Se temos sol, porque temos défice de vitamina D?

Texto de Sara Dias Oliveira

País de sol, à beira-mar plantado, com uma população de hábitos de vida moderna. Resultado: pouca exposição solar nas horas indicadas e na duração suficiente, ausência de vitamina D. As crianças brincam sobretudo dentro de casa, os adultos passam os dias em edifícios fechados. As alterações nos hábitos alimentares também têm impacto negativo nos valores desta vitamina.

Primeiro, pensava-se que a vitamina D era apenas importante para a saúde do osso. Depois, verificou-se o seu papel na regulação de várias hormonas, no bom funcionamento do aparelho cardiovascular, do cérebro, do sistema imunitário. E assim a vitamina D saiu do campo restrito da reumatologia e passou a ser usada em muitas especialidades médicas.

“A vitamina D funciona como uma hormona com múltiplas ações, das quais a classicamente assumida é o seu papel fulcral no metabolismo do cálcio e fósforo”, adianta à NM José Silva Nunes, do serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central. A vitamina D é também responsável pela absorção intestinal do cálcio que é ingerido nos alimentos.

A principal fonte de vitamina D provém da formação cutânea, por ação dos raios ultravioleta B, existente na pele dos indivíduos. Em complemento, embora em menor importância, há um conjunto de alimentos ricos em vitamina D, como alguns peixes e ovos, que podem contribuir para os níveis circulantes da hormona.

O défice de vitamina D tem consequências. “Assumindo o seu papel, entre outros, na proteção cardiovascular e na modulação do sistema imunológico, o défice de vitamina D induziria aumento do risco cardiovascular e quebra da homeostasia a nível imunológico (com aumento do risco de desenvolvimento de várias doenças imunomediadas)”, adianta o especialista.

“Face aos níveis reduzidos de vitamina D, existe um compromisso na absorção intestinal do cálcio alimentar. Para que não ocorra hipocalcemia, com todas as múltiplas consequências nefastas de tal condição, o organismo procura manter a eucalcemia através da mobilização de cálcio a partir das maiores reservas que o organismo humano possui: o osso. Para tal, ocorre aumento da síntese de paratormona pelas glândulas paratiroideias a qual, por ação sobre os osteoclastos, promove a mobilização do cálcio dos ossos para a corrente sanguínea”, acrescenta José Silva Nunes.

O défice de vitamina D, geralmente, não dá sintomas. Contudo, pode manifestar-se por queixas de fraqueza generalizada e dor óssea. Os grupos populacionais com maior risco de défice de vitamina D são os idosos, as grávidas, as crianças, os melanodérmicos, os obesos e os doentes que tomam medicamentos como corticoterapia, fármacos anticonvulsivantes, antifúngicos e antirretrovirais.

A utilização de vitamina D é obrigatória em todos os bebés durante o primeiro ano de vida, de acordo com recomendações nacionais e internacionais. As recomendações internacionais alargam-se a todas as crianças até aos 18 anos que pertençam a grupos de risco, nomeadamente com obesidade, pele escura ou com indevida exposição solar. Na idade adulta, pessoas acima dos 65 anos são o principal grupo alvo das recomendações da maioria das especialidades médicas. Nas recomendações de suplementação para os adultos, a osteoporose é a doença que requer de forma genérica mais indicações por parte dos especialistas.