O vídeo de “um dos maiores atos de amor” de João Semedo

José Coelho/Lusa

Silêncio absoluto na sala. O maior dos aplausos no final do discurso, todos de pé. Foi em Coimbra, durante a campanha para as presidenciais portuguesas de 2016. A surpresa foi geral, mas Marisa Matias, na altura candidata pelo Bloco Esquerda (BE), não escondeu as lágrimas. João Semedo, ex-coordenador do partido, tinha sido operado a um cancro nas cordas vocais e apareceu junto ao microfone para uma intervenção não programada. Queria falar. E falou.

“Espero que me ouçam. Só a Marisa é que punha aqui a falar um tipo sem cordas vocais…”, começou por dizer Semedo, protagonizando um momento que marcou, irremediavelmente, a campanha eleitoral. E nem a doença lhe trocou as voltas ao humor. “Certamente que não é por milagre. Tanto quanto sei, a Marisa ainda não faz milagres. Mas também já não tenho a certeza”, brincou, arrancando gargalhadas aos presentes.

Não houve um milagre. Esta terça-feira, a doença venceu João Semedo, aos 67 anos. E Marisa Matias lamentou a morte do antigo coordenador do BE destacando “a alma, o coração e a garra” com que o médico se dedicou “às lutas essenciais para a vida de toda a gente”. Mas o episódio de Coimbra, esse, é dos que a eurodeputada guarda com mais carinho.

“Foi dos maiores atos de amor que vi em política e isso caracteriza muito bem o que era o João. Há muita gente boa a fazer política e o João era seguramente dos melhores”, garantiu.

Em 2017, o ex-dirigente bloquista chegou a ser candidato do BE à Câmara do Porto, mas a doença acabaria por afastá-lo da corrida, sendo substituído por João Teixeira Lopes. “O João teve uma atividade política muito transversal e foi um construtor de pontes que procurou sempre encontrar soluções para que pudesse haver entendimentos que ajudassem à vida das pessoas. Penso que isto é um legado fundamental e uma referência politica para muita gente. Para mim é fundamental”, assegurou Marisa Matias.