O Afeganistão pelos olhos de portugueses

Talibãs recuperam as rédeas do país, 20 anos depois de terem sido derrubados por uma coligação liderada pelos Estados Unidos. Portugueses conhecedores da realidade afegã explicam as circunstâncias que lhes reabriram as portas do poder e as sombras que se insinuam sobre o futuro.

Polícias a trocar uniformes por roupa de civil, cartazes de mulheres a serem tingidos de branco como se nunca tivessem existido, um mosaico de carros atolados nas vias de acesso ao Aeroporto Internacional de Cabul, uma multidão desenfreada a invadir a pista e a agarrar-se à fuselagem dos aviões para sair dali para fora, custe o que custar. E o desfecho arrepiante, mas esperado, de uma coragem que é só desespero: uma pessoa em queda livre (serão mais, mas a desta ficou registada num vídeo que corre o Mundo), pouco depois de a aeronave levantar voo, qual metáfora dramática do desfecho dos 20 anos em que uma coligação internacional, com os americanos à cabeça, procurou acabar com o domínio talibã no Afeganistão. Em vão, pois. No último domingo, 15 de agosto, com o até aqui presidente Ashraf Ghani em fuga, e as forças de segurança afegãs a abandonarem os seus postos sem sequer um esboço de luta, os talibãs tomaram de assalto o Palácio Presidencial de Cabul, culminando uma ofensiva relâmpago que lhes permitiu recuperar o controlo do país em apenas 10 dias. “A guerra acabou, estão todos perdoados, ninguém irá atrás de vingança”, garantiu Zabihullah Mujahid, porta-voz dos talibãs. Mas a renovada narrativa do movimento radical islâmico não convence. E há já relatos inquietantes. Como inquietante é perceber o ritmo a que recuperaram o controlo do país.

“Os talibãs já funcionavam como governo-sombra, já tinham relações diretas com algumas potências regionais vizinhas, que já os reconheciam como poder”, afirma Ana Isabel Xavier, professora de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa

Não que o assalto ao poder por parte do grupo islâmico tenha sido uma surpresa. Os próprios serviços de inteligência americanos tinham previsto que Cabul pudesse ser tomada em 90 dias. Isto a 11 de agosto. Só que não foram 90 dias. Foram quatro. “O que está a acontecer é surpreendente pela rapidez, mas não me surpreende que os talibãs tenham voltado ao poder 20 anos depois”, resume Sandra Costa, investigadora na área das Relações Internacionais, assinalando que desde 2011 o grupo vinha fazendo ataques e assumindo postos. “Tanto que o Obama [Barack Obama, presidente dos EUA entre 2009 e 2017] queria diminuir a presença militar americana no Afeganistão e nunca conseguiu. Pelo contrário, foi obrigado a aumentar exponencialmente as tropas no país, para tentar acalmar a situação.” A autora de uma tese sobre jiadismo lembra ainda o acordo feito por Donald Trump com os talibãs, em fevereiro de 2020, todo ele sintomático da viragem de poder. “Ficou acordado que as tropas americanas sairiam do país desde que estes se comprometessem a não acolher os terroristas e a respeitar os direitos das mulheres.” Mas o Governo de Ashraf Ghani nunca foi tido nem achado nesse processo, o que já soava a prenúncio.

Um governo-sombra e um governo fraco

Há outras explicações, quase todas interligadas, numa teia de relações causa-consequência. “[Os talibãs] já funcionavam como governo-sombra, já tinham relações diretas com algumas potências regionais vizinhas, que já os reconheciam como sendo poder e, desde maio, quando os Estados Unidos começaram a retirar as suas tropas do Afeganistão, iniciaram a ofensiva terrestre”, lembra Ana Isabel Xavier, professora de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa. Para isso, muito terá contribuído o facto de o Executivo liderado por Ghani ser um “Governo dividido, fraco, onde a corrupção grassa”, salienta Sandra Costa. Duas nuances que ajudam a perceber outro dos factos mais surpreendentes nesta tomada de poder: a total inoperância das forças afegãs face ao avanço dos talibãs. “Esse é o grande escândalo: como é que o Exército afegão não lutou pelo próprio país. Mas também se compreende que não lutem por um presidente que abandonou o país à primeira oportunidade. Creio que faltaram pessoas em posições-chave dentro do Exército”, analisa a investigadora. Ana Isabel Xavier acrescenta um outro fator. “[A inoperância das forças afegãs] também prova que, através do controlo de armas e da produção e fornecimento de ópio a nível mundial, os talibãs foram progressivamente ganhando capacidade de controlo das forças de segurança afegãs, que foram treinadas pelos governos ocidentais da coligação.”

“O que está a acontecer é surpreendente pela rapidez, mas não surpreende que os talibãs voltem ao poder 20 anos depois”, reconhece Sandra Costa, investigadora na área das Relações Internacionais

Mas olhar para a apatia das tropas afegãs no momento decisivo é obrigatoriamente olhar para a responsabilidade dos EUA no assunto, até pelo investimento de mais de dois biliões de dólares feito ao longo dos últimos 20 anos. Joe Biden defende-se dizendo que os americanos foram para o país com o objetivo de capturar os autores do ataque de 11 de setembro de 2001 e de garantir que a Al-Qaeda não usaria o Afeganistão como base para novos ataques. “E fizemos isso”, ressalva, sublinhando que seria errado pedir às tropas americanas para lutar “quando as tropas do Afeganistão não o fizeram”. Mas a ideia de fracasso é incontornável.

“A capacidade de um exército não é só o músculo, há outros vetores não tangíveis que são fundamentais. Um deles é a capacidade de liderança”, garante Jorge Torres, representante Nacional Sénior na Resolute Support Mission, missão da NATO no Afeganistão

Jorge Torres, coronel do Exército português que no último ano foi o Representante Nacional Sénior na Resolute Support Mission, missão da NATO no Afeganistão que tinha como principais objetivos o treino, aconselhamento e assistência das forças afegãs, começa por realçar que de 2012 (primeira vez em que esteve no Afeganistão) para 2020 notou “uma evolução em termos de capacitação das forças afegãs”. Mas então como se explica que não tenham sequer sido uma posição de resistência? O atual comandante do Regimento de Infantaria 19, em Chaves, não responde diretamente à questão. Destaca, no entanto, vários aspetos que nos podem ajudar a uma leitura mais profunda. Desde logo a viragem que houve em 2014. “Até aí houve um enorme esforço feito pela comunidade internacional, no sentido de garantir que havia um ambiente seguro para que as instituições do país se levantassem e consolidassem. A partir desse ano, a liderança passou para os afegãos e a comunidade internacional passou apenas a apoiar essas estruturas. Além disso, a parte do treino e levantamento do Exército foi considerada consolidada e o trabalho passou a focar-se mais no treino das forças especiais. Depois, é preciso ver que a capacidade de um exército não é só o músculo, há outros vetores não tangíveis que são fundamentais. Um deles é a capacidade de liderança.”

Aversão ao sistema e um futuro sombrio

Perceber o regresso dos talibãs ao poder é também olhar para dentro, para uma população a quem a presença da coligação não trouxe grandes motivos de alegria. Quem o assegura é Bruno Neto, português de 42 anos que entre maio e julho deste ano esteve no país a trabalhar como chefe de operações na Intersos, organização não-governamental que providencia cuidados de saúde, programas de nutrição e programas de apoio psicossocial. “Já quando lá estávamos percebemos que iriam controlar todo o território e que isso aconteceria mais rápido do que o previsto. Primeiro porque quase diariamente havia novos territórios a serem conquistados, depois por não haver uma resistência forte. E percebemos que os 20 anos de ação da NATO e das tropas americanas contribuíram para isso. Porque se em 2001, 2002, a maior parte da população não queria os talibãs, em 2021 já os aceitavam. As pessoas estão cansadas do sistema, da guerra, dos conflitos. Com o programa de drones do presidente Obama muitos civis foram mortos. As pessoas sentem que houve uma matança indiscriminada.” Para o descontentamento contribui também a pobreza extrema em que grande parte da população ainda vive. “Ao longo de 20 anos, houve o reforço de uma oligarquia e a maior parte da população continuou a viver numa pobreza imensa, com fome.”

“Em 2001, a maior parte da população não queria os talibãs. Em 2021 já os aceitavam. As pessoas estão cansadas do sistema, da guerra, dos conflitos”, afiança Bruno Neto, chefe de operações na organização não-governamental Intersos

Há boas notícias, ainda assim. Os anos em que as forças internacionais estiveram presentes no país traduziram-se numa maior liberdade de expressão e de imprensa e numa subida significativa dos níveis de escolarização da população, sobretudo entre as afegãs, a quem durante décadas esteve vedado o mundo do ensino e mesmo do trabalho. Esse é porventura o ponto mais sensível em relação ao futuro do país, agora que os talibãs recuperaram o poder. Perceber se as mulheres vão manter os direitos que conquistaram até aqui, ou se, pelo contrário, o país vai assistir a uma regressão inaceitável à luz dos dias de hoje.

“Claro que se tivermos em conta o que os talibãs representam, o que é o seu modus operandi e a sua ideologia de base, os direitos das mulheres podem sair fragilizados. Depende da abertura que demonstrarem nos próximos tempos”, sustenta Ana Isabel Xavier, que recorda bem a “barbárie total” vivida entre 1996 e 2001, quando o grupo liderou o país. “A destruição de elementos de associação cultural, a interpretação restrita do Islão, as decapitações generalizadas, o apedrejamento público até à morte, a obrigatoriedade de utilização dos trajes mais fundamentalistas”, elenca. Agora, admite, há uma certa narrativa que os talibãs estão a querer passar, para mostrar que não são os mesmos de 2001. “É uma narrativa útil para o reconhecimento internacional, porque sabem que há linhas vermelhas que, se ultrapassadas, lhes valerão imediatamente represálias e querem demonstrar que o Afeganistão pode ser um polo de estabilidade.”

Também a investigadora Sandra Costa fala numa certa “manobra de marketing”. “O que vemos é mais do que uma operação militar. Os talibãs dizem que as meninas vão poder ir à escola, que apenas vão aconselhar a utilização do hijab, que não haverá discriminação das mulheres ‘no quadro da lei islâmica’. Achei curiosa esta afirmação, devido à sua ambiguidade. Deixa em aberto todas as possibilidades para o futuro das meninas e mulheres.” E as últimas notícias que chegam do Afeganistão não ajudam ao otimismo. Mulheres e meninos espancados e chicoteados ao tentarem passar os postos de controlo. Crianças feitas reféns para se juntarem às fileiras das forças afegãs. Até adolescentes obrigados a usar mochilas armadilhadas.