Paulo Oom: «Não adianta proibir a tecnologia se a alternativa é ficar a tarde toda no sofá»

A tecnologia utilizada em excesso pelas crianças e a importância do exemplo dos pais no processo de adaptação dos mais novos será um dos tema em debate já este sábado, 5 de maio, no Grande Auditório do ISCTE, em Lisboa. O pediatra Paulo Oom, um dos convidados da iniciativa, falou com a Notícias Magazine sobre o tema.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografias Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

As crianças estão cada vez mais ligadas à tecnologia e, por vezes, os pais não são o melhor exemplo. Paulo Oom, pediatra e autor de vários livros sobre infância, falou com a Notícias Magazine sobre a idade ideal para o primeiro contacto com os écrãs e a importância dos pais neste processo.

O especialista, que será um dos convidados da conferência Retratos de Família, da Notícias Magazine, que se realiza já este sábado no ISCTE, em Lisboa (ver informação em baixo), explicou que têm de ser os responsáveis pela educação das crianças a ser os modelos a seguir. Estão os pais preparados para isso?

Qual a melhor forma dos pais prepararem os seus filhos para as tecnologias?
Em primeiro lugar é darem o exemplo. As crianças usam muita tecnologia porque os pais também utilizam. Depois, em crianças até aos cinco/seis anos, é importante que os pais controlem minimamente. Em relação aos mais velhos, adolescentes, é essencial criar atividades alternativas.

Como por exemplo.
Alternativas que possam estar ligadas ao ar livre, à cultura. Não basta dizer que só podem jogar duas ou três horas de consola, se depois a criança fica no sofá. Têm que se divertir.

Qual a idade ideal para as crianças terem acesso a écrãs?
O ideal é que até aos dois anos a criança não tenha qualquer contacto com ecrãs. A partir dessa idade, o mais sensato é que esteja, no máximo, uma hora por dia. Mas esta hora é importante que seja partilhada com os pais, para que estes consigam direcioná-los para o que é importante e até fazer a ponte para a vida real. A partir dos seis anos, já se pode liberalizar um pouco, apesar de nada ser mais estimulante como o contacto com os pais.

Até onde vai o limite de privacidade destas crianças?
No caso dos adolescentes é diferente, porque já têm telemóveis. Mas nas crianças mais novas, aquilo que é recomendado é que os computadores, por exemplo, estejam em locais públicos da casa, para que a qualquer momento um adulto possa ver o que estão a fazer.

Mas os adolescentes gostam de se fechar nos quartos e ter a sua privacidade.
Sim, aí, como é óbvio, não se pode proibir. A função dos pais será sempre criar alternativas em que a tecnologia não entre. É muito difícil controlar o que os adolescentes veem, mas os pais têm que perceber que vão ser o exemplo que eles vão seguir. O problema é que os pais controlam tudo quando a criança é pequena e depois vão perdendo esse controlo à medida que vão crescendo. No entanto, eles continuam sempre a ser uma grande influência.

Devem impor algumas regras?
São difíceis mas devem ser impostas em alguns momentos. Não utilizar o telemóvel durante as refeições ou quando o jovem se está a preparar para ir dormir são algumas que devem aplicar. Mas, mais uma vez, o melhor será sempre dar o exemplo.

É errado os pais darem mais tempo às crianças no tablet/telemóvel em troca da realização de algumas tarefas?
Nada disso é errado, desde que não seja a única forma de os compensar. Deve haver outras compensações em relação à realização de tarefas, além de lhes darem mais tempo com tecnologia.

Como pediatra, sente que é mais difícil passar estas ideias de «bom comportamento» tecnológico aos pais ou aos filhos?
A ambos. Mas isso sempre foi assim no que diz respeito a crianças. Na alimentação, por exemplo, ou na importância do desporto, também é assim. Todas as regras que achamos que devem ser feitas têm de ser adotadas em família. Não conseguimos ter uma criança magra se os dois pais forem obesos.

Conferência Retratos de Família, da Notícias Magazine:

No próximo dia 5 de maio, no Grande Auditório do ISCTE, em Lisboa, vamos falar destas e outras questões com os nossos convidados na conferência Retratos de Família, da Notícias Magazine: «Há tecnologia a mais na vida dos nossos filhos?»

Teremos debates, apresentações, palestras, dúvidas e muita reflexão com o jornalista brasileiro Marcos Piangers, o pediatra Paulo Oom, a jornalista e socióloga Ana Cardoso e o youtuber Nuno Agonia.

A entrada é gratuita. Pode inscrever-se e consultar o programa da conferência AQUI.

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