OPINIÃO

[Exclusivo] Woody Allen: «Já levei muitas recusas»

É assim o método de Woody Allen: sentar-se e escrever. Recolhe ideia, lê artigos, toma notas – à mão, ainda –, mas quando se senta para escrever, fá-lo com ritmo e com disciplina. A propósito de «Roda Gigante», em exibição, uma conversa exclusiva com o realizador de 82 anos sobre o processo de trabalho, a forma como escolhe os atores, a maneira como encara os filmes que faz anualmente. E também sobre a tragédia da vida e as comédias que lhe servem de escape.

Entrevista de Mário Augusto

Este seu novo filme mostra alguma amargura na análise da grande roda da vida. Há muito que não o víamos a refletir desta forma sobre a paixão. O papel foi escrito ao que sei, pensando especificamente em Kate Winslet?
Fui desenvolvendo a personagem já com essa ideia. Talvez não focado apenas nela, mas tinha-a como imagem forte para esta personagem, a Ginny. Uma mulher com uma vida esmagada e sonhos adiados. Ela queria ser atriz e acabou a trabalhar no bar do parque de diversões. Eu sabia que teria que ter uma atriz como a Kate, muito forte para o papel. Nas conversas com a equipa de casting, constatei que havia um número muito limitado de atrizes com idade e com a força desta personagem. A Kate Winslet é uma dessas poucas atrizes. O nome dela veio logo à cabeça. Não queria um desempenho de cliché do género: «lê o guião e faz…» Queria que fosse um desempenho real e forte. Ela garantiu-me isso.

Os seus filmes têm habitualmente grandes nomes no elenco. Às vezes nomes improváveis. Como é o seu processo de escolha dos atores?
Varia muito, até porque, como agora aconteceu agora, quando estava na fase final do guião tinha já uma ideia muito refletida sobre a Kate [Winslet]. Mas habitualmente, depois de acabar o argumento, envio para a diretora de casting que me faz as sugestões, reunimos e vamos selecionando os nomes. Alguns eu não quero, outros nunca ouvi falar… outros aceito logo… vejo uns DVD com trabalhos deles… mas no caso da Kate foi uma escolha imediata. Ela tem muita força.

Há a ideia que todos querem trabalhar consigo!
Mas isso não é verdade. Já levei muitas recusas. Por vezes não sentem química com a personagem, não têm agenda para filmar, ou simplesmente não gostam da história.

O cenário deste filme e a época em que decorre tem muito a ver com a sua infância. Vivia perto de Coney Island.
Sim é verdade. Eu tenho na memória a Coney Island que recrio no filme, ainda com aquele glamour que foi decaindo com o passar dos anos. Mas a Roda Gigante era uma referência naquele cenário cheio de luz. Eu nasci perto, eram 15 minutos desde minha casa. Estive lá muitas vezes. Recrio o tempo mais mágico daquele espaço que foi perdendo a importância.

Os comediantes têm, provavelmente, a visão mais trágica de tudo. E é por isso que conseguem fazer humor: para que as pessoas possam escapar sorrindo.

Muda das comédias para os dramas, fantasia sobre a existência ou faz-nos desacreditar na paixão como um filme como este sobre a roda dentada da vida. As suas ideias para os filmes vêm de onde?
É tudo muito normal, sento-me no escritório, passeio e vou tomando umas notas. As ideias vão-me surgindo. É a minha vida, é isso que eu faço para viver. Quando comecei a trabalhar como autor, há muitos anos, escrevia textos para televisão. Escrevia para um programa dos serões das sextas-feiras à noite. Regressava ao escritório na segunda-feira e tinha que me sentar na sala e ter novas ideias. Era um programa semanal, era preciso pensar em novas ideias, não havia escolha, tinha que se produzir alguma coisa.

Uma nova história?
Sim, claro. Tinha que sair alguma coisa porque na sexta-feira seguinte o programa estaria de novo no ar em frente a toda a América. Isso ensinou-me que não se pode estar à espera da inspiração, não se pode ser temperamental. Percebes que é um trabalho, um emprego. Essa rotina deu-me algum traquejo e um processo metódico de escrita.

Este novo filme reflete sobre a tragicomédia da vida real e das relações. Todos estão em sofrimento à sua maneira. Lembro-me da nossa última conversa, em que me dizia que a vida real é trágica. Dizia que os melhores filmes eram tragédias.
É verdade. Pense nos grandes filmes. O Ladrão de Bicicletas, por exemplo, é um filme trágico. É assim que a vida é para toda a gente. Temos é que ter a capacidade de tornear a tragédia. Não estou com isto a dizer que os grandes musicais, como os de Fred Astaire, são maus filmes. São, para mim, uma forma de fugirmos a essa tragédia da realidade. Todos temos que arranjar escapes. Sempre me interessei mais pela tragédia, mas tive mais facilidade para as comédias. Acho que os comediantes têm, provavelmente, a visão mais trágica de tudo. E é por isso que conseguem fazer humor: para que as pessoas possam escapar sorrindo.

Mesmo neste tipo de histórias mais negras, o seu processo de análise e pesquisa é sempre o mesmo?
É sempre igual. No fundo vou absorvendo as histórias que leio nos jornais durante um ano. Às vezes contam-me episódios reais e quando vou para escritório escrever já tudo esta na minha cabeça, já lá andam todas essas influências. Quando começo, estou cheio de notas, boas ideias e algumas mais terríveis. Tudo isso vai ganhando forma para a escrita. Eventualmente dessa ideia que surge eu faço um filme, mas nem sempre acontece. Por vezes resultam bons filmes outras vezes nem por isso. É claro que sempre que se escreve um guião ou um filme, fazemos o melhor que sabemos, mas eu sei que nem sempre resulta bem.

Não acho que tenha mudado muito com a idade. Continuo com os mesmos medos, as mesmas ansiedades, a mesma ambição e os mesmos problemas.

Basta-lhe uma notícia de jornal, uma história que lhe contam?
Sim, sim. Uma ideia simples, um recorte de jornal, uma ideia que me ocorre de uma conversa. Vou anotando coisas num papel, vou pensando e tudo vai ganhando forma. A historia vai-se desenvolvendo. Sento-me no escritório e reflito umas semanas, duas ou três e fico ali a pensar, refletir sobre a história e os diálogos… não é diversão é trabalho e assim começo a escrever.

É muito metódico no trabalho?
Sim, talvez seja porque me concentro no trabalho, naquilo que estou a fazer. Respeito muito o meu ritmo. Nas filmagens trabalhamos até ao fim do dia. Tenho tudo já muito organizado na cabeça e por isso às vezes sou surpreendido pelos atores que dão muito mais do que eu tinha pensado.

Ainda escreve sempre em papel primeiro. Notas manuscritas…?
Sim. De caneta na mão, vou desenvolvendo a ideia, às vezes até deitado na cama vou anotando pormenores e só depois passo tudo a limpo. Essa é talvez a parte mais difícil do processo: desenvolver a ideia. Quando começo a escrever, a coisa torna-se mais fácil. Escrevo sempre à mão, umas quantas páginas de cada vez, e só depois é que passo essas folhas manuscritas a limpo.

Mudou muito ao longo dos anos?
Não acho que tenha mudado muito com a idade. Continuo com os mesmos medos, as mesmas ansiedades, a mesma ambição e os mesmos problemas. Na verdade, eu faço as mesmas coisas que fazia quando era mais jovem, desde que me transformei em escritor profissional, primeiro para televisão e depois cinema e espetáculos. Isso é o que faço na vida, desde sempre e nesse sentido não mudei, acho que estou o mesmo.

Não vai acreditar, mas eu nunca gostei muito de ler, mas não se pode entender a vida e as pessoas sem ler muito. Nunca li por prazer. Li para fazer o trabalho de casa.

As grandes questões da existência e da mortalidade estiveram sempre muito presentes no seu cinema. Isso preocupa-o?
Sim, isso sempre me preocupou. Ninguém quer ficar mais velho e morrer. Está no nosso íntimo contrariar isso. Mesmo que se pense que não há razão para viver. Nós lutamos para viver, é um sentimento automático. É assim um instinto animal. Como sou mais velho, tento já não pensar muito nisso. Prefiro focar-me nas minhas histórias e um novo filme que venha a fazer de seguida.

Lê muito?
Não vai acreditar, mas eu nunca gostei muito de ler, mesmo quando era miúdo. Em criança gostava mais de ir ao cinema, ler banda desenhada, showbizz, de basebol e basquetebol. Mas vim a descobrir mais tarde que a leitura nos dá um mundo diferente e é preciso ler para manter boas conversas com pessoas inteligentes. Não se pode entender melhor a vida e as pessoas sem ler muito. Sinceramente nunca li muito por prazer. Li muito para fazer o meu trabalho de casa, pesquisar para os meus filmes.

E cinema, ainda vê muito?
Já não se fazem muitos filmes divertidos. Lembro-me que, quando era mais jovem e estava a crescer, se faziam imenso filmes interessantes. Passávamos a vida a ir ao cinema. Nessa altura, tínhamos todos aqueles filmes de Felinni, Di Sicca, Buñuel, Korosawa… Tantos e bons.

A América é um grande país e acredito que voltará a dar a volta. Nunca imaginei Trump como presidente. O país segue um caminho difícil, mas eu acredito na América.

Parte da sua inspiração certamente?
Sim, claro, muito desse cinema era inspiração para mim. Mas agora não se fazem filmes assim e eu não me apetece ver muito do que se faz. Mas sempre que surge alguma produção diferente interesso-me por ver e algumas vezes sou surpreendido. Também é verdade que, na maioria das vezes que sou surpreendido, são filmes de países europeus.

O que ainda o faz sorrir neste mundo tão duro?
Muitas coisas, mesmo. Piadas que me contam, alguns comediantes fazem-me rir. Ver os velhos filmes, algumas coisas que a minha mulher me diz e me fazem sorrir. Costumo dizer que sou um espetador sereno e é fácil fazer-me rir…

A América ainda o faz sorrir?
É um grande país e acredito que voltará a dar a volta. Nunca imaginei Trump como presidente, muito menos que ele quisesse o lugar. O país segue um caminho que não é fácil, mas eu acredito na América.

E UM FILME PARA PORTUGAL, QUANDO?

Já esteve várias vezes em Portugal. Chegou a dar conta que a capital tinha características interessantes para poder criar uma história e filmar por cá.
É verdade. Já estive várias vezes em Portugal, algumas para tocar clarinete com a minha banda de jazz. Gosto sempre muito de voltar. Um público espetacular. Visitei alguns sítios que adorei. Passei lá bons momentos. Gosto da luz de Lisboa, gosto da cidade. Não tive muito tempo para ficar, mas do que vi eu gostei e volto sempre que posso ou me convidam.

Chegou a pensar em alguma história para filmar em Lisboa?
Primeiro, tinham que me convidar e pagar o filme. Mas sei que Portugal passou por dificuldades económicas, por isso não espero que isso aconteça. Mas digo-lhe que Portugal é um lugar lindo. Teria que ter uma ideia que se resultasse bem nesse cenário. Acho que se conseguia.

O ASSUNTO DE QUE TODOS FALAM. MENOS WOODY ALLEN

Nunca falha: Woddy Allen segue o seu ritmo de estrear um novo filme por ano. O próximo, depois de Roda Gigante, já está todo filmado. Com tempo e uma rotina muito própria, a partir de janeiro começa a montagem do noto título, que lançará dentro de um ano, iniciando também a pesquisa para um próximo argumento. A entrevista passou também por aí, mas, como as conversas com o realizador são mais longas do que o habitual, ele gosta de explicar as ideias, responde com a serenidade de quem parece nada ter a esconder. Com uma exceção. Apenas um tema proibido, reparo feito à entrada da suite onde decorreu a entrevista: «O Sr. Allen não quer falar de questões da vida pessoal, tão pouco das recentes polémicas de assédio sexual em Hollywood».

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