Valter Hugo Mãe

Graça Freitas

Valter Hugo Mãe (Foto: Pedro Granadeiro/Global Imagens)

Rubrica "Cidadania Impura", de Valter Hugo Mãe.

E é com horror que leio pelas redes os impropérios jocosos e aziados daqueles que, num trágico costume, são incapazes de reconhecer em mulheres a valentia que só se espera dos homens.

A Doutora Graça Freitas impende sobre nós como uma senhora professora dos tempos de escola. Depois de meses de “aula” diária, sinto que criamos por ela essa visão emotiva que procura um pouco resistir ao que nos diz ao mesmo tempo que sabe que precisamos de aprender.

Como é natural, não é absolutamente pacífica a relação de um professor com seus alunos, sobretudo quando não há verdadeiramente um manual e a sala de aula é um campo aberto ao ruído.

Tenho para mim que Graça Freitas ocupou por vezes um lugar político quando seria esperado manter-se num registo estritamente técnico. Em muitos momentos, esteve em causa encobrir certa incapacidade do Governo e das instituições mais do que francamente expôr o que a ciência já tinha competência para expôr. O caso das máscaras, por si só, é paradigma de uma instrução que jamais esperaríamos balizar-se numa franca opinião técnica. A instrução para preterir a máscara só se entende enquanto súplica política.

Dito isto, considero fundamental a lealdade profunda entre a DGS e o Governo. Por mais que nos tenham parecido em estéreo as conferências conjuntas com a ministra Marta Temido, essa sintonia é também a chave do clima de calma que se tem conseguido manter, ainda que os dados sejam alarmantes e o SNS pareça tão perto de colapsar. Essa lealdade é um equilíbrio de que todos auferimos, e radica numa força de espírito impressionante que Graça Freitas e Marta Temido revelam. Por maior irritação, que é sobretudo uma irritação com estarmos subjugados a um predador invisível e ubíquo, não podemos jamais deixar de reconhecer o empenho militante e incansável que estas duas mulheres levam a cabo e o quanto a sobriedade que mantêm nos serve de diapasão para a dita calma.

É, por isso, com solidariedade que recebo a notícia de que Graça Freitas testou positivo para a covid-19, fazendo votos para que se conserve assintomática e possa, inclusive, manter-se em funções. E é com horror que leio pelas redes os impropérios jocosos e aziados daqueles que, num trágico costume, são incapazes de reconhecer em mulheres a valentia que só se espera dos homens.

Haverei sempre de pensar livremente acerca do mundo que me rodeia e daquilo que me afecta a vida, mas não quero confundir meu cansaço ou frustração com a dignidade das pessoas e a alegria de que estejam bem. Assim, é genuinamente o que desejo, que todas as pessoas que adoeçam se curem o mais rápido possível, passando por sofrimento nenhum ou muito pouco, e regressando às suas missões no cumprimento da boa fé que lhes reconheço ou espero.

Como com professores que nos pareceram mais severos, que nos chumbaram ou com os quais não conseguimos aprender aquele bocado de matemática, devemos retribuir com a humildade de reconhecer que não faríamos melhor. Precisamos deles. Precisamos muito deles.

(O autor escreve de acordo com a anterior ortografia)