Aleksander Lukashenko: pai tirano

Aleksander Lukashenko é presidente da Bielorrússia (Ilustração: Mafalda Neves)

O bigode autoritário de Aleksander Lukashenko não vacila: “Até que me matem, não haverá outra eleição”. Entrincheirado no poder que detém há 26 anos, nem as vaias dos trabalhadores da famosa fábrica de tratores de Minsk, base do seu eleitorado, o fazem crer que o país vive uma situação avaliada por várias analistas numa palavra: irreversível. Opositores e população não aceitam os resultados oficiais das eleições presidenciais de 9 de agosto, que deram 80% dos votos a Lukashenko e 10% à surpreendente Svetlana Tikhanovskaya, nem a repressão a protestos pacíficos contra o que consideram ser fraude eleitoral. Exigem a libertação dos presos políticos, sob pena de manterem na rua a contestação, sem precedentes, ao regime.

O líder da Bielorrússia perdeu o apoio das ruas, mas conserva, pelo menos assim parece, o do Exército e o das forças de segurança, que o sustentam no poder há 26 anos. Em 10 de julho de 1994, quando o chefe de uma grande empresa agrícola estatal foi eleito o primeiro presidente da Bielorrússia, havia apenas três anos que a antiga república soviética conquistara a independência.

O homem que no início da trajetória política fundou dentro do Partido Comunista o grupo Comunistas pela Democracia construiu um Estado autoritário, sem limite de mandato, com controlo sobre a máquina estatal. Era então chamado de Batjka (pai), e até hoje assim se considera. Filho de uma camponesa solteira, sustentou a carreira política com denúncias contra a corrupção, perante eleitores assustados com a experiência dos países vizinhos, criando “uma ilha de tranquilidade e segurança”, uma “pequena União Soviética” que em 2018 ocupava a 53.ª posição entre 189 países no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Com um sistema de saúde eficiente e taxa de mortalidade infantil baixa, ao invés da taxa de alfabetização, estimada em 99%.

Conhecido o interesse do presidente em concursos de beleza (as mulheres são proibidas de competir para além das fronteiras), crítico do feminismo (o que o levou ao erro de desvalorizar a candidatura de Tikhanovskaya) Lukashenko casou com a namorada de colégio Galina Rodionovna, a professora que há anos vive afastada da ribalta. Pai de três filhos, tem uma ligação especial a Nikolai, o mais novo, fruto de uma relação extraconjugal. O adolescente acompanha o pai em viagens ao estrangeiro e nas férias com Vladimir Putin, tradição anual, conhecido que é o gosto dos dois presidentes pelo esqui e pelo hóquei no gelo. Aliás, grandes eventos como futebol e hóquei no gelo continuam a ter lugar no país. Lukashenko chegou a dizer que jogar hóquei protege contra o vírus pandémico. “É melhor morrer de pé do que viver de joelhos. Não há vírus no gelo. Isto é um frigorífico. Eu vivo a mesma vida que sempre vivi, ainda ontem tive uma sessão de treino com a minha equipa. Encontrámo-nos, apertámos as mãos, abraçámo-nos, batemos uns nos outros.” Negacionista da pandemia, apresentou a receita para a cura: “Vodca, sauna e trabalho no campo”.

Aleksander Grigorievitch Lukashenko
Cargo:
presidente da Bielorrússia
Nascimento: 30/08/54 (66 anos)
Nacionalidade: Bielorrussa