Quando os bichos não sabem estar sozinhos

A ansiedade por separação pode ocorrer em qualquer fase da vida do animal

Em cachorro, sempre que ficava sozinho em casa, Sushi entretinha-se a destruir alguma coisa. “Tapetes, rodapés, mobília”, enumera Serenela Dinis, a dona deste rafeiro, atualmente com um ano e meio. De início, Serenela não percebia a origem desse comportamento.

Com o apoio de Eneida Cardoso, treinadora e educadora canina da ConectaCão, na Gafanha da Nazaré, Serenela Dinis percebeu que Sushi sofria de ansiedade por separação. Uma síndrome que afeta cães e gatos e que se traduz na incapacidade de o animal se sentir confortável e seguro quando as figuras humanas de referência não estão presentes.

“É um problema que tem na base dificuldade de autonomia e independência, cujas causas são variadas”, elucida Eneida Cardoso. A ansiedade revela que algo falhou: “Uma aprendizagem desadequada, quer seja intraespécie (mãe e ninhada) ou interespécie (educação, contexto, sociabilização), uma pobre e fraca estimulação, e também a inexistência de rotinas, regras e limites”.

Pode manifestar-se igualmente em animais muito inseguros, alvos de sobreproteção por parte dos donos, “muito frequente em cães de raças de porte pequeno e mini”, acrescenta a mesma treinadora.

Castigar não é solução

A ansiedade por separação pode ocorrer em qualquer fase da vida do animal, embora seja mais comum na fase de cachorro/gatinho. “Mesmo cães que não o manifestem numa fase inicial podem ter estes comportamentos após uma mudança de casa ou uma alteração abrupta das rotinas, como quando nasce um bebé, por exemplo”, sublinha Eneida Cardoso.

Castigar o animal ou dar-lhe demasiada atenção pode agravar o problema. A resolução é complexa, mas o mais indicado é recorrer a um profissional da área do comportamento animal. Eneida afirma ser essencial haver “coerência e disciplina” por parte dos donos, embora muitos tenham dificuldades em cumprir o que lhes é pedido.

Um ano depois do diagnóstico, o problema de Sushi não está ultrapassado, mas “diminuiu significativamente”, assegura Serenela Dinis. Um dos truques a que recorre quando sai de casa é deixar brinquedos recheáveis com comida para que ele se mantenha ocupado e estimulado. Mas o principal segredo é “o amor, a dedicação, o tempo e a paciência”.

Sinais de Alerta:

Estes são os sintomas mais comuns da ansiedade por separação:
– Desconforto, stresse e excesso de excitação quando o dono inicia os rituais de saída de casa, como calçar-se ou pegar nas chaves;
– Vocalizações excessivas e prolongadas no tempo (ladrar, ganir, uivar);
– Incapacidade em controlar a urina e as fezes quando os donos estão ausentes;
– Destruição ou desarrumação de objetos, mobiliário, entre outras coisas;
– Excesso de salivação e respiração acelerada, quer quando o dono sai, quer quando chega a casa.