A prevenção com medicamentos antiparasitários

(Foto: Pexels)

O "Consultório Médico" desta semana, por Dinis Brito.

Devemos tomar “o remédio das bichas” periodicamente?
Pergunta recebida por email

Em termos mundiais, as infestações por parasitas intestinais são frequentes, estimando-se que 4,5 mil milhões de pessoas estejam em risco de sofrer uma contaminação pelo solo. A maioria das infestações são ligeiras e raramente provocam sintomas, enquanto as graves poderão provocar sintomas gastrointestinais inespecíficos (vómitos, diarreia, dor abdominal), alterações nutricionais, anemia, atraso do desenvolvimento e no crescimento das crianças.

Por outro lado, alguns estudos referem um efeito positivo das infestações ligeiras através de uma simbiose entre o hospedeiro e o parasita que induz respostas de imunomodelação que poderão provocar uma menor tendência para manifestar doenças alérgicas, tais como a asma.

Ao longo do tempo, a toma preventiva de medicamentos antiparasitários foi uma prática generalizada e difundida, acabando por ocupar uma lugar histórico na população portuguesa, sendo frequentes as solicitações de prescrição periódica de desparasitantes intestinais.

A Organização Mundial de Saúde recomenda a desparasitação profilática de rotina apenas nos países com taxas de prevalência de infestações superiores a 20% e, sobretudo, superiores a 50%. Em Portugal, verificam-se taxas de prevalência muito inferiores pelo que esta é uma estratégia que não se justifica dado que se demonstrou não evitar as infestações e/ou reinfestações. Nas pessoas que vêm de países de maior prevalência esta premissa não se aplica e até poderá ser necessária investigação laboratorial.

Acresce ainda que o risco da utilização indiscriminada de medicamentos antiparasitários pode contribuir para o desenvolvimento de resistências e compromisso da sua eficácia nos momentos em que realmente forem necessários. As únicas medidas preventivas recomendadas são as medidas sanitárias de tratamento de águas residuais, de rega e fertilização, bem como o controlo de qualidade da carne e peixe consumidos e vigilância de animais domésticos. São também de extrema importância a lavagem das mãos e os adequados acondicionamentos e preparação dos alimentos.

Estimando que o texto não desincentive o consumo (moderado) das iguarias da época, deixo os votos de um Próspero Ano Novo.

Dinis Brito, médico de família

*A NM tem um espaço para questões dos leitores nas áreas de Direito, Jardinagem, Saúde e Finanças pessoais. As perguntas para o Consultório devem ser enviadas para o email [email protected]