Planeamento familiar, contraceção, atividade sexual. O que mudou com a pandemia?

O impacto da pandemia estende-se à saúde mental e sexual

A saúde sexual e reprodutiva das mulheres é um assunto complexo e demasiado sério que o contexto pandémico não pode colocar a um canto. Até porque cerca de 40% das mulheres, entre os 35 e os 39 anos, não fazem qualquer consulta de planeamento familiar.

As estimativas do Fundo de População da ONU indicam que 47 milhões de mulheres, em todo o Mundo, poderão deixar de ter acesso a planeamento familiar e a métodos contracetivos, o que deverá resultar num baby boom de sete milhões de gravidezes indesejadas nos próximos seis meses em 114 países subdesenvolvidos. Não é o caso de Portugal, onde o número de nascimentos tem descido e o acesso a métodos contracetivos não é complexo. Mesmo assim, cerca de 40% das mulheres, entre os 35 e os 39 anos, não fazem qualquer consulta de planeamento familiar.

“As consultas de planeamento familiar são essenciais na proteção da saúde sexual e reprodutiva das mulheres. Garantem a sua autonomia ao permitir que possam escolher se pretendem ter filhos e ainda decidir o número de filhos que desejam e quando os desejam ter. A adesão a estas consultas é, por isso, essencial e deve ser mantida ao longo do período fértil da mulher, isto é, desde a primeira menstruação até à menopausa”, sublinha Vera Silva, médica de família e coordenadora do Grupo de Estudos de Saúde da Mulher da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Estudos mostram que as mulheres utilizam mais os serviços de saúde do que os homens. A diferença está relacionada, em grande parte, com questões reprodutivas. A nível nacional, 25% das consultas dos médicos de família são relacionadas com motivos de saúde da mulher, gravidez, menopausa, planeamento familiar, sexualidade.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o planeamento familiar e a contraceção estão entre os serviços de saúde interrompidos com mais frequência

A pandemia forçou a restruturação dos serviços de saúde. “Ainda não existem dados, mas sabemos que, durante a pandemia, a disponibilização de métodos contracetivos, a contraceção de emergência e a interrupção voluntária da gravidez foram considerados serviços mínimos, pelo que foram sempre assegurados, tanto a nível de cuidados de saúde primários, como cuidados hospitalares. Desta forma, parece pouco expectável que o impacto tenha sido significativo”, refere.

Os últimos dados disponíveis, relativos a 2019, antes pandemia, dão conta que, ao contrário da tendência decrescente que se verificava desde 2011, houve “um discreto aumento nas interrupções voluntárias de gravidez”, cerca de 2%. Com esta realidade, Vera Silva defende que “é importante analisar se essa alteração se deve a uma oscilação pontual, ou se se manterá no futuro, e a manter-se será importante analisar alguns aspetos, como as faixas etárias em que esta situação se verifica e em que populações, nomeadamente entre imigrantes, entre outras características.” Uma análise que, em seu entender, “permitirá adotar medidas para reduzir os casos de IVG, que poderão passar pelo reforço da educação sexual e do aconselhamento dos métodos contracetivos, de forma a que as mulheres utilizem o método que melhor se adequa às suas necessidades.”

Um estudo dá nota de redução da frequência da atividade sexual e da satisfação sexual durante a pandemia

Uma coisa é disponibilizar métodos contracetivos, outra coisa é serem utilizados. “Numa altura de restrição de deslocações, muitas pessoas tiveram medo de procurar as instituições de saúde, sendo importante esclarecer que os serviços de saúde são locais seguros e que não devem deixar de cuidar da sua saúde por receio”, afirma.

Vera Silva é médica de família e coordenadora do Grupo de Estudos de Saúde da Mulher da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

O impacto da pandemia estende-se à saúde mental e sexual. O Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana, da Universidade do Porto, concluiu que, como consequência da pandemia, 47% dos participantes manifestaram uma redução da frequência da atividade sexual e 40% indicaram uma redução da satisfação sexual.

“De facto, 2020 foi o ano com menor nascimentos em Portugal, pelo que será pertinente avaliar se tal se deveu a questões económicas motivadas pela pandemia, ou ao impacto na saúde sexual dos casais, ou se está relacionado com outras questões associadas ao planeamento familiar”, repara Vera Silva.

“Acima de tudo, o mais importante é garantir que as mulheres tenham acesso a métodos contracetivos eficazes e, caso optem por recorrer a uma IVG, que esta seja realizada em condições de segurança. Estas são as questões primordiais e, felizmente, Portugal tem evoluído favoravelmente na proteção da saúde das mulheres”, comenta. O Serviço Nacional de Saúde garante consultas de planeamento familiar isentas de taxas moderadoras e disponibiliza gratuitamente diversos métodos contracetivos. “A pandemia não deve ser motivo de receio para as mulheres deixaram de cuidar e de se preocupar com a sua saúde”, remata.