Vacina contra o cancro: pesquisa feita em ratos curou 97% dos tumores

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografia Shutterstock

O cancro é uma doença que faz tremer qualquer um. A ciência concentra energias na procura de tratamentos mais eficazes, vacinas, a cura. Por todo o mundo, investe-se em pesquisas, investigações, partilha de conhecimentos. E testes. Muitos testes.

Recentemente uma nova pesquisa renovou a esperança de encontrar uma vacina contra o cancro. De acordo com o jornal britânico Daily Mail, uma espécie de vacina testada em ratos de laboratório curou 97% das cobaias que tinham tumores. Sem quimioterapia.

O Daily Mail revela que os investigadores implantaram dois tumores idênticos em locais separados nos corpos dos animais. No local onde a vacina foi injetada, verificou-se uma resposta contra as células tumorais.

Estes testes abrem novas perspetivas. A vacina aplicada nos ratos não revelou efeitos secundários dolorosos e terá a capacidade de eliminar a necessidade de quimioterapia. Em vez de criar uma imunidade duradoura, ativa o sistema imunológico para combater os tumores e atacar certas formas da doença.

Esta «vacina» é composta por dois componentes distintos. A febre poderá ser um dos efeitos secundários.

Essa vacina pode causar febre e dor no local onde é injetada e é composta por dois medicamentos – garante-se que são seguros para os humanos. Os investigadores acreditam que esta vacina poderá ser testada em humanos com linfoma de baixo grau, de crescimento lento, já no final deste ano. Não será uma vacina para todos os tipos de cancro, mas sobretudo para os que atacam os glóbulos brancos e são detetados pelo sistema imunitário.

As pesquisas sobre o cancro são acompanhadas com atenção em todo o mundo. Portugal não é exceção. José Carlos Machado, professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, investigador no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, especialista em pesquisa do cancro, biologia molecular e genética, garante que há uma base para que essa espécie de vacina funcione. A imunoterapia já não é um conceito novo, mas agora é explorada em várias direções.

«O princípio pode funcionar para todos os tumores», adianta josé carlos machado, especialista na área de investigação do cancro.

«O que fizeram foi injetar no tumor dois componentes distintos que fazem arrancar o sistema imunológico», diz o especialista à NM. Tira-se, portanto, partido deste sistema que tem duas componentes que, aliadas, tornam-se mais eficazes para enfrentar o cancro. É como um truque para desbloquear o que realmente interessa neste caso.

Desbloqueadores do sistema

José Carlos Machado não lhe chamaria vacina no sentido tradicional do termo, do conceito de imunização. «São desbloqueadores do sistema imune que reagem às características do tumor», sublinha. E, dessa forma, reconhecendo essas características, tentam destruir as células tumorais. «O princípio pode funcionar para todos os tumores», comenta.

O especialista afirma que estes testes constituem um avanço. A revolução da imunoterapia já começou, agora estudam-se fórmulas para aumentar a sua eficácia. Há, no entanto, a velha questão dos testes feitos em ratos e dos testes com humanos. Não são a mesma coisa. Os ratos de laboratório são muito parecidos, como se fossem gémeos, nos humanos não é bem assim. «É muito difícil generalizar efeitos», observa.

Os testes com humanos serão feitos em 35 doentes com linfoma de baixo grau durante seis semanas.

Ainda não se sabe o tempo que mediará a injeção dessas vacinas. Não há indicações a esse nível. O Daily Mail avança que os testes em humanos serão feitos em 35 doentes com linfoma, que receberão doses de baixa radiação durante seis semanas.

O principal autor do estudo, Ronald Levy, da Universidade de Stanford, Estados Unidos, diz, avança o Daily Mail, que temos um grande problema no cancro e que «nunca ficaremos satisfeitos até que se encontre uma solução.» Os resultados do estudo foram publicados na revista Cell Chemical Biology.

O jornal britânico cita ainda a especialista em cancro Michelle Hermiston, da Universidade da Califórnia. «Não é uma terapia trivial», refere, sugerindo que as pesquisas devem ser orientadas para determinar se os tumores podem ou não ser manipulados para que respondam melhor ao sistema imunitário.«Podemos tornar o tumor mais visível para o sistema imunológico? Estamos na ponta do iceberg neste momento», disse a especialista.