É presença diária na televisão em dias de pandemia. Não há português que não lhe conheça a atitude discreta, o rosto quase sempre fechado. Presta contas em tom monocórdico, alheio à plateia mediática.
“Pressão é algo a que a minha profissão me habitou.” Cirurgião na área da ortopedia, licenciado pela Universidade de Coimbra, António Sales chegou à política quase por engano. “Quase, não. Fui completamente enganado”, diz, recordando o que lhe fora prometido na altura: “Um dos últimos lugares de uma lista candidata a uma assembleia de freguesia, pouco mais do que figura de corpo presente”. Seguiram-se a inscrição no PS, a presidência da concelhia em Leiria e, por fim, a Assembleia de República. Pela primeira vez, interromperia a prática clínica.
No hemiciclo, João Soares foi vizinho próximo. Tornaram-se amigos. “Era um bom parlamentar, igualmente disponível para atender a problemas de saúde de camaradas, problemas meus, do Manuel Alegre, de vários, no fundo, de quem precisasse.” Porque, acrescenta, “sendo todos nós socialistas, uns são mais do que outros”. Elogia em Sales “a ausência de vaidade, hoje em dia tão rara”. A atitude, nas conferências de imprensa, “franca, genuína, sem ligeireza”. Demasiado formal? “[O António] é um tímido genuíno, alguém que não precisa daquele lugar.”
Perante os colaboradores, António Sales “é sempre mais médico do que político. Alguém preocupado com os pequenos detalhes, com a fiabilidade da informação que transmite”, realça Tiago Gonçalves, o chefe de gabinete. “Hábitos que vêm da prática médica, onde a preparação cuidadosa é essencial”, acrescenta o médico. Aos 57 anos, não responde ao escrutínio com ansiedade. “Não tenho já grandes expectativas. Acordar vivo é bom o suficiente.”
Segue pouco o país pela televisão. “E quando o faço, calha ouvir falar mal de mim. Pouca sorte.” Pouca sorte é uma expressão muito sua. “É verdade, digo-a muitos vezes, nem sei bem por que razão. Até porque tive muita sorte na vida.”
Nasceu nas Caldas da Rainha. Filho de uma professora primária, mais tarde liceal, e de um diretor das Finanças, cresceu no Bombarral, entre os estudos, o escutismo e o futebol, praticado na rua. Aos nove anos, conquistado por um velho estetoscópio de um médico amigo, escolheu o caminho. Recorda da escola: “Sabia que outros eram mais inteligentes e por isso estudava muito a ponto de conseguir melhores notas do que eles”. Do futebol guarda a memória do Bombarralense e da camisola de lateral direito, que vestiu até chegar a maioridade.
Lê jornais em papel diariamente. Dorme pouco e levanta-se cedo. Tem a pontualidade “de um relógio suíço”, nota Tiago Gonçalves. “Sabe ouvir”, garante o chefe de gabinete, numa referência às reuniões com as Ordens. Fomos confirmar. “Temos reunido com ele todas as semanas por videoconferência e tem tido uma prestação muito boa, muito atento à resolução dos problemas do dia a dia”, afirma a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, crítica conhecida da política do Ministério da Saúde e de Marta Temido. Para Ana Rita Cavaco, António Sales “tem sido uma voz lúcida e calma, ainda que acuse algum cansaço, o que é natural”.
Irrita-o a manipulação. “A dos números, a dos gráficos e quem a faz.” Em tempos normais, é sagrado o jantar semanal com a filha. O regresso a Leiria, à sexta-feira. As manhãs de domingo perto do mar, de São Pedro de Moel. Em tempos de pandemia, as rotinas são outras. “O mais difícil é tirar a morte e os que já morreram do pensamento.” Projetos: aprender a falar inglês com fluência.
António Lacerda Sales
Cargo: Secretário de Estado da Saúde
Nascimento: 03/06/1962 (57 anos)
Nacionalidade: Portuguesa (Caldas da Rainha)