Viver com uma doença crónica. “O sofá pode ser o nosso pior inimigo”

A DPOC limita progressivamente a qualidade de vida dos doentes

Isabel Saraiva tem um longo historial de fumadora. Fumou durante 40 anos, três maços por dia nos últimos dez. A tosse e o cansaço manifestaram-se e o corpo pediu ajuda. Marcou consulta, foi ao médico, e o diagnóstico foi confirmado por exames: Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), bronquite com enfisema. Foi há 16 anos, tinha 54 anos, era então diretora executiva da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma). Continuou a trabalhar, estava numa situação de pré-reforma, garante que a doença não interferiu no desempenho profissional. Hoje é vice-presidente da Respira – Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas.

Teve de deixar de fumar e foi bastante difícil. “Resisti alguns dias com muitas dificuldades, devo confessar”, recorda. Com a ajuda do médico e de medicação largou definitivamente o tabaco. Custou, mas teve de ser. “Foi importante, desde o início, saber que tinha uma doença crónica, que fica para o resto da vida. Isso muda a vida das pessoas, há uma nova perspetiva do mundo”, conta. Começou a interessar-se pela sua doença, a ler, a pesquisar. Aprendeu a lidar com a DPOC. “Tenho de ter cuidado comigo, sei que não posso fazer certas coisas, tenho estratégias de gestão das minhas energias, afasto-me das mudanças bruscas de temperaturas, do ar condicionado, do vento.” Pratica exercício físico, sabe que não pode subir ladeiras íngremes.

A DPOC é uma doença progressiva e não tem cura. Isabel Saraiva não se deixa abater. Nunca foi de fechar-se em casa, nunca foi de ficar prostrada. “Gosto muito de mim”, diz. Não descura a vigilância médica, o inalador tornou-se um companheiro diário, tem cuidados na alimentação. E deixa vários conselhos a quem padece da doença respiratória. “Não fiquem no sofá, o sofá pode ser o nosso pior inimigo. Têm de sair de casa, fazer visitas regulares ao médico, fazer caminhadas diárias de meia hora”.

Mais de metade das pessoas com DPOC tem hiperinsuflação dinâmica, ou seja, limitação do fluxo de ar, enquanto sobem escadas (56%), aspiram a casa (59%) e arrumam as compras (51%)

A DPOC é uma doença respiratória que resulta de uma obstrução das vias aéreas. É uma patologia crónica, geralmente progressiva. É a terceira causa de morte no Mundo e afeta cerca de 800 mil portugueses com mais de 40 anos. “Na maioria dos casos, a DPOC é causada pelo fumo do tabaco. Outros fatores, como a exposição profissional e ambiental a fumos, químicos e poeiras, também podem causar a doença. Mais raramente estão envolvidas causas genéticas”, adianta Cidália Rodrigues, pneumologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Tosse, expetoração, pieira, dificuldade respiratória (dispneia) e cansaço, são os principais sintomas. Os doentes têm limitações no exercício físico e queixas de limitação na realização de atividades de vida diárias, como higiene pessoal, atividades domésticas e de lazer. A idade média dos doentes ronda os 74 anos e a sua prevalência aumenta com a idade.

“A doença tem impacto no dia a dia do doente, pela incapacidade e limitação na realização das atividades profissionais e de vida diárias. Gera stresse, ansiedade e isolamento social, com impacto na qualidade de vida relacionada com a saúde”, refere a especialista. “As exacerbações da doença são causa frequente de internamento, com aumento da morbilidade e mortalidade”, acrescenta.

75% das pessoas com DPOC acordam durante a noite devido aos sintomas da doença, que podem incluir tosse, pieira ou dificuldade em respirar

O diagnóstico precoce através de espirometria, exame de avaliação respiratória que determina se existe obstrução das vias aéreas, e o tratamento atempado são essenciais para que os doentes consigam a melhor qualidade de vida possível. Muitos doentes são forçados a reformar-se antecipadamente. Um estudo revela que 26% dos pacientes reformaram-se mais cedo devido à DPOC.

“Numa pessoa com sintomas sugestivos de DPOC e exposição a fatores de risco, nomeadamente o tabaco, é necessário realizar uma espirometria para confirmar o diagnóstico”, explica Cidália Rodrigues. Os broncodilatadores são os principais medicamentos no tratamento da DPOC. É fundamental deixar de fumar, praticar exercício físico de forma regular, prevenir infeções e oxigénio quando existe insuficiência respiratória.

O Dia Mundial da DPOC assinala-se a 20 de novembro. Neste dia, o Centro Comercial Amoreiras, em Lisboa, recebe uma exposição de sensibilização para o peso social da doença e uma ação de rastreio, através da realização de espirometrias, que conta com a participação de um conjunto de figuras públicas. “Viver com DPOC” é uma iniciativa promovida pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia, Fundação Portuguesa do Pulmão e Respira – Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas. Esta ação pretende dar a conhecer ao público o que é a DPOC, alertar para os sintomas e fatores de risco, bem como para o peso que esta patologia tem no dia a dia dos doentes.