Todos podemos ser ciência

Patricia Tiago, bióloga, criadora do projeto de ciência-cidadã Biodiversity4All.org, com 3 414 observadores inscritos. (Foto: Álvaro Isidoro/Global Imagens)

Texto de Sofia Teixeira

Pardais, cobras-d’água, malmequeres, águias, abelhas, cogumelos, orquídeas. Em nove anos de projeto, a plataforma Biodiversity4All.org já registou 9 170 espécies em Portugal e, no total, mais de 219 mil observações – com a localização e data de avistamento -, uma base de dados só possível através da colaboração dos 3 414 observadores inscritos na comunidade naturalista.

Números que fazem da plataforma um caso de sucesso que a bióloga Patrícia Tiago, uma das criadoras, confessa “constituir um acervo de biodiversidade que pode ser muito útil e que excede todas as expectativas iniciais”.

Após a inscrição no site, os utilizadores podem registar online as espécies que encontram, na cidade ou no campo, fazendo o upload da foto respetiva e comunicando o dia e local da observação. E todos podem participar, mesmo não sendo especialistas: seja identificando espécies que quase toda a gente conhece, como um melro ou uma papoila, seja carregando a foto da espécie e deixando que outros participantes, com mais experiência, ajudem a fazer a identificação.

Estes são dados de biodiversidade que podem ser usados com muitos fins, porque, apesar dos vieses que têm, são muito mais amostras do que aquelas que os cientistas conseguiriam recolher sozinhos. “Permitem ver a evolução das espécies, ajudam a dar resposta a questões científicas, podem ter uma componente pedagógica e servir até para ajudar a apoiar decisões políticas”, exemplifica a bióloga. E, apesar de não substituírem os dados recolhidos cientificamente, podem ajudar a complementá-los ou dar um primeiro alerta relativo ao aumento ou diminuição de algumas espécies.

Hoje, a Biodiversity4All.org funciona já como uma plataforma de apoio a outros projetos. “Por exemplo, um investigador que queira fazer um censo de borboletas pode lançar esse pedido dentro da plataforma, o que lhe permite angariar voluntários que contribuam com dados que lhe vão permitir ter uma noção de onde estão as borboletas naquele momento ou ao longo de um período de tempo”, pormenoriza Patrícia Tiago.

De resto, e apesar de ser um evento raro, a plataforma pode até servir para identificar espécies novas, como aconteceu há alguns anos: um dos utilizadores voluntários fotografou uma espécie de gafanhoto que ainda não era conhecida, a comunidade científica estava de olho e detetou a descoberta, e o animal acabou por ser batizado como Neocallicrania barrosi, referência ao sobrenome (Barros) do seu descobridor.

A Internet mudou a ciência

As primeiras iniciativas de envolvimento de cidadãos voluntários em projetos científicos são bastante antigas. Desde 1900 que nos Estados Unidos a Audubon Society promove a Christmas Bird Count, ou Contagem de Aves no Natal, que consiste na observação e registo exaustivo daquela espécie por milhares de cidadãos voluntários, na semana antes e depois do Natal, para proceder aos censos de aves existentes. Mas foi a Internet que fez com que estas iniciativas adquirissem maior dimensão participativa.

Um dos maiores e mais bem-sucedidos projetos de ciência colaborativa iniciados no século XX é o projeto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence/Busca de Inteligência Extraterrestre), da Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, que procura captar sinais de vida inteligente fora da Terra. A quantidade de dados recolhida pelo radiotelescópio Arecibo é gigante, mesmo para os supercomputadores do projeto.

Por isso, em 1999, aproveitando a massificação de computadores pessoais e a chegada da Internet, foi criado o [email protected], que estendeu a busca aos computadores particulares através do chamado “processamento distribuído”: o utilizador descarrega um pequeno programa que, durante o tempo de ócio da máquina, analisa pequenos pacotes de dados do telescópio. Só nos primeiros dez anos, mais de seis milhões de voluntários instalaram e correram o programa.

O projeto Novos Decisores Ciências junta moradores do bairro do Segundo Torrão, na Trafaria, Almada, face à erosão costeira. (Foto: DR)

Foi também explorando as potencialidades da Internet que surgiu o primeiro projeto de ciência-cidadã em Portugal, em 2005, uma ideia “importada” da Holanda pela mão de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), hoje sob a alçada do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge: o GripeNet.pt, uma ferramenta de vigilância participativa da gripe sazonal.

O funcionamento é simples: qualquer pessoa que resida em Portugal pode fazer o registo na plataforma, preenchendo um pequeno questionário. Durante o período de vigilância da gripe, entre o início de outubro e meados de abril do ano seguinte, é pedido ao utilizador que reporte online a presença ou ausência de sintomas semanalmente, uma colaboração que demora apenas uns segundos no caso de não haver sintomas, e dois ou três minutos caso os haja.

Isto é importante porque permite obter uma informação diferente e complementar dos dados tradicionais. “Os indicadores clássicos são baseados na procura dos cuidados de saúde através de rede de médicos sentinela – um conjunto de clínicos de família espalhados pelo país que reportam os sintomas de gripe nos utentes que os procuram”, explica Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Mas essa ferramenta tem uma limitação: uma parte relevante das pessoas que tem gripe não recorre a cuidados de saúde. “Com os dados do GripeNet não obtemos apenas a incidência de gripe entre as pessoas que recorrem a cuidados de saúde, mas também a incidência comunitária.”

Estes dados permitem ganhar tempo. “Como estamos a identificar o problema a montante é possível alguma antecipação: conseguimos identificar o início da epidemia, e potencialmente o seu pico, com uma antecedência de duas a três semanas, o que do ponto de vista do planeamento dos recursos humanos pode ser uma mais-valia, por exemplo, para redimensionar as equipas das urgências”, assinala Ricardo Mexia.

Cidadãos cocriadores

Cada vez mais a ciência-cidadã evolui na direção de projetos mais colaborativos, que nascem das necessidades identificadas pelas comunidades e que as envolvem muito além da recolha de dados.

“Irá o mar comer o Segundo Torrão? Quando? Como?” Partindo dessa pergunta, formulada por um grupo de moradores do bairro do Segundo Torrão, na Trafaria, Almada, foi criado o projeto de ciência participativa Novos Decisores Ciências. Hoje, um grupo de geólogos costeiros e oceanógrafos faz investigação neste local, no âmbito da erosão costeira, para tentar dar resposta a estas e outras perguntas.

“A coformulação do problema de investigação foi feita em 2014 com um grupo de moradores através de uma dinâmica de jogo”, sustenta João “Cão” Duarte, investigador e mediador do projeto. “Foram identificados vários problemas, tendo sido este, dos galgamentos durante as tempestades, o selecionado.”

Os mediadores fizeram depois a ponte com um grupo de investigadores da Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa e, após a fase de mapeamento e investigação preliminar, também com a participação da população, foram já colocados este ano sensores de pressão no estuário do Tejo, para ser possível construir um modelo digital computadorizado que permite um maior entendimento dos galgamentos da água.

“Os investigadores têm autonomia no seu trabalho, mas há três decisores, representantes da associação local de moradores, com quem mediadores e cientistas fazem reuniões periódicas para partilha da informação e decisão”, sublinha João Duarte. As conclusões ainda estão longe (o projeto está em curso até 2021), mas hoje antevê-se que um dos possíveis resultados seja a proposta de criação de um sistema de alerta de galgamento prévio, de forma a que a comunidade não seja apanhada desprevenida.

Porque a ciência-cidadã, mais do que uma inovação sobre como pensar a ciência, é um novo modo de pensar a cidadania: participar no processo científico é uma das melhores maneiras de exercer direitos e deveres sociais de forma responsável, informada e consciente, e de ser um ator com um papel ativo na resolução dos próprios problemas.