Tiago Cadete: «Há uma ideia de medo muito maior no Brasil do que em Portugal»

O coreógrafo português Tiago Cadete reuniu vários testemunhos de portugueses que vivem no Brasil e decidiu criar uma «biografia ficcionada» com estas entrevistas. De 17 a 19 de maio, no Pólo Cultural Gaivotas, em Lisboa, pode assistir ao espetáculo. Hoje, a entrevista com o artista

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Filipe Amorim/Global Imagens

«Como chegaram ao Brasil? Que memórias têm de Portugal? Pensam em regressar? Qual a música que mais o recorda do seu país?». Estas são apenas algumas perguntas que Tiago Cadete, coreógrafo e artista visual, fez a um grupo de portugueses residentes no Brasil.

A ouvir as entrevistas em discurso direto e com uma interrupção musical constante – que o lembra de ser português – Entrevistas é, como o próprio gosta de chamar, uma «biografia ficcionada» de Tiago Cadete, que vai estar em cena a 17, 18 e 19 de maio na Rua das Gaivotas, em Lisboa.

«Dentro deste “open call de afetos, como costumo dizer, é importante referir que fui descobrindo estas pessoas. Não houve anúncios nem publicidade para virem falar comigo»

No ensaio, a que a Notícias Magazine assistiu, Tiago não escondeu o entusiasmo por regressar a Portugal, na celebração dos seus 10 anos de carreira, a apresentar mais um espetáculo que espera levar também para o Brasil.

Os ovos, elemento central da encenação, são uma analogia a uma história de Colombo. Em entrevista, o artista explica a importância dos mesmos neste trabalho e como foi ouvir estes testemunhos – que se orgulha de ter encontrado através de uma rede de conversas, «sem publicidade».

Porquê esta representação com os ovos?
Os ovos têm uma simbologia na história de arte muito forte, relacionada com o nascimento, a origem, a criação. Mas a história que me levou a trazer o ovo para a peça foi a de Colombo. Depois de Colombo ter «descoberto» as Américas – tudo isto com muitas aspas –, num jantar propõe às pessoas que estão sentadas à mesa que coloquem um ovo em equilíbrio – que é uma tentativa que eu faço aqui. Quando todos começam a tentar, ninguém consegue. Até que ele faz um truque – que não posso dizer qual é – e coloca o ovo em pé. Todos dizem: «com esse truque é fácil. Se soubesse teria feito assim». E ele responde: «as Américas estavam ali também, se vocês soubessem o caminho para lá também seria fácil». E aqui, ele mostra que por vezes aquilo que é mais óbvio já teve de ser feito por alguém. E depois de nós sabermos como se faz, torna-se mais simples.

O que quer contar nesta história?
O texto é uma pista sonora. Fiz entrevistas a portugueses que estão no Brasil e tentei, através da edição, criar a minha biografia. Uma biografia ficcionada.

Como chegou a estas pessoas?
Dentro deste «open call de afetos», como costumo dizer, é importante referir que fui descobrindo estas pessoas. Não houve anúncios nem publicidade para virem falar comigo. Algumas pessoas já conhecia e outras surgiram nesta rede.

E como surgiu esta ideia?
Estou no meu primeiro ano de doutorado e este é um dos primeiros trabalhos que vou fazer. Queria perceber como é ouvir pessoas que estão a viver mais ou menos aquilo que eu estou a ver. E em vez de contar a minha história, que me parecia pouco interessante para o coletivo, decidi arranjar pensamentos semelhantes que são partilhados com esse grupo de pessoas.

Conheceu coisas novas em si através deste trabalho?
Muitas. E agora está a acontecer outro problema: como estou a ouvir (isto não é um texto decorado, é quase como um ponto) começo a achar que as coisas que eles estão a dizer já me pertencem. Estou a tomar as palavras deles como minhas. Também porque o texto não tem limpeza nenhuma. Há várias hesitações e percebe-se que há verdade aqui.

«Quando estou no Brasil – e sabendo que os meus pais estão no Algarve – penso muito que não há um comboio ou um autocarro que me coloque rapidamente junto deles»

 

E a música interrompe os discursos.
Havia uma pergunta que eu repetia sempre nas entrevistas, que estava relacionada com a música portuguesa que mais depressa reconhecia. E a playlist foi criada assim. Não me interessava colocar as músicas originais e acabei por invertê-las. E há qualquer coisa nestas melodias inversas que, mesmo assim, nos transportam para uma certa «portugalidade». Dramaturgicamente interrompe o discurso e cria uma tensão entre o eu – que quer dizer coisas – e aquele som.

Escolheu pessoas entre os 30 e os 85 anos para estas entrevistas. Queria alguma maturidade nas histórias?
Para mim, a pessoa mais velha já era um desafio. Tinha vontade de entrevistar pessoas não muito próximas. E não queria revelar as identidades porque não queria que o público soubesse se são mulheres, homens, mais novos ou mais velhos. O meu foco foi sempre descobrir histórias que ainda não tinha: queria gente a falar de violência ou de morte, por exemplo.

Alguma história que queira destacar?
A da morte. Para mim foi a mais importante. Quando estou no Brasil – e sabendo que os meus pais estão no Algarve – também penso muito que não há um comboio ou um autocarro que me coloque rapidamente junto deles. Vir de um dia para outro são mais de 800 euros – que é disso que ela fala durante a conversa. Não é fácil. Tocou-me por ser uma questão relacionada com a morte e com a distância.

Já pensou em ouvir cá testemunhos de imigrantes brasileiros e levar o espetáculo para o Brasil?
O meu lugar é este. Sou imigrante português no Brasil. De alguma forma tenho algum conhecimento para falar deste assunto.

«Quando chego aqui [PORTUGAL] sinto um silêncio que às vezes me assusta, mas fico muito mais tranquilo»

Vai apresentar o Entrevistas no Brasil?
Sim, vai acontecer no Brasil também. E vai ter outra leitura: os brasileiros podem perceber como se vê o Brasil do ponto de vista de emigrantes. Os trabalhos têm muitas amplitudes, conforme os pontos de vista de cada um, e este é um exemplo disso mesmo.

Durante o Entrevistas aborda vários temas como o ensino, a saúde ou a violência. Qual acha que ainda existe a maior diferença entre os dois países?
Uma das diferenças fundamentais é o número de pessoas. Faz diferença para tudo. E, claro, as questões culturais. Aquilo que nós tomamos aqui como conforto lá é completamente diferente. E vice-versa. Para os brasileiros é um privilégio em Portugal podermos estar na rua sem olharmos para trás com medo de sermos assaltados. Há uma ideia de medo muito maior no Brasil.

Do que sente mais falta quando está no Brasil?
Quando chego aqui sinto um silêncio que às vezes me assusta, mas fico muito mais tranquilo.

Está a celebrar 10 anos de carreira. Este ano haverá mais algum espetáculo seu?
Eu tenho um espetáculo para a infância, coproduzido pela Culturgest, que se chama Pangeia. Neste momento os intérpretes estão no Chile e no Uruguai em digressão. Em agosto vai para o México e, ainda não está fechado, mas deverá haver uma reposição na Culturgest, em março do próximo ano. Poderá ainda haver uma versão com atores brasileiros para ser exibido lá [no Brasil].

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