António Feijó: o independente

António Feijó é o futuro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian (assume funções a 3 de maio de 2022)

O novo líder da maior fundação do país tem “pensamento aberto”. Procura consensos, fomenta “a camaradagem colegial”, aprecia “a pluralidade”. E o sentido de humor. Um humor muito fino, que facilmente deixa a descoberto o ridículo da situação. Foge, porém, do cinismo e do discurso palavroso. Prefere a clareza.

“Um homem extraordinariamente independente.” Seixas da Costa sublinha o advérbio: “O António tem uma cabeça livre, muito para lá de alinhamentos, partidários ou outros. Não será fácil vergá-lo a uma linha política”.

O antigo embaixador sabe do que fala. Pertenceu ao Conselho Geral Independente da RTP, quando este órgão – fiscalizador e poderoso porque tem a incumbência de nomear a administração da estação pública, o seu presidente, definir e prosseguir as grandes linhas de orientação para a empresa – era liderado por António Feijó.

O professor universitário e investigador, eleito pelos pares (seis elementos) para dois mandatos consecutivos (2015 e 2019) e uma tarefa difícil, conhecidas as tensões internas e a pressão externa que atormentam a televisão pública, geriu momento complicados. “As alterações na direção de informação, com a substituição de Paulo Dentinho por Maria Flor Pedroso, ou a saída de Nuno Artur Silva”, recorda Seixas da Costa. Pode mesmo dizer-se que terá sido o cargo externo à academia que mais e melhor revelou a personalidade e a natureza do titular.

O futuro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian – eleito em dezembro e que entrará em funções a 3 de maio de 2022 – “não fica refém de respeitos”, garante Diogo Lucena. “Não sendo agressivo é muito convicto. Um homem de ideias próprias, capaz de tomar decisões complicadas”, diz o engenheiro, também ele antigo membro do Conselho Geral Independente da RTP, “Incluindo choques com entidades externas, mostrando sempre enorme firmeza e convicção”, afirma ainda. Por entidades externas leia-se Estado e Governo, “nomeadamente com o Ministério das Finanças de Mário Centeno, sobretudo no dossiê ‘atrasos nos pagamentos’”, especifica Seixas da Costa.

Para o antigo diplomata, o novo líder da maior fundação do país “tem uma formação cultural interessantíssima e pensamento aberto”. Procura consensos, fomenta “a camaradagem colegial”, aprecia “a pluralidade” e a reserva devida. E o sentido de humor”, acrescenta Diogo Lucena. “Em reuniões diversas e plurais, fazia análise crítica e mordaz. Um humor muito fino, que facilmente deixa a descoberto o ridículo da situação, feito por alguém muito inteligente e culto.”

Foge, porém, do cinismo e do discurso palavroso. Afirma a clareza. “Não tem uma personalidade expansiva, mas também não estamos perante um tímido”, diz Lucena. Um homem espartano no que a prazeres da mesa diz respeito. “A comer é um pisco”, resume Seixas da Costa.

Oriundo de uma família do Minho, familiar de António Feijó, poeta e diplomata português (1859/1917), viveu muitos anos nos EUA. Doutorado em Literatura Inglesa e Norte-Americana pela Brown University, é mestre em Literatura Inglesa e Norte-Americana pela State University de Nova Iorque. Tem publicações sobre literatura inglesa, norte-americana e portuguesa, traduções e versões dramatúrgicas de Shakespeare, Thomas Otway e Fernando Pessoa. Com Miguel Tamen e João R. Figueiredo propôs, em Cânone, uma lista de autores mais relevantes da literatura portuguesa, do século XV à década de 1990 – “elenco de nomes de autores dignos de se ler”, diz o próprio -, livro que acendeu paixões e polémica entre especialistas.

Também com Miguel Tamen publicou “A Universidade como deve ser” (Fundação Francisco Manuel dos Santos). Um contributo consubstanciado em anos de dedicação académica. Exemplo maior é a criação de um curso de Estudos Gerais, aliança entre vários conhecimentos. “Foi o desenhador de uma grande ideia”, destaca Seixas da Costa.

António Maria Maciel de Castro Feijó
Cargo: futuro presidente da Fundação Calouste Gulbenkian (assume funções a 3 de maio de 2022)
Nascimento: 13/09/1952 (59 anos)
Nacionalidade: Portuguesa