A Metalúrgica. Cinco gerações a dar forma ao Mundo

Agostinho e Raquel Santos são, respetivamente, as quarta e quinta gerações na administração da empresa (Foto: Leonel de Castro/Global Imagens)

Aos 126 anos de existência, A Metalúrgica continua a conquistar o mercado internacional, trabalhando principalmente com grandes produtores da panificação mundial. Inovação, lealdade e crescimento sem inflacionar os preços são as chaves do sucesso centenário.

Nas traseiras de uma antiga casa no Bonfim, no Porto, com apenas 200 metros quadrados, nasceu em 1896, pela mão de Joaquim Moreira Pinto, uma empresa que estaria destinada a inovar, a expandir-se e a conquistar indústrias e lares portugueses e além-fronteiras. Em nome de algo que diz tanto a muitos: formas para bolos, sobremesas e pães.

Republicano no tempo da monarquia, Joaquim era malvisto pelo regime, que não autorizou a produção. Assim, A Metalúrgica operou clandestinamente até à implantação da República portuguesa. O primeiro documento oficial que comprova a atividade da empresa data de 1911, mas a história de resistência nos anos precedentes foi passando de geração em geração.

Primeira fábrica

Raquel Santos não conheceu o trisavô, mas lembra-se do tempo em que o negócio ainda era gerido pelo bisavô, David Moreira Pinto, segunda geração à frente de A Metalúrgica. A entrada para a pequena fábrica original fazia-se pela garagem e o baloiço de Raquel era teimosamente deslocado de sítio para os cinco trabalhadores da fábrica entrarem. Apesar da lembrança de aborrecimento, por ver o seu divertimento favorito sempre fora do lugar, é com carinho que Raquel Santos, quinta geração na administração da empresa, recorda o crescimento do negócio familiar.

Mas até chegar à atual geração, o caminho de A Metalúrgica foi longo. Em dificuldades com a crise do pós-revolução, David Moreira Pinto, a segunda geração, decide vender a fábrica. O marido da neta intervém e faz uma proposta. “Desaparecer uma empresa que durante anos sustentou a pastelaria portuguesa era um grande prejuízo”, salienta Agostinho Santos, que entrou no negócio das formas em 1977. Até hoje. É o atual administrador da empresa e já começou a passar o legado à quinta geração, da qual Raquel e a irmã Ana fazem parte.

Do Porto para Valongo

Quando Agostinho Santos comprou a empresa, ofereceu metade ao sogro, Belarmino Ferreira, que ficou a gerir A Metalúrgica nos anos em que ele manteve dois empregos. Durante 11 anos, repartiu-se entre o emprego estável numa seguradora e a fábrica do coração. Geria tudo o que era necessário depois do horário de trabalho. Eram cerca de 14 horas diárias de trabalho e houve épocas em que trabalhou três dias e três noites consecutivas.

Do avô Belarmino, Raquel Santos recorda com entusiasmo e carinho o talento “inesgotável” para o desenho, já que “toda a parte criativa das formas foi responsabilidade dele e, hoje, A Metalúrgica tem a maior gama mundial de formas para bolos devido às suas mãos”.

Segunda fábrica

Quatro anos depois de estar à frente de A Metalúrgica, Agostinho Santos compra novas instalações, em Francos, com dois mil metros quadrados. É na entrada do século XXI que a fábrica de formas volta a trocar de localização e sai do Porto. A atual fábrica em Valongo tem mais de seis mil metros quadrados implantados num terreno circundante com possibilidade para expandir o espaço fabril.

Expansão, mas fazer “preço justo”

O sentimento familiar não se fica pelas portas da administração. Agostinho Santos garante que a relação com os operários é “próxima e humana”. A fábrica tem atualmente 120 trabalhadores, Jorge Humberto é o mais antigo da casa. Há ainda uma mão-cheia de outros que se recordam do tempo em que estava o avô de Raquel Santos ao comando.

Agostinho a plantar o jardim das atuais instalações

A lealdade é uma das fórmulas para o sucesso preconizadas por Agostinho Santos. Com os trabalhadores e também com a comunidade, já que a empresa apoia e colabora com escolas, bombeiros e associações da região. Mas também com os clientes. “Ser honesto e fazer sempre o preço justo, não inflacionando sem razão.”

As exportações são, desde que Agostinho Santos tomou as rédeas, o grande potencial de A Metalúrgica, representando hoje 97% das vendas. O sucesso além-fronteiras começou com o atual administrador e teve o primeiro impacto nos EUA. “Mal cheguei à empresa, colocamos logo o telex, um aparelho de comunicação da época que só as grandes empresas e os bancos tinham.” As encomendas internacionais chegaram com o início da participação da empresa em feiras empresariais. E foi nestas viagens que Raquel Santos ficou apaixonada pelo negócio.

Como a produção de formas abrange um setor primário, durante as crises, “A Metalúrgica trabalha em contraciclo porque o pão é a última coisa que as pessoas cortam”, salienta Raquel Santos. Durante o primeiro ano da pandemia, a fábrica de formas cresceu 46%, chegando a empregar 50 novos funcionários.

Raquel junto ao terreno de Valongo

Mas apesar da resiliência em tempos de “abanões económicos”, no início deste século, o “fantasma” da globalização e de que a indústria chinesa viria “ocupar o seu lugar no mercado” faz Agostinho Santos temer o pior. “Temos a morte a prazo”, pensou. Mas não baixou os braços e estreou uma nova fase da empresa: a produção industrial, que foi ganhando protagonismo, ultrapassou o comércio doméstico, e representa atualmente 85% da produção.

A inovação é, pois, mais um ingrediente na “poção” que Agostinho Santos revela para que uma empresa seja familiar e centenária. Mas até na inovação é necessário ter cautela. “Um dos problemas que tivemos inicialmente foi excesso de inovação, porque fazíamos tantos moldes que a procura não se alimentava de tanta variedade.”

Para Agostinho Santos, é preciso também contenção nos administradores: “A minha tese sempre foi que é preciso saber ganhar pouco”. O segredo, garante, é a “gestão do momento”. Di-lo em uníssono com a filha Raquel, que foi colecionando os ensinamentos do pai. E a empresa, “com juízo, será para continuar por mais cem anos”, garante o administrador.

Nome: A Metalúrgica
Atividade: Produção de formas para pastelaria e padaria
Data de fundação: 1896
Morada: Rua do Alto da Mina, 551 – Campo, Valongo
Número de funcionários: 120