A última morada dos padres

A vida é uma missão que não tem fim e reforma é uma palavra que custa a encaixar no dicionário sacerdotal. Como vivem os padres a última etapa do caminho? Rezam, celebram, leem, veem televisão, ouvem música, fazem ginástica, jogam às cartas, navegam na internet. Pensam na morte e acreditam na vida eterna. Com o crucifixo na parede e o terço no bolso.

Texto de Sara Dias Oliveira

O padre Morais aproveitou bem a manhã. Como é habitual. Foi ao médico de família que lhe relembrou a diabetes e a intolerância ao glúten, deu um salto à biblioteca pública para ler os jornais, deu uma volta pelas ruas de São Victor, a paróquia onde esteve 27 anos, de 1972 a 1999, antes de ser reitor do Santuário do Sameiro, em Braga. «A manhã é para andar», diz com um sorriso que lhe ilumina o corpo magro de estatura média. «Quem não sai de casa não sabe o que vai pelo mundo.»

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A sua casa é agora um lar de padres. Quando os 80 anos estavam à porta decidiu morar na Casa Sacerdotal São Martinho de Dume, em Braga, edifício moderno com ares de hotel no coração da diocese, com vista para a casa do arcebispo D. Jorge Ortiga e para o seminário.

Mentalizou­‑se. «Quando pedi para vir para a casa sacerdotal fi­‑lo com a condição de não ir para o gavetão. Preparei­‑me para viver numa comunidade, ninguém se aguenta se não vem preparado», garante.

Demorou um ano a arrumar as coisas, ocupou as prateleiras com livros, fotografias, colocou vasos na varanda, trouxe um termómetro para seguir o clima, colocou um crucifixo ao cimo da cama. É um quarto luminoso, tão luminoso que teve de colocar uma cortina para o sol não incomodar quando se senta à secretária e liga o computador. A dedicação às plantas vem do tempo em que foi professor de Biologia no seminário, quando insistia que as aulas tinham de ser práticas para observar como a natureza se comporta.

O padre Elias Ferreira da Costa, de 86 anos, natural de Leiria, também não tem medo da morte. «O homem é importante de mais para morrer. Deus não nos criou para morrer, criou­‑nos para viver

Joaquim Morais Costa tem 81 anos, foi ordenado padre em 1961, passou para o Seminário Maior de Braga, esteve 11 anos na equipa de formadores, ensinou Biologia como autodidata, até chegar a São Victor, paróquia muito pobre que nos anos 1970 distribuía três sopas pelos pobres todos os dias.

Quando saiu, deixou 1250 contos e a sensação de que tinha ajudado alguma gente a sair da miséria. Gosta de encontrar e conversar com os seus antigos paroquianos, o que normalmente acontece nas suas caminhadas matinais.

Acorda ainda o sol não se levantou, às cinco e meia da manhã, com dois despertadores, reza o breviário, e às oito menos um quarto toma o pequeno­‑almoço. Pouco depois sai para a rua e volta para o almoço na casa sacerdotal. Todos os dias, celebra uma missa onde for preciso. Dedica tempo a preparar as homílias que podem mudar conforme o ambiente que encontra. E anda às voltas da história de vida do padre Martinho, o fundador do Sameiro. «Ando feito historiador», comenta.

E anda a pensar no testamento, já decidiu que quer ser enterrado com o paramento de viola, que lhe traz boas recordações. A morte não o assusta, acredita na vida depois da morte. «Quando tiver de ir, não me deixa pena», diz o padre natural de São Cosme do Vale, Vila Nova de Famalicão.

O padre Elias Ferreira da Costa, de 86 anos, natural de Leiria, também não tem medo da morte. «O homem é importante de mais para morrer. Deus não nos criou para morrer, criou­‑nos para viver, senão não valia a pena. A morte é um acidente transitório. Quem não tem fé duvida e desespera, quem tem fé confia, ama e segue em frente.»

O padre Elias move­‑se com facilidade na Casa Diocesana do Clero de Leiria­‑Fátima, edifício com quase 30 anos, em funcionamento desde 1989, rodeado de árvores, na Cova de Iria, em Fátima, não muito longe do santuário. Há cinco anos que conhece os cantos à casa. Decorou o quarto com livros e fotografias, distribuiu alguns bens pelos sobrinhos, trouxe a sua cadeira preferida, um rádio e uma televisão que entretanto avariou. Não precisa de luxos, assegura. «Já ninguém espera por mim em lado nenhum.»

Esteve em sete paróquias, correu meio mundo, mantém os dons da oratória de uma vida dedicada à Igreja. As tentações, o pecado, a fé. Horas mais fáceis, momentos mais difíceis. É um homem de convicções firmes consolidadas numa educação cristã. «Há algum homem que não pensa na mulher? Eu não podia comprometer­‑me com mulher nenhuma.» Uma vida de celibato inteiramente dedicada a Deus, sem arrependimentos, crente nas manifestações de um ser omnipresente.

«Não é fácil vir para aqui. Os sacerdotes não são diferentes das outras pessoas, mas para eles a vida é uma missão e não se reformam», diz o Padre António Luís

Hoje é dia de ginástica e o padre Elias lá vai esticar as articulações das pernas e dos braços com alguns colegas da casa, e algumas senhoras irmãs ou funcionárias de padres que também ali moram ou moraram, e com o padre Luciano Guerra, antigo reitor do Santuário de Fátima, frequentador habitual do exercício físico da casa que tem também momentos de expressão plástica, estimulação cognitiva, jogos de cartas, orações a várias horas.

O padre Elias segue as indicações. E o futuro também lhe cabe nos pensamentos. «O futuro é negro, mas Deus lá está, tem os seus direitos e não prescinde deles. Nós é que julgamos que somos donos disto tudo, mas não somos, nem do ar que respiramos.»

A norte, a mais de 180 quilómetros, falta pouco para a eucaristia na Casa Sacerdotal da Diocese do Porto, ali junto ao Palácio de Cristal, e o padre Carlos Cardoso Melo ouve ópera na televisão sintonizada no canal Mezzo. A música é um bálsamo para a alma.

Por detrás do sofá, na parede, um crucifixo que os antigos paroquianos de Mora lhe ofereceram pelos 52 anos de dedicação. No bolso, um terço. «A minha pistola é o terço, é a única arma que tenho, e esta não mata, pelo contrário, salva», diz. E solta uma valente gargalhada.

Carlos Melo, natural de Cinfães, tem 91 anos. O corpo já não se mexe como antigamente, mas, apesar de as pernas terem perdido força, recusa ajuda para levantar ou sentar. A bengala ajuda­‑o a caminhar pelo próprio pé. Há ano e meio, deixou o Alentejo e veio para o Porto. Todos os dias, vai à missa da casa sacerdotal antes do almoço, reza, canta, acompanha as palavras da liturgia em voz alta.

Depois da refeição, por volta da uma da tarde, volta para o quarto que se tornou o seu mundo, com alguns livros nas estantes, fotografias dos tempos de Mora, jornais espalhados pelo sofá, o breviário sempre à mão. Lê as notícias no computador que tem na secretária. «Esta casa é ótima, só me faltam pulgas para me coçar.» E ri­‑se. Reservado por temperamento, bem­‑disposto por natureza.

Um quarto, uma história de vida

O padre Carlos Alberto Pereira, de 90 anos, natural de Miragaia, também aguarda pela hora da missa no lar de padres da Diocese do Porto. Tem um crucifixo no bolso. As estantes do quarto estão cheias de livros, fotografias a preto e branco da mãe Rosa, de quem fala com o coração nas mãos. No sofá, caixas de medicamentos, livros, papelada. As noites costumam ser mal dormidas, a sesta da tarde lá o vai ajudando a retemperar forças.

«Estudo, leio, celebro, convivo e descanso à tarde. São 90 anos, não se pode pedir muito mais, é até quando Deus quiser.» Quando lhe apetece, dá uma voltinha pelo jardim com vista para os apartamentos ocupados por padres que já terminaram o seu trabalho pastoral, mas que ainda estão no ativo e usufruem dos serviços da casa.

Há dias em que sai para as consultas nas clínicas dos olhos, dos dentes, dos ouvidos. De dois em dois meses, junta­‑se a um grupo de cinco casais para refletir à luz da palavra de Deus. Acredita na vida eterna mas admite que é um dos temas mais complexos de explicar. «A eternidade é um problema tremendo, não tem princípio e não tem fim.»

Morrer e continuar noutra vida, um Deus que reúne três pessoas, coisas transcendentes e difíceis de entender. «Mas ninguém vai para o céu de automóvel», avisa. «Há uma caminhada que temos de fazer, há caminhos com picos que, por vezes, rebentam as meias.»

Em 1961, acabou o curso e ficou no Seminário da Sé como prefeito de disciplina. Foi mestre­‑de­‑cerimónias na catedral, assistiu quatro bispos, esteve 20 anos na Sé. Todos os padres da Diocese do Porto passaram­‑lhe pelas mãos. Fala alemão, francês, inglês e italiano. Há três anos, partiu a clavícula e, depois disso, entrou na Casa Sacerdotal, onde moram 11 padres. Apesar de os olhos não lhe darem descanso, tenta acompanhar a atualidade nacional e internacional.

Em Fátima, o padre Ramiro Portela, de 82 anos, natural de Pombal, vê televisão no quarto antes de ir para a eucaristia das 11h45 numa sala que se transformou numa pequena igreja na Casa Diocesana do Clero de Leiria­‑Fátima, onde moram 13 padres. O crucifixo está na mesinha-de-cabeceira entre cremes e pomadas.

Uma vez por semana, preside à celebração da eucaristia ali na casa e na primeira segunda­‑feira de cada mês passa as manhãs numa espécie de retiro no Santuário de Fátima. Depois do almoço, momento de convívio e de boa disposição, joga à sueca na sala de convívio com a televisão ligada, estantes com livros, e o retrato do Papa Francisco na parede. Reza todos os dias.

«A fé é que nos salva.» E pensa na morte. «A gente vem para aqui para morrer, às vezes, até a desejo, desde que esteja bem preparado. É uma vida de felicidade estar com Cristo ressuscitado», confessa. Para trás, uma vida solitária, com crises de fé, com segredos guardados até à morte.

«Crises de fé? Até o Papa as teve. Se houver alguém que não as tem, mente. Há horas sombrias, mas tudo se vence com a palavra de Deus e os segredos que guardamos não pesam nada.» Depois da vida, uma outra vida. «Quem não acreditar na vida eterna não a consegue.» Pensar na morte é como pensar na vida que não mais acaba. «É pensar numa felicidade inaudita», diz.

O pecado, o pecado, o pecado. «Muitas coisas se passaram e continuam a passar. Há fé e há esperança», comenta. Há saudades na sua voz. Foi padre em Porto de Mós de 1961 a 1965 e esteve em Aljubarrota 52 anos. Chamavam­‑lhe arquiteto por ter mandado reconstruir 15 capelas e fazer duas novas.

Há ano e meio entrou no lar. Um problema no joelho complicou­‑lhe a mobilidade, a perna falhou ao sair do carro, caiu, ficou estatelado na garagem. Ainda hoje, de vez em quando, vêm buscá­‑lo para celebrar missa em Pataias e os seus antigos paroquianos visitam­‑no, oferecem­‑lhe bolachinhas e matam saudades.

Num outro quarto, também com vista para o jardim, vive o padre Manuel Marques de 97 anos, natural de Vila Nova de Ourém. Ouve mal, não vê de um olho, está numa cadeira de rodas, mas não recusa dois dedos de conversa. Na cara, as marcas de uma queda na casa de banho.

Magoou­‑se, mas já estava sentado na cama quando vieram socorrê­‑lo. «Ainda vou pedindo proteção a Deus, é o melhor amigo que podemos ter», diz. Está na Casa Diocesana do Clero de Leiria­‑Fátima há mais de 20 anos. «Que remédio, não tenho para onde ir, o Senhor já me levou tudo.» Não tem família. Trouxe alguns livros, santos, uma televisão. «Quando eu morrer fica cá tudo. Só peço que me deixem estar neste cantinho até que Deus me deixe.»

Tem um crucifixo na parede, reza, pensa na vida, pensa na morte, acredita que a morte não é o fim. «A vida eterna é aquilo que Deus quer. Penso na morte? Pois penso, acompanhei tanta gente à sepultura.» E como será essa outra vida? «Não sei, que nunca lá fui ver. Até à morte ainda poderei contar qualquer coisa, depois de lá… é a mão de Deus que manda» É padre até morrer e com toda a convicção. «Nunca tive dúvidas em ser padre, gostei sempre de viver no meio das pessoas.» A vocação permanece intocável. «É o romance da minha vida.»

Orientar vidas tortas

O pároco António Luís é o diretor da Casa Sacerdotal de Braga e prepara­‑se para celebrar a eucaristia das 10h30 na capela semiprivada do lar, moderna, redonda. Todos os dias há missa e o terço reza­‑se pelas cinco e meia da tarde. «Não é nada fácil vir para aqui, sobretudo para quem teve uma vida independente, uma vida de reserva levada ao extremo, para quem se habituou a ouvir e a calar, a não partilhar o que sente», comenta.

Até que se chega ao fim de uma etapa, a última etapa na terra. «Os sacerdotes não são diferentes das outras pessoas, mas têm duas características diferentes: a vida é uma missão e não chegam à reforma», refere. Uma vida dedicada aos outros e é complicado quando os papéis se invertem. É difícil admitir a fragilidade e tenta­‑se iludir as limitações do corpo e da alma.

A Casa Sacerdotal de Braga tem uma generosa biblioteca com cerca de sete mil livros, maioritariamente doados pelos padres. Uma sala de refeições com vista para um pequeno lago artificial com peixes. Está aberta há 13 anos, foi construída pela diocese, sem ajuda estatal.

Tem, neste momento, 31 sacerdotes, um diácono e 14 leigos, quatro dos sacerdotes são angolanos que estão a estudar em Portugal. A média de idades é de 78 anos. Edifício moderno, com muita luz, com quatro pisos, 47 quartos individuais, oito salas de banho assistido, 11 salas de estar, duas salas de jantar, uma biblioteca, e duas capelas.

O padre Domingos Abreu, 88 anos, mora há dois anos nesta casa com a irmã Balbina, de 92. Uma fratura na anca colocou­‑o numa cadeira de rodas, mas dias antes ainda conduzia o seu Renault, celebrava missas, fazia confissões, ajudava os seus colegas padres de Famalicão. Uma vida de trabalho, celebrações, movimentos de jovens, catequese, visitas regulares aos velhinhos. «O padre tem de ser um orientador, orienta vidas que, às vezes, são tortas, dá bons conselhos e ajuda as pessoas.»

Agora reza, lê e dorme. Natural de Joane, Famalicão, tinha 29 anos quando foi ordenado padre. «Fui para padre porque quis, ninguém me obrigou.» Os anos passaram e hoje pensa mais na vida eterna. Na vida depois da morte que ninguém sabe explicar. «Eu já estive perto da vida eterna», revela. Aos 5 anos, teve febre tifoide e o médico garantiu que não escapava. A mãe, devota de Nossa Senhora, colocou­‑lhe uma batata molhada em vinagre na testa e a febre acabou por desaparecer. Um sinal de Deus? O padre acredita que sim.

«Santuário de gratidão»

Várias dioceses do país têm casas sacerdotais que funcionam como lares dos homens da igreja que não têm retaguarda familiar. Alguns não têm condições físicas ou mentais para continuarem nas suas paróquias. Outros, os mais capazes, fazem questão de manter alguma atividade religiosa.

São lares de idosos com cuidados médicos, atividades de lazer, refeições e com espaços para as orações. Os sacerdotes contribuem com as suas reformas, as dioceses asseguram os casos em que as pensões não são suficientes. Há casas que têm vagas sociais que funcionam segundo as regras da Segurança Social. As maiores congregações religiosas também têm respostas a este nível, casas adaptadas para os mais idosos e doentes.

É a última etapa de longos percursos, de anos e anos dedicados à Igreja. «É um lugar para pacificar o coração e fazer a revisão de vida. É um ponto de chegada de muitas vidas que aqui encontram um lugar de repouso interior», refere Nuno Antunes, diretor da Casa Sacerdotal da Diocese do Porto e pároco do Bonfim. No entardecer da vida, procura­‑se conforto, tranquilidade, sossego. «É um espaço muito familiar, muito acolhedor, para que se sintam pacificados.» «É um santuário de gratidão», acrescenta, decalcando a descrição feita por D. António Francisco, bispo do Porto já falecido.

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