Rui Cardoso Martins

A emoção de andar de mota (antes que acabe)

(Ilustração: João Vasco Correia)

Crónica "Levante-se o réu", por Rui Cardoso Martins.

A advogada consultava o iPad e conferia datas, ficheiros, pedidos, cartas e, pelos vistos, fracassos. A cara dela dizia a toda a sala: sou jovem, trabalho imenso, faço o que tenho a fazer, uso computador, ando com telemóvel, estamos no século XXI, isto era muito escusado, caro senhor. Subiu os olhos para o banco dos réus e para um homem de mãos nos bolsos que, por sua vez, mirava distraído a fraca pintura da Justiça na parede, uma senhora de olhos vendados e balancita torta na mão.

– Eu contactei-o, o senhor é que não fez nada para me contactar a mim, se não a esta hora não estava aqui!

– É verdade, é verdade…, admitia o homem.

O raspanete da advogada era o estágio para o que esperava o homem, de nome Leandro. Daí a minutos o juiz, mesmo usando voz diplomática, e os mais bem-educados modos que já vi em tribunal, parecendo quase excêntrico na brandura, não aguentou e suspirou-se para o lado:

– Isto realmente, a iliteracia financeira!…

Depois falou a Leandro das moratórias bancárias da covid-19 e o inevitável fim das moratórias, isto é, o tribunal lançava antecipadamente o segredo mais terrível da Páscoa de 2021: daqui a pouco, passado o Santo Domingo de hoje, amanhã mesmo, reflorirá o espírito e a dinâmica do capitalismo em Portugal, salivando sobre o possível controlo da pandemia, o desconfinamento e a “gradual reabertura da actividade económica”. E, nesse momento, os bancos, as entidades credoras, todo o tipo de abutre angélico que vive de emprestar dinheiro a juros e prestações (incluindo os que periodicamente nos esvaziam os cofres públicos com fraudes heróicas…) só já pensará em desconfinar cobranças e esmifrar dívidas e rendas aos portugueses falidos, desesperados, desempregados, com fome.

Não é que alguns não o mereçam, como este Leandro que estava em julgamento… Leandro escondia, atrás da magreza e do bigodinho, uma desoladora incapacidade de gestão das emoções motoras. Motoras, no sentido motorizado.

Foi várias vezes apanhado a conduzir sem carta. Na última, em 2018, pagou a pena cumprindo 200 horas de trabalho comunitário. O trabalho evitava-lhe ter de ir para a prisão durante um ano e seis meses. Horas valiosas, divididas por juntas de freguesia e assistências sociais. Mas Leandro não cumpriu a segunda parte da sentença: teria de assistir a aulas de formação cívica. Não foi a nenhuma, nem sequer antes da pandemia.

Diz agora que não sabe, que se esqueceu, que não percebera, que – “é verdade, é verdade…” – não ligou nem ao problema nem à própria advogada de defesa.

– O senhor percebe que o que está em causa é que não cumpriu o plano e pode ter de cumprir a pena de prisão efectiva?

E Leandro disse que sim. A sua cara tinha, soubemos depois, vários desgostos escondidos. O pai que lhe morreu aos nove anos. A mãe vendedora ambulante que durante um ano não pôde trabalhar, recebendo 200 euros de rendimento social. E a sua própria inaptidão laboral:

– Sou desempregado indiferenciado, explicou Leandro, isto é, não sabe explicar bem o que não faz.

O juiz desceu aos pormenores. Que carro usara na condução?

– Era uma mota.

– Era sua?

– Sim, comprei-a a prestações.

– Quanto custou a mota?

– Quatro mil euros.

– Eh pá, já é uma mota muito cara! Quatro mil euros. Isto, realmente, a iliteracia financeira!

Porque é que conduzia, se não tinha carta, senhor Leandro?

– Se calhar foi a emoção de andar, disse Leandro.

A emoção de andar. Silêncio. E, senhor Leandro, agora que vão acabar as moratórias que suspenderam as prestações, como é que vai pagar a mota?

Pagar o quê? A mota rebentou-a na estrada, já foi para a sucata.

Boa Páscoa.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)