressivos, um manto de rugas que contam a história de uma vida passada a trabalhar na serra, a cavar, a “tirar o milho” e o que mais fosse preciso.

Nunca casou, mas teve três filhos, uma rapariga, dois rapazes, todos reformados, nenhum disponível para a acolher de momento. Ermelinda até já viveu com dois deles, primeiro o mais novo, depois o mais velho, mas um teve problemas de saúde e foi internado e o outro, quando contactado para a ir buscar ao hospital, disse não ter condições para tratar da mãe. Porque a casa onde vive tem muitas escadas, porque está sozinho, porque não é capaz. A filha, essa, nem sequer lhe telefona. “Mas os irmãos são bons, não me vieram buscar porque não podem. E o meu filho vem aqui visitar-me”, desculpa-os Ermelinda, a generosidade que se sobrepõe à angústia de se ver só. “Para onde gostava de ir? Olhe, para onde Deus nosso senhor me levar. Mas não quero ir para longe.”

E nisto, desmorona, as lágrimas começam a cair-lhe, vai limpando os olhos a um lenço cinzento que por ali tem, aflige-se com a ideia de ir para um local mais distante e que os filhos deixem de a visitar. “Porque eles também não têm muito dinheiro”, insiste, condescendente. Jura até que preferia ficar no hospital, que não importa se num lar vai ter uma sala de convívio e tudo, o que importa é o bem-estar, e ali é muito bem tratada, não poupa elogios, ainda por cima está perto dos filhos. Mas lá reconhece que gostava era de ficar com eles, que não tem jeito chegar a velha para ficar sozinha, que a ausência de quem ama lhe tolhe os dias e o coração. “Saudades? Tenho. Mas de que me vale?”. E a pergunta volta a dançar no vazio, enquanto Ermelinda continua a tentar secar as lágrimas ao lenço cinzento, aqui há luz de sobra, mas a velhice pode ser um quarto escuro.

Conceição e Ermelinda não estão sós nesta angústia. Só aqui, no Hospital São Miguel, em Oliveira de Azeméis, que funciona como uma espécie de unidade de retaguarda do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga (CHEDV) para os chamados internamentos sociais, há dezenas de idosos na mesma situação. Gente a quem os familiares mais próximos não podem (ou não querem) dar a mão, gente que se vê privada do afeto de quem ama no ocaso da vida, gente que acaba condenada a esperar por uma vaga nas unidades de cuidados continuados ou nos lares, numa tendência que tem crescido a olhos vistos: se no final de 2017 havia, no CHEDV, 12 pedidos pendentes para integração em ERPI, no final de 2021 o número, que cresceu todos os anos desde então, fixava-se nos 51. “Temos cada vez mais familiares que no momento da alta não estão disponíveis para acolher o idoso”, sublinha Ana Morais, responsável pelo serviço social deste centro hospitalar. “Uns dizem que não se conseguem adaptar ao novo estado do doente, outros que estão cansados ou que invocam diferendos familiares. Há situações em que há uma impossibilidade clara dos cuidadores, outras em que não. Mas em última análise a verdade é que os casos estão a aumentar e a aumentar de uma forma exponencial. É uma situação que há uns 20 anos era muito rara, mas que se começou a acentuar de há uns anos para cá.”

Há mais de duas décadas a trabalhar no hospital, Ana Morais aponta até algumas explicações para o fenómeno. “O aumento do número de casos não só é reflexo de uma população mais envelhecida [segundo os Censos 2021, as pessoas com 65 ou mais anos representavam já mais de 23% da população portuguesa], mas cada vez mais dependente. A Medicina trouxe-nos mais anos de vida, mas não necessariamente com mais qualidade. E isso leva a que haja filhos cada vez mais idosos, que já não podem ou não querem tomar conta dos pais. Depois, é preciso olhar para a mudança do estilo de vida. Para o facto de a mulher ter entrado no mercado de trabalho, quando antigamente ficava em casa e quase tinha como responsabilidade tomar conta dos filhos, dos pais, dos sogros. E até para o facto de nos tempos que correm querermos tudo muito rápido, o que não é compatível com o tempo de que um idoso necessita.” Defende, por isso, que sejam criados procedimentos e regras que ajudem a desmontar “esta nova problemática”. E a adoção de medidas estruturais, nomeadamente através de “políticas que se adaptem a esta nova realidade” e ajudem “a proteger um grupo muito significativo da população que é a população idosa”.

(Foto: Pedro Correia Global Imagens)

Até porque o problema está longe de se cingir ao Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga. O Barómetro de Internamentos Sociais, divulgado anualmente pela Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, revelou que, a 16 de março deste ano, havia nos hospitais do SNS 1048 “internamentos inapropriados”, representando 6,3% do total de internamentos hospitalares. O número traduz-se num aumento de 23% face ao mesmo mês período do ano passado (quando foram registados 853 casos). A região Norte (47%) e a de Lisboa e Vale do Tejo (34%) são as que apresentam maiores taxas de internamentos inapropriados, sendo responsáveis, em conjunto, por mais de oito em cada dez casos. Segundo o mesmo estudo, a falta de resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados explica mais de metade destes casos (59%), verificando-se ainda que cada internamento indevido dura, em média, 29,9 dias. No entanto, como recentemente deu nota o “Jornal de Notícias”, há casos em que estas situações se prolongam durante meses.

À “Notícias Magazine”, a secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, lembra que as vagas nas Instituições Particulares de Segurança Social (IPSS) – e mesmo nos lares privados, com quem a Segurança Social estabelece acordos para a transferência de doentes – não são “infinitas” e que a resposta dada é “a possível”. De resto, admite, “há uma reflexão de fundo necessária”, que tem procurado fazer. E que passa, desde logo, por adotar “uma lógica mais preventiva”. “Temos tentado usar as verbas disponibilizadas, seja no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, seja no âmbito do novo quadro comunitário, para apostar em novas soluções no âmbito do envelhecimento.” E que vão desde situações de habitação colaborativa, o chamado co-housing, à promoção das respostas intergeracionais (por exemplo, através de lares em espaços partilhados com creches) e das ERPI aldeias. Vinca também a importância de reforçar os serviços de apoio domiciliário e a aposta nos centros de dia, numa lógica mais preventiva que pode ajudar a reduzir o número de situações de institucionalização. Aponta ainda que as situações de abandono constituem crime e que para os casos em que haja manifesta falta de condições, está sempre disponível a Linha Nacional de Emergência Social (144). “O que não se pode é lavar as mãos e não se procurar articular uma resposta com a Segurança Social, achando que compete ao Estado resolver tudo daí em diante. Não é esta a formação que queremos ter enquanto sociedade”, vinca.

A chamada de atenção remete-nos para uma questão mais lata que entronca na forma como nós, enquanto sociedade, estamos a tratar os mais velhos. Ainda recentemente, num artigo de opinião no “Jornal de Notícias”, Fernando Araújo, atual CEO do SNS e na altura presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de São João, chamava a atenção para o facto de não estarmos a tratar condignamente os idosos.

“Vem buscar-me, estou no inferno”

A prova são os episódios de violência e maus-tratos que nos vão entrando em casa diariamente, sob a forma de notícias. “Idosa agredida pelo neto por não querer ir levantar a reforma”, “Filha mata mãe e esconde-a em casa”, “Deixa mãe morrer à fome e tira pensões para vinho”, “Detido por sequestrar e manter sogro em condições desumanas”, “Tenta estrangular a mãe por esta se recusar a dar-lhe dinheiro”. Uma realidade que está também plasmada nos números. Só no ano passado, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou cerca de 1600 idosos vítimas de crime e violência, o que corresponde a uma média de quatro pessoas por dia. A APAV revelou que a maioria das vítimas é do sexo feminino (75%), com idades entre os 70 e 74 anos, e que em 29% dos casos a vítima é pai ou mãe do autor do crime. Mais de metade das vítimas (820) apoiadas estava reformada.

É o caso de Julieta (nome fictício), setenta e muitos anos, residente numa aldeia do centro do país. Durante décadas, foi sujeita à manipulação exercida por um dos filhos, que cedo começou a ter problemas com drogas. A história é partilhada pelo neto. “Dizia-lhe que devia dinheiro a este e àquele, que o matavam, que isto, que aquilo.” A pressão durou anos sem-fim, por entre tratamentos e recaídas. Pelo meio, a droga destruiu-lhe (ao filho) o casamento e tudo o resto, acabou a viver numa casa “deplorável”, com más condições de higiene, sem comida, até com o frigorífico desligado. E isto apesar de toda a ajuda que lhe era dada por parte dos familiares. A dada altura, depois de um internamento hospitalar, jurou não ter condições para voltar para aquela casa e pediu à mãe que lhe reabrisse a porta. Ela acedeu. “Porque filho é filho”, justifica o neto.

Mas o que Julieta pretendeu que fosse um ato de boa-fé acabou a tornar-se um abismo de violência psicológica. “Nada o agradava, nem os cuidados que ela tinha, nem a comida que fazia. Destratava-a, desconsiderava-a, desatava aos gritos, chamava-lhe nomes. Foi de tal ordem que às tantas ela me ligou a dizer: ‘Vem buscar-me porque eu estou no inferno’.” Carlos estava a trabalhar, não pôde ir, mas ligou a outro familiar, para que lá acorresse de imediato. Foi aí que as coisas se extremaram. “Mal ele o viu, ameaçou a minha avó de morte.” Assustada e transtornada, Julieta fugiu só com a roupa que tinha no corpo e refugiou-se na casa de um familiar, onde ainda hoje vive. Porque, apesar de terem apresentado queixa na Polícia, o caso continua pendente nos tribunais. Porque o trauma foi tal que, mesmo ao fim de anos, continua assustada e prefere abrir mão da vida na casa que sempre teve do que ter de enfrentar o filho para o expulsar dali. “Depois de tudo, ela não quer de todo voltar a vê-lo.” Carlos conta até que, apesar de evitar falar no assunto, a avó começou a ter consultas de Psiquiatria, que toma antidepressivos, que se tornou uma pessoa ansiosa e com problemas de sono. “Mesmo na casa em que está agora sente-se insegura.” Como um trauma que se cola à pele para sempre. Ainda mais quando a idade traz consigo redobradas doses de vulnerabilidade.

É também para prevenir situações deste género que a GNR tem, desde 2011, em marcha a iniciativa “Censos Sénior”, uma operação sazonal que visa primeiramente sinalizar pessoas idosas que vivam em situação vulnerável, seja por falta de apoio familiar e social ou por se encontrarem geograficamente isoladas. E que também revela dados importantes. Desde logo o facto de mais de metade dos casos de violência ocorrerem dentro de casa. E de em mais de 30% dos casos os autores da mesma serem os próprios filhos. Nota ainda para o número de idosos que vivem sozinhos (sem rede de apoio), isolados (geograficamente) ou em situação de vulnerabilidade: segunda a Operação Censos Sénior 2021, eram mais de 44 mil.

De resto, destaca Ricardo Guimarães da Silva, chefe da repartição de prevenção criminal e policiamento comunitário da GNR, o trabalho dos militares não se resume à sinalização destas pessoas. Passa também por acompanhá-las e sensibilizá-las para a adoção de comportamentos de autoproteção, evitando que sejam vítimas de crime. Seja o crime a burla, a violência ou o furto. “O principal conselho é sempre que sejam desconfiados de forma saudável”, resume. Não raras vezes, cabe-lhes também ser o ombro amigo de quem vive enredado na solidão, tornando-se assim mais vulnerável aos olhos de burlões e outros malfeitores.

Maria Isabel Dias, socióloga que coordenou o estudo “Harmed – o abuso de idosos: determinantes sociais, económicas e de saúde”, apresentado em junho de 2020, e que se debruçou sobre um universo de 677 pessoas com mais de 60 anos, residentes no Porto, salienta que, muitas vezes, há precisamente um conjunto de fatores que reforçam as vulnerabilidades e os riscos desta franja da população. “São pessoas muitas vezes com trajetórias socioprofissionais precárias, com condições de saúde deficitárias, que vivem isoladas, que são infoexcluídas. Daí que os abusos, os maus-tratos e a negligência sejam riscos sérios a que estas pessoas são acometidas.” A prova é que, entre os quase 700 inquiridos no estudo, um quarto deles relatou ter sofrido algum tipo de abuso no ano anterior, tendo o abuso psicológico sido o mais frequente (relatado por cerca de 20% do universo representado no estudo). O mesmo documento indica que dois terços dos idosos vítimas de abusos optam por não pedir ajuda ou relatar os incidentes. Um comportamento que a docente da Faculdade de Letras entende também como resultado de uma certa “autodesqualificação” decorrente de “representações da velhice altamente estereotipadas e idadistas”. “Muitas vezes as pessoas nem têm consciência do que configura abuso e acabam por interiorizar a culpa. ‘Ai a minha filha trabalha tanto e ainda tem de cuidar de mim.’ Esta ideia de fardo é alimentada pelo idadismo e acaba por passar de geração em geração, sendo interiorizada pelas pessoas idosas.” E o processo pode ser ainda mais complexo num contexto de um idoso institucionalizado. “A denúncia torna-se mais difícil porque as pessoas estão muitas vezes numa situação de dependência extrema e temem deixar de ser cuidadas”, considera Maria Isabel Dias.

Amarrados e infantilizados

O caso das instituições que acolhem idosos – e a forma como os acolhem – é outra das pontas relevantes deste novelo. Ainda recentemente, as imagens de uma idosa acamada, coberta de formigas e com uma ferida aberta, num lar da Santa Casa da Misericórdia de Boliqueime, em Loulé, nos confrontaram com essa realidade. Carmen Garcia, enfermeira especialista em Geriatria que, por ter integrado as brigadas anticovid passou por dezenas de lares pelo país fora, também já se deparou com situações lamentáveis. Mesmo que sejam casos pontuais, ressalva. Como a de um “lar terrível” onde foi encontrar uma espécie de camarata atulhada de “senhoras completamente caquéticas, cheias de escaras”. Ou a de um outro onde foi dar com um quarto que não tinha maçaneta e onde os idosos estavam fechados há dois dias, sem que ninguém tivesse dado por nada.

Mas o problema vai para além disso. “Os lares estão transformados em mini-unidades de cuidados continuados. Idosos medicados, acamados, com algálias, com sondas. E a questão é que estas instituições nem sequer estão obrigadas a ter enfermeiros a tempo inteiro”, aponta, defendendo uma divisão assente no grau de autonomia dos doentes. Chama ainda a atenção para outras práticas negativas, que são rotineiras em muitas instituições: desde logo “a imobilização dos membros dos idosos”. “Amarram-lhe as mãos e ele ali fica. Sendo que aquele idoso não vai perceber porque é que aquilo está a acontecer, não está a fazer mal a ninguém e só se tenta levantar se não estiver bem. Além de que nunca vi ninguém a acalmar-se quando está preso.” Mas também a infantilização (“dizem-se coisas como ‘estava a portar-se mal’, ‘vamos lá comer a sopinha’ e infantilizam-se os idosos a um ponto ridículo”), a despersonalização (“uma pessoa que toda a vida tomou banho ao fim do dia chega ao lar e tem de tomar às sete da manhã e jantar às 18.30 horas”). Carmen reconhece que, na maioria dos casos, estes comportamentos não resultam de má-fé ou negligência, mas de falta de conhecimento. De meios também. E pede que se reforce a aposta na formação aos funcionários dessas instituições.

Também Patrícia Paquete, terapeuta ocupacional que dá formação a estas instituições “na perspetiva da mudança de paradigma da prestação de cuidados às pessoas mais velhas e às pessoas com demência em Portugal”, põe o dedo na ferida. “O problema é que as instituições de caráter social têm uma organização muito hierarquizada e centrada nos técnicos e muito pouco centrada na pessoa. Um modelo que desempodera quem está institucionalizado. As pessoas pagam, e bem, para lá estar e depois há um desempoderamento total, ficam simplesmente à mercê de quem lá trabalha. Não há uma má intenção, de fazer mal. Há um desconhecimento que está baseado no idadismo.” Patrícia lembra até o caso de um lar por onde passou onde se amarrava um idoso a um poste no meio de uma sala, pelo simples facto de querer sair para ir comprar cigarros.

Ainda em relação aos lares, João Gorjão Clara, internista que se debruça sobre a Geriatria há quase 50 anos, tendo mesmo a competência nesta área reconhecida pela Ordem dos Médicos, acrescenta um outro ponto à discussão: a importância de criar legislação que garanta a obrigatoriedade de assistência médica nos lares. Foi a pensar nisso que em abril deste ano criou a Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados, a que preside. “Atualmente, a concessão do alvará obriga a que as ERPI tenham contratos com enfermeiros, mas não com médicos.” Lembra que os doentes idosos têm “particularidades muito próprias da sua evolução”, vincando a importância de apostar na formação e na criação de unidades de Geriatria nos hospitais. Foi ainda o mentor da campanha “Os idosos são valiosos”, lançada pelo Núcleo de Estudos de Geriatria (NEGERMI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, com o objetivo declarado de alertar para o preconceito que enforma a velhice. “No tempo dos meus avós, ainda tínhamos todos aquele hábito de nos levantarmos sempre que eles entravam, de ninguém começar a comer antes deles. E esta ideia dos velhos como referência foi-se esboroando”, lamenta, não tendo dúvidas que a sociedade não está a tratar os mais velhos como merecem.

Carmen Garcia, que até acaba de lançar o livro “A última solidão”, em que se procura servir da experiência que tem em lares para sensibilizar para estas questões, concorda: “Como os estamos a tratar? Mal. A meu ver, por duas questões fundamentais: por um lado, porque nos confrontam com a nossa própria mortalidade; por outro, porque já não são lucrativos. E nesta sociedade alucinada e consumista, em que tudo é tão rápido e imediato, os mais velhos quase ficam descontextualizados. E depois acho que há um bocado a ideia de que um velho é um semimorto. A prova é que quando os idosos, nos lares, se aproximam de alguém, os filhos têm um preconceito horrível, como se já não tivessem direito ao afeto.” Por isso, lembra-se muitas vezes da avó, de que a mãe cuidou carinhosa e atenciosamente, e que repetia com frequência: filho és pai serás, como fizeres assim encontrarás. “Muitos de nós vão ter um choque terrível se tiverem a sorte de chegar à velhice. Não sei onde vamos parar, mas isto preocupa-me muito.”