OPINIÃO

Contra todas as probabilidades

Petrucciani não foi tão longe. Viveu menos, perdeu-se entre mulheres, drogas e uma ânsia de viver tudo, depressa, indiferente à limitação de ter de ser carregado ao colo no dia-a-dia. Se um foi um gigante de 99 cm, o outro ajudou a mostrar a ciência ao mundo. Ambos partilham o maior feito, contrariaram todas a probabilidades.

O diagnóstico chegou à nascença – Michel sofria de osteogénese imperfeita, doença que não só o impediria de crescer normalmente como o condenava a uma vida com ossos tragicamente frágeis. Conhecida como a doença dos ossos de vidro, para Michel uma vida normal nunca foi mais que um sonho.

A escola seria feita em casa com recursos a professores particulares, assim como a partir dos 4 anos as lições de piano. Num ataque de fúria destruiu o primeiro, de brincar, que o pai lhe oferecera, e só mais tarde, segundo a lenda depois de ter ouvido Duke Ellington, começou as aulas.

O piano também não era normal – o pai, guitarrista de jazz, adaptara os pedais para que Michel os conseguisse controlar. Petrucciani morreria aos 36 anos, sem nunca atingir o metro de altura. Todos os ingredientes para uma vida limitada pelo infortúnio?

O mais novo de três irmãos, um baixista e outro guitarrista, aos 13 anos dava o seu primeiro concerto e dois anos depois, em perseguição de uma carreira na música, contrariava o pai para rumar a Paris. Em 1984, com 22 anos, mudou-se para Nova Iorque e à entrada da década de 1990 já atuava mais de cem vezes por ano.

Citado pelo Globo na semana da sua morte, Stephen Hawking reconhecia como missão de vida “a completa compreensão do Universo”, algo que garantia não ser tão complexo como nós, comuns mortais, imaginávamos. A ele, não era tema que o assustasse, nem mesmo depois de aos 21 anos lhe terem reduzido, com um diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica e uma previsão de vida de apenas cinco anos, as “expectativas de vida a zero”.

Viveu mais 55 anos, começou físico, especializou-se no estudo de buracos negros, acabou como a estrela pop da ciência, tão estrela que viu a sua história contada em produções cinematográficas de Hollywood.

Petrucciani não foi tão longe. Viveu menos, perdeu-se entre mulheres, drogas e uma ânsia de viver tudo, depressa, indiferente à limitação de ter de ser carregado ao colo no dia-a-dia. Se um foi um gigante de 99 cm, o outro ajudou a mostrar a ciência ao mundo. Ambos partilham o maior feito, contrariaram todas a probabilidades.

O DISCO

Michel Petrucciani
The Blue Note Albums
55,90 euros
Blue Note

A MINHA ESCOLHA

A AMBIÇÃO NÃO LHE FICA NADA MAL
Jonathan Wilson, ilustre ausente dos tops de vendas, ausência recorrente do topo dos cartazes de festivais de verão, compositor a quem, até agora, assentaria como uma luva o rótulo: saudosista hippie. Agora, a provar que os clichés podem ser contrariardos, Wilson, com Rare Birds, o objetivo é claro – quer mais, melhor e maior, aparecer nos rankings para os melhores discos do ano já não chega.

Sem singles evidentes, ao quarto disco, Wilson oscila entre as suas costelas mais roqueiras (Trafalgar Square é um dos pontos altos do disco), as sonoridades mais pop (Theres a Light) e as baladas (Sunstet Blv) a que sempre dominou regras e segredos. E é na varidade de registos que Rare Bird se torna numa prova evidente da ambição do cantautor.

Goste-se ou não dos registos a que agora se lança – sobretudo à sonoridade pop dos anos oitenta que a tanta boa gente tem custado a credibilidade –, reconheça-se mais ou menos acerto no produto final, inegável é que Wilson mostra vontade de chegar mais longe – e se não for nas tabelas, será seguramente na amplitude musical. Até ver, e mesmo que o jogo esteja apenas a começar, já se pode arriscar que Rare Birds chega para cumprir uma das tradições do músico norte-americano – estará entre os melhores discos do ano.

O DISCO

Jonathan Wilson
Rare Birds
Pias Ibero América
14,99 euros