Confinados por fobia

As terapias de índole cognitivo-comportamental são fundamentais para quem sofre de agorafobia

Uma crise de pânico, um lugar ou uma situação sem escapatória fácil. Na fila do supermercado, na autoestrada, no meio da multidão. E a fobia nasce. Difícil de entender, a agorafobia desarruma a vida e espartilha o dia a dia em fronteiras imaginárias. É o confinamento antes mesmo da pandemia.

Está em casa, a norte do país. O jornal que fundou e de que é diretor fica no andar de baixo, na garagem o estúdio de televisão que montou, lá fora uma piscina para as férias, as compras faz na internet. Não sai dos portões. Quase nunca. Não é coisa do confinamento nem da pandemia, é a ansiedade que já conta 26 anos e que lhe desconcertou a vida. Nunca mais viajou pela Europa, nem regressou à sua Barcelona onde poisava todos os verões. Não voltou a afastar-se de casa o suficiente para o pânico o consumir. A ironia? É que adora conduzir e adora automóveis. “Nada disto faz sentido e o pior é que tenho consciência disso.”

João sofre de agorafobia. O nome é fictício, prefere assim. Tem 56 anos, foi aos 30 “que isto apareceu”. Nem ele sabe bem como. Mas tem fobia a quê? “A sair de casa.” Recua 26 anos, era ele administrador numa multinacional. Fazia muito mais dinheiro do que qualquer um dos seus colegas do curso de jornalismo que seguiram a carreira. O futuro adivinhava-se promissor. Tanto que começou a “sentir muito stress, muito trabalho, ansiedade, pressão, as contas, os números, os objetivos”. Consegue apontar no calendário o dia em que tudo mudou. “Faleceu uma tia minha e fui ao funeral, de carro. À vinda, comecei a sentir-me mal, pensei que estava a ter um ataque cardíaco, que ia morrer naquela hora, em plena autoestrada.” O coração a palpitar, as mãos suadas, dor de cabeça, falta de ar. Achou que era stress.

Era o princípio da cambalhota, da reviravolta que a vida ia sofrer. “Oito dias depois, na missa de sétimo dia, voltei a ter um ataque de pânico, outra vez na autoestrada. E desenvolvi uma fobia à autoestrada. Parecia que a minha cabeça tinha sido martelada. O meu subconsciente criou um alerta que não conseguia controlar.” Foi aí que tudo mudou. Começou a sair cada vez menos de casa, a restringir os sítios para onde ia. Um travão no trabalho, largou a gestão. Esteve de baixa a recuperar a serenidade.

Em casa, construiu a sua zona de segurança, longe dos episódios de ansiedade, do medo irracional. Não foi ver o filho ao hospital quando nasceu. Conheceu-o só quando a mulher chegou com o bebé a casa. Não vai de férias. “A minha mulher e o meu filho vão. Mas não me importo, porque estou bem.” Não sai para fazer compras. É raro extravasar o perímetro da habitação. Mudou de carreira, um regresso às origens, fundou um jornal. A redação, de 150 metros quadrados, é no rés do chão da moradia, comanda as tropas a partir dali. “É sair de casa que me causa muita ansiedade, sair da zona de conforto. Custa-me ir aos sítios. Quando preciso de um médico, o médico vem cá. Quando preciso de fazer análises, também vêm cá a casa.” Já antecipa o drama quando lhe calhar a vez de tomar a vacina contra a covid-19.

Em fuga à ansiedade

A vida limitou-se, confinou-se, espartilhou-se. No casamento do irmão, esforçou-se “mesmo muito” para ir. Foi perto de sua casa, de propósito. Conseguiu. Mas foi a exceção à regra num dia a dia de fronteiras imaginárias bem definidas. À volta de 3% da população é diagnosticada com agorafobia todos os anos. Difícil de entender, caracteriza-se por um medo exagerado ou ansiedade de estar em lugares dos quais não há como escapar facilmente e onde a pessoa acredita que ninguém a vai ajudar. Agorafobia vem do grego ágora, que é praça pública. Se traduzirmos à letra, é o receio de espaços abertos. Mas é mais complexo do que isso, é o medo de ter uma crise de ansiedade em lugares ou situações concretas. Pontes, autoestradas, centros comerciais, transportes públicos, fila do supermercado, grandes multidões, um concerto, um cinema, uma manifestação. Os exemplos multiplicam-se, como o da escritora e comediante britânica Lucy Jollow, agorafóbica. Desenvolveu o “medo absoluto” – palavras dela – de dormir fora de casa, mesmo depois de passar a vida inteira hospedada em hotéis.

“Isto pode limitar completamente a vida de uma pessoa. É brutal, as pessoas deixam de fazer coisas como ir ao supermercado. Alguns de nós temos algum medo de andar de avião e desenvolvemos estratégias. Isso não é uma fobia, porque conseguimos racionalizar o medo. Só se chama fobia clinicamente quando aquilo de que a pessoa tem medo implica o seu evitamento. A ansiedade é tal que não conseguem racionalizar”, explica a psiquiatra Ana Matos Pires. Um caso em particular perturbou-a já lá vão uns anos. “Um senhor teve um ataque de pânico na Ponte 25 de Abril [liga Lisboa a Almada ]. A vida dele fazia-se a passar a ponte de um lado para o outro para transportar materiais. E desenvolveu um quadro fóbico à ponte. Para transportar os materiais, passou a dar uma volta gigante, a ir sempre por Vila Franca de Xira só para fugir à ponte.”

Não é racional e o psicólogo Paulo Pinheiro tenta simplificar: “A mente faz uma associação do episódio de ansiedade àquele evento ou contexto em concreto e desenvolve uma resposta ansiosa. Porque os sintomas são avassaladores, são percecionados como algo muito intenso. Taquicardia, suores, ansiedade acentuada, formigueiro, vertigens, tonturas”.

Na verdade, e como diz Luísa Branco Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “gostamos de pensar que somos racionais e que agimos de forma lógica, mas estes eventos mostram à pessoa que não tem controlo sobre as suas emoções. É extremamente doloroso”. A agorafobia afeta mais mulheres do que homens. E, para a psiquiatra e pedopsiquiatra, “não há idade típica para desenvolver esta fobia”. Mas pode haver gatilhos. “Na adolescência, pode surgir durante fenómenos transitórios na criação da identidade. E há fatores da vida, como situações de crise, de perda ou traumáticas.”

Expor-se à fobia é o melhor remédio

A fobia tanto pode levar a pessoa a evitar ir a um shopping ou a recorrer sempre à entrada mais próxima da loja, como pode galopar e generalizar-se a ponto de só haver conforto dentro de casa. Como no caso de João, que já tentou de tudo, mas nunca conseguiu “uma cura”. “Drogas – que é como quem diz medicamentos – , várias terapias e alguns charlatões pelo meio.” Ainda hoje toma antidepressivos e ansiolíticos. Não tem de ser assim. Levou tempo até esbarrar na hipnoterapia. Começou a sair de casa com a ajuda de um psicólogo, a expor-se à fobia depois de um longo trabalho de preparação, a afastar-se do lugar seguro. Mas a pandemia meteu-se no caminho e voltou a enfiá-lo na sua gaiola dourada.

“A intervenção precoce é um preditor de maior sucesso. Quando se deixam passar anos, os sintomas vão ficando mais intensos”, alerta o psicólogo Paulo Pinheiro, que recorre com frequência à hipnose clínica. “Não resolve todos os males, mas como vertente psicoterapêutica ajuda na tomada de autoconsciência, a perceber que não há um perigo real, a minimizar a sintomatologia de ansiedade e todas as associações que a mente fez àquele lugar.”

Segundo o também psicólogo David Neto, as terapias de índole cognitivo-comportamental são fundamentais nestes casos, “para ajudar na mudança de significados” e aprender a gerir “os sintomas”. “Estas perturbações são as que mais beneficiam da intervenção psicológica, há resultados.” Isso e a terapia de exposição, que vem depois, quando a pessoa ganha confiança para se ir expondo à situação fóbica gradualmente, para perder o medo.

Mas Luísa Branco Vicente avisa que o tratamento leva tempo. “Da mesma forma que o sintoma demora tempo a desenvolver-se e a ganhar intensidade, também a sua supressão implica a personalidade e as vivências dessa pessoa. É importante ir à origem do sofrimento e esse é um caminho que, ainda que mais moroso, é eficaz.”

A pandemia agravou?

Só que há quem adie a procura de ajuda. A pandemia agravou os casos de ansiedade, isso é consensual. “Temos um acréscimo de procura, mas a esmagadora maioria das pessoas continua sem ter apoio. A maior parte do apoio psicológico do país é feita fora do SNS. Isso limita uma grande fatia da população no acesso. O número de psicólogos no centros de saúde é pouco acima de 200. No SNS inteiro, é de 500. E a intervenção psicológica em perturbações de pânico ajuda substancialmente”, lamenta David Neto. No que toca à agorafobia em particular, não há dados concretos, mas há ideias díspares. Há quem acredite que o confinamento pode até ter protegido estas pessoas, por estarem em casa, sem se confrontarem com os medos. David Neto não entra nesse lote. “Pode parecer paradoxal dizer que ser obrigado a ficar em casa piora a situação, mas, na realidade, piora. A casa é o sítio confortável, é o sítio sem ansiedade. O facto de a pessoa ficar em casa vai ao encontro daquilo que quer, mas a reforça a fobia. A próxima vez que se expuser será muito pior.” Com o país de olhos postos no desconfinamento, e na iminência de voltarmos a sair, podem estar já a sofrer por antecipação.

João, por enquanto, diz estar nas suas sete quintas. “Com a pandemia sei que voltei para trás. Mas, por um lado, é bom, estou bem. Nunca mais tive um ataque de pânico.” O coração há de voltar a palpitar na hora de tentar pôr os pés fora de casa.