A difícil tarefa de prever o futuro

Pensar sobre as possibilidades futuras tem um campo do saber próprio: o estudo de futuros

Usando uma mistura de memória e imaginação, empenhamo-nos em antecipar o amanhã. Mas, tanto na vida pessoal como nos destinos do Planeta, somos muitas vezes perturbadoramente maus a fazê-lo. Ou porque não conseguimos fazer prognósticos corretos, ou porque, mesmo quando o fazemos, falhamos no essencial: agir para os mudar.

Há previsões que não envelhecem bem. “O barco é inafundável”, disse Phillip Franklin, vice-presidente da White Star Line, a empresa que construiu o Titanic, antes da fatal viagem inaugural do transatlântico. “Por volta de 2005, ficará claro que o impacto da Internet na economia não foi maior do que o do aparelho de fax”, afirmou, em 1998, Paul Krugman, economista galardoado com o prémio Nobel. “Nós nunca nos vamos separar”, prometeram milhões de pessoas uns meses antes de pedirem o divórcio.

A grande dificuldade de antecipar o futuro parece ser o facto de usarmos os blocos das experiências passadas para o construirmos na nossa imaginação. “Os processos cognitivos que usamos para imaginar possibilidades alternativas sobre como o passado poderia ter sido diferente são os mesmos que usamos para imaginar como poderá ser o futuro”, esclarece Ruth Byrne, investigadora em Ciências Cognitivas, que dirige o Laboratório do Raciocínio e Imaginação, no Instituto de Neurociências do Trinity College, em Dublin, na Irlanda. Ou seja, a “máquina de viagens mentais no tempo” que temos dentro da cabeça usa as mesmas ferramentas, seja para viajar para trás, seja para frente.

“O único limite é a imaginação.” Esta expressão traduz como, no passado, a racionalidade e a imaginação eram vistas como opostas. Mas o que se começa a perceber é que o pensamento imaginativo é muito mais racional do que os cientistas pensavam, defende a investigadora no seu livro “The rational imagination: how people create alternatives to reality” (“A imaginação racional: como as pessoas criam alternativas à realidade”, em tradução livre, obra sem edição em português).

Isso tem vantagens – podemos usar a imaginação de forma sistemática, deliberada e organizada – mas também limitações, conclui Ruth Byrne. “Como precisamos de basear as nossas simulações imaginárias do futuro nas nossas experiências, conhecimento e crenças, isso impõe restrições ao que conseguimos imaginar.” Conseguiremos nós idealizar um novo cheiro ou um novo animal, que não seja uma mistura de outros cheios ou outros animais que já conhecemos?

O eu de amanhã

Tudo se complica mais quando o alvo das nossas previsões somos nós próprios. Chega a ser enternecedor como conseguimos ser tão otimistas em relação ao nosso futuro. O Pew Research Center, um think tank em Washington DC (EUA), emitiu um relatório em 2015 em que se liam os seguintes valores: 65% de uma amostra representativa de trabalhadores americanos previram que, num prazo de 50 anos, a maior parte do trabalho feito por humanos estava em risco devido à automação. No entanto, 80% acreditavam que seus próprios empregos estavam seguros.

Os psicólogos sociais chamam a isto “otimismo irrealista”: a tendência que temos para subestimar a probabilidade de vivermos eventos negativos no futuro, como sermos assaltados, despedidos ou divorciarmo-nos. Não chega a ser uma negação: a nossa dificuldade em imaginar futuros pouco risonhos não parece estar ancorada nas possibilidades, mas antes nas probabilidades. Nós conseguimos imaginar um sem-número de coisas desagradáveis que podem acontecer, mas acreditamos que é mais provável que aconteçam aos outros.

Esse não é, porém, o maior problema. O grande drama das nossas previsões acerca de nós próprios é que, quando nos imaginamos no futuro, o nosso cérebro deixa de agir como se estivéssemos a pensar em nós e comporta-se como se estivéssemos a pensar noutra pessoa qualquer. Pelo menos é isso que mostram estudos de ressonância magnética funcional feitos por Hal E. Hershfield, professor de Tomada de Decisão Comportamental na Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA). “Nos nossos cérebros, temos um tipo de padrão neural que surge quando pensamos em nós e outros padrões quando pensamos noutras pessoas. Na pesquisa que conduzimos, descobrimos que os pensamentos sobre o nosso ‘eu do futuro’ se pareciam mais com os padrões que temos quando evocamos mentalmente outras pessoas”, explica o investigador. Por outras palavras: a nível neural, os nossos “eus futuros” não se parecem connosco, parecem outra pessoa.

É fácil entender como isso impacta o nosso julgamento e a tomada de decisão. Ou seja, como isso afeta, afinal, o nosso futuro, que ajudamos a criar com as decisões que tomamos todos os dias. É esta distância que sentimos de quem vamos ser que justifica, por exemplo, a procrastinação, a despreocupação com as alterações climáticas e com a saúde ou a negligência em fazer um plano poupança-reforma. Como resume Hal E. Hershfield, a questão é: “Por que é que nós economizaríamos dinheiro para o nosso ‘eu do futuro’ quando, para o nosso cérebro, isso se parece com entregar o nosso dinheiro a um estranho?”.

Isso significa que temos de descobrir maneiras de mudar esse relacionamento, considera o cientista social. “Se os nossos “eus do futuro” forem completos estranhos, então, provavelmente, não faremos coisas em seu benefício. Mas, se forem como as outras pessoas de quem somos próximos – os nossos amigos, filhos, pais ou cônjuges -, então estaremos mais propensos a fazer coisas hoje para que eles beneficiem amanhã.”

Ou seja, temos de nos sentir emocionalmente mais próximos da pessoa que seremos. “Se quisermos melhorar as nossas capacidades de fazer previsões sobre o nosso futuro, em vez de confiar no passado, pode fazer mais sentido usar substitutos. Existem exemplos de idosos que poderiam representar a pessoa que desejamos ser? Talvez olhar para eles seja uma boa ideia.”

O futuro não existe

Pensar sobre as possibilidades futuras tem um campo do saber próprio: o estudo de futuros. Um futurista não é um profeta, mas antes um investigador social que pensa em possibilidades e cenários. “É impossível prever o futuro porque o futuro não existe”, argumenta Jacques Barcia, futurista profissional brasileiro, citando Jim Dator, um dos nomes mais reconhecidos neste campo de estudo.

No entanto, isso não significa que não se possa ver o futuro a começar a nascer e observar as possibilidades que estão a surgir. Difícil é ultrapassar a incredulidade que elas provocam. Levá-las a sério. O futurista, investigador associado do Institute for the Future, um think tank em Palo Alto, Califórnia (EUA), exemplifica. Quem, há cinco anos, acreditaria que um vírus nos confinaria durante meses em casa? Ou quem, há seis anos, pensaria que uma menina escandinava chamada Greta Thunberg, que se sentou sozinha em frente da escola, em greve pelo clima, viesse a representar um movimento internacional de estudantes e uma nova forma de ativismo climático? “Todas as proposições úteis sobre o futuro parecem de início ridículas porque implicam coisas que não nos são familiares”, enfatiza Jacques Barcia. “Os grandes opositores de pensar o futuro são os nossos vieses: as suposições e certezas que temos sobre como é que o Mundo funciona.”

Para ultrapassar isso, os futuristas usam da sua curiosidade e abertura, mas também muitas metodologias e ferramentas concretas. “Observamos, por um lado, as grandes tendências que indicam a direção da mudança – como as alterações climáticas, o populismo ou a desinformação – e, por outro, aquilo a que chamamos os ‘sinais fracos’, que são pequenos fenómenos, na geografia e na escala, que nos fazem perguntar: ‘E se isto escalar?’.”

Um exemplo atual desses sinais fracos, assinala, são pequenos eventos, aqui e ali, que estão a dotar de personalidade jurídica animais ou recursos naturais: 80 hipopótamos colombianos que foram reconhecidos como “pessoas” por um tribunal americano, para os proteger da esterilização, ou o rio neozelandês Whanganui que foi considerado uma entidade viva, com personalidade jurídica. E se isto escalar? Que possibilidades se abrem?

Essa é a pergunta essencial – “E se?”. Porque a ideia de pensar o futuro não é apenas contemplá-lo, é fazer alguma coisa, seja manter o rumo ou mudá-lo. “O que se pretende é identificar coisas que ainda não são uma tendência, mas podem vir a ser, para termos tempo e espaço suficientes para fazer alguma coisa. E costumo dizer que quem se aventura a olhar para o futuro se sente sempre moralmente compelido a fazer alguma coisa.” Talvez porque, como afirmou o pensador austríaco Peter Drucker, “a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Hoje.