“Vergonha alheia”: A vergonha dos outros é a nossa vergonha

Texto de Sofia Teixeira

Na cerimónia de entrega dos Óscares de 2013, Jennifer Lawrence subia ao palco do Dolby Theatre, em Hollywood, para receber a estatueta de melhor atriz, quando tropeçou no vestido e caiu nas escadas. Ainda em equilíbrio precário, levou a mão à cara, numa manifestação de vergonha. Mas não foi a única.

A maioria dos 3 400 ocupantes do teatro e dos milhões de espectadores do mundo inteiro que viam o evento em direto, sentado nos seus sofás, encolheram-se, coraram, levaram também a mão à cara, desviaram os olhos ou sentiram um pequeno aperto no peito, dando largas à sua vergonha alheia.

Temos um talento inato para sentir e ver a vida através dos olhos dos outros, o que chamamos empatia. É isso que explica uma série de mimetizações que fazemos todos os dias quase sem dar conta: os bocejos parecem ser contagiosos, ficamos emocionados quando nos contam uma história triste, sentimos medo ao ver um filme de terror, rimos quando escutamos alguém a rir. E, claro, sentimo-nos embaraçados quando vemos outras pessoas a passarem vergonhas épicas.

Em 1994, o neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, em Itália, fez uma descoberta que revolucionou o conceito de empatia, na medida em que lhe atribuiu uma origem neurológica.

Rizzolatti estudava a atividade dos neurónios responsáveis pelo planeamento e execução de movimentos num grupo de macacos, dando-lhes comida. Os animais tinham elétrodos na cabeça, ligados a um computador que registava a atividade cerebral e, de cada vez que agarravam ou movimentavam os alimentos, um grupo específico de neurónios do córtex pré-motor, nos lobos frontais, era ativado.

Mas depois aconteceu aquilo que ninguém podia prever: os monitores começaram a sinalizar atividade no córtex pré-motor dos macacos com eles imóveis: os animais estavam apenas a observar os investigadores ou outros macacos a manusear os alimentos. Ou seja, parte dos seus cérebros não fazia grande distinção entre pegar em comida ou ver alguém a fazer o mesmo, razão pela qual batizaram este grupo de células cerebrais de neurónios-espelho.

Este tipo de estudo foi transposto para humanos e para o campo das emoções com conclusões semelhantes. “Os estudos de neuroimagem mostram padrões de ativação cerebral sobreponíveis quando sentimos as nossas próprias emoções e quando observamos as mesmas emoções nos outros”, explica Renata Lima, investigadora brasileira na área da cognição social, especialmente da imitação, no Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Os estudos de neuroimagem mostram padrões de ativação cerebral sobreponíveis quando sentimos as nossas próprias emoções e quando observamos as mesmas emoções nos outros” Renata Lima
investigadora

Sabemos, claro, fazer uma perfeita distinção entre as situações que são connosco e as que são com os outros, mas uma parte do nosso cérebro reage da mesma forma, sendo isso que parece explicar a razão pela qual conseguimos não só identificar e compreender os desejos e emoções dos outros, como verdadeiramente sentir o que o outros sentem.

O que quer dizer que uma pequena parte de nós tropeçou ao mesmo tempo que Jennifer Lawrence na escadaria do Dolby Theatre, ao vê-la tropeçar. A vergonha dela também foi a nossa.

A empatia que nasce do embaraço

“Apesar de estarmos constantemente a partilhar as emoções dos outros, testemunhamos diariamente tantas emoções contraditórias que, se fossemos demasiado empáticos, não nos sobraria espaço para as nossas próprias emoções”, sublinha Renata Lima.

Segundo a investigadora, os estudos nesta área mostram que há quatro fatores que influenciam a maior ou menor partilha do estado emocional dos outros: a intensidade da emoção exibida pela outra pessoa; a relação que temos com ela; o género, personalidade, idade e experiências prévias, que condicionam o nosso ponto de vista; e o contexto.

A empatia, com todos estes cambiantes, pode explicar uma parte substancial da nossa vergonha alheia, mas não toda. E quando alguém vem da casa de banho com papel higiénico colado ao sapato? Ou quando alguém sorri com um gigante pedaço de alface colado a um dente? Poderíamos afirmar que estamos a antecipar o sentimento de vergonha que a pessoa acabará por ter quando perceber mas, ainda assim, há situações por explicar.

Por exemplo, quando nos sentimos profundamente confrangidos ao ver alguém a gabar-se do dinheiro que tem ou do quão inteligente é – não estamos a empatizar porque a nossa emoção não corresponde à do outro.

Sören Krach, professor e investigador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Lübeck, na Alemanha, é um dos investigadores com mais estudos publicados sobre o embaraço em segunda mão. E, curiosamente, começou a dedicar-se ao estudo do tema há dez anos com base numa experiência pessoal.

“Estava a assistir a uma conferência e o palestrante não parava de se citar a si mesmo e à sua investigação. Comecei a ter um sentimento desagradável, que pode ser rotulado de confrangimento ou embaraço, apesar de o orador não demonstrar esses sinais. Fiquei fascinado pelo tema”, confessa à NM.

Um dos seus pontos de partida era exatamente este: porque é que ficamos envergonhados quando os outros não estão? “Comecei a compreender e a estudar a diferença entre aquilo a que chamo ‘sentir-se embaraçado com alguém’ e o ‘sentir-se embaraçado por alguém’. Neste segundo tipo de situação, em que o constrangimento em segunda mão não corresponde à emoção da pessoa-alvo, assumimos que as pessoas simulam o estado emocional da outra a partir de uma perspetiva autocentrada – ou seja, se fossem elas sentir-se-iam embaraçadas – e assim partilham uma emoção que, na realidade, não está lá, reflete apenas a sua própria avaliação.”

Os estudos de Sören Krach têm comprovado que este confrangimento alheio se faz sentir independentemente de o protagonista agir acidental ou intencionalmente e também independentemente de estar ou não ciente do quão embaraçosa é a situação. Mas a sua pesquisa tem demonstrado também a complexidade do ser humano na sua reação às situações porque, por vezes, acontece o oposto: em vez de se sentirem embaraçados com a vergonha dos outros, os observadores experimentam uma alegria maliciosa.

“Chamamos-lhe ‘schadenfreude’ em alemão: traduz a experiência de prazer e satisfação em observar as dificuldades, embaraços ou humilhações dos outros. Isso não quer dizer necessariamente que somos más pessoas ou temos falta de empatia, mas antes que, por alguma razão, o contexto nos leva a isso”, observa o também coordenador do grupo de investigação de neurociências sociais do Social Neuroscience Lab, na Universidade de Lübeck.

Uma emoção que precisa de audiência

Um dos outros fatores que nos faz reagir mais ou menos intensamente às situações embaraçosas para os outros é a proximidade emocional, como explica a psicóloga Filipa Jardim da Silva.

“Quanto mais próximos somos do outro e mais fortes os laços afetivos, mais intenso o cuidado que temos face aos seus estados emocionais; logo, maior a nossa capacidade de empatizar.” A vergonha alheia, considera, “traduz uma sensação de dano à integridade social dos nossos semelhantes, permitindo-nos eventualmente aliviar momentos embaraçosos e iniciar uma ação de reparação ou apoio”.

Mas também há razões bastante menos altruístas para nos sentimos particularmente envergonhados com as falhas, fracassos ou vergonhas dos que nos são próximos. A vergonha é uma emoção – talvez a única – que requer uma audiência: se tropeçarmos sozinhos em casa, provavelmente não sentimos nenhum constrangimento; mas se o fizermos em público sentimos. Todas as emoções têm uma função e à vergonha tem sido atribuído o propósito de alguma autocensura ou autovigilância que faz com que adequemos o nosso comportamento público às normas sociais, o que aumenta as probabilidades de sermos aceites.

Ou seja: todos temos uma preocupação com a nossa imagem social e com o que os outros pensam sobre nós. Por isso, quando um filho é indelicado com alguém ou um companheiro bebe um copo a mais e dança expansivamente no jantar de Natal da empresa, a nossa verdadeira preocupação não é apenas com o que vão pensar sobre eles. É com o que vão pensar sobre nós.

“As situações embaraçosas de pessoas que nos são próximas são interpretadas como eventuais ameaças à nossa própria imagem social, por associação”
Filipa Jardim da Silva
psicóloga

“As situações embaraçosas de pessoas que nos são próximas são interpretadas como eventuais ameaças à nossa própria imagem social, por associação”, diz Filipa Jardim da Silva. “Nestes casos, a vergonha alheia experienciada tem também uma componente de vergonha própria, alimentada por um autoquestionamento do que estarão os outros a pensar de nós por aquela pessoa, que nos é tão próxima, estar naquela situação confrangedora.”

Em situações como esta “é ativada no nosso cérebro a região do precuneus no lobo parietal, uma estrutura conhecida por estar envolvida em representar os estados mentais dos outros, assim como os pensamentos autorrelacionados. Isso intensifica a emoção de vergonha experienciada. É como se fosse uma vergonha dupla: alheia e própria”.