OPINIÃO

Sulcos de vida

Não vale a pena suspirar a cada ano que passa, com um discurso nostálgico sobre o tempo que corre. Nem lamentar os cabelos brancos e as rugas que vão surgindo quando nos olhamos ao espelho. Quanto mais velhinha for uma árvore, mais largo é o seu tronco e as histórias que ele conta. Assim são as marcas do tempo em nós.

É difícil ficar indiferente perante uma oliveira secular que arde. Muito depois da passagem das chamas, por vezes até com a copa quase intacta, o tronco ferido vai sendo destruído por dentro. Lentamente, num silêncio que angustia e contrasta em absoluto com o ruído ensurdecedor das chamas no momento em que varrem com violência um pinhal ou um eucaliptal.

A natureza dá-nos lições tremendas. Não apenas porque a capacidade de regeneração nos surpreende, mas sobretudo porque cada espécie tem o seu ritmo e uma forma particular de renascer. Ou de sentir e resistir. Há árvores que demoram décadas a crescer. Outras que se multiplicam como pragas. As que crescem sem ninguém olhar por elas nos ambientes mais inóspitos. As que precisam de abrigo e mil e um cuidados.

A proximidade à terra faz-nos sentir com uma evidência incontornável que tudo é feito de ciclos. Não existem linhas contínuas, mas curvas e contracurvas. E muitas vezes é precisamente após as tragédias, depois de grandes inundações ou de destrutivos incêndios, que a renovação reconfigura e fortalece. Tal como na vida há fases de sofrimento que nos marcam, mas é precisamente nelas que precisamos de ganhar fôlego para o que se segue.

Chegamos a dezembro e os jornais desdobram-se em balanços e escolhas de acontecimentos marcantes. No ano que hoje termina, o fogo e a morte definiram-nos coletivamente. Milhares de pessoas sentiram uma dor tão intensa que marcou literalmente cada centímetro de pele e cada recanto da alma. O ano que agora começa irá demonstrar o que aprendemos. Ou não. Da mesma forma que da tragédia emergiram movimentos cívicos e uma associação a bater-se por indemnizações e por responsabilidades, cada um de nós deverá contribuir para que se abra um novo ciclo. Exigindo a cada momento que as promessas se cumpram. E sendo, individualmente, parte responsável de propostas e soluções.

Nas áreas ardidas veem-se inúmeros rebentos porque a vida é mesmo assim: imperativa. Mas tal como algumas espécies precisam de ajuda para recuperar, ninguém se reconstrói e cicatriza sozinho. E como as oliveiras morrem devagar, silenciosamente, o sofrimento mais destrutivo é quase sempre invisível e interior. Um desafio a uma maior coesão social, num país envelhecido e profundamente desequilibrado, em que temos de cuidar mais uns dos outros.

A passagem de ano em si não é nada. Uma mera data no calendário. Mas todos os pretextos são bons para avaliarmos onde estamos e para onde queremos ir. É verdade que há muita coisa que não controlamos, mas a nossa parte da equação é decidir o que fazemos com o que nos surge pela frente. É exatamente por isso que as badaladas da meia-noite podem ser importantes. Muito para lá do ruído, se quisermos olhar com olhos de ver, o avanço do calendário mostra-nos o que foi. E convida-nos a escolher o que vai ser.

Não vale a pena suspirar a cada ano que passa, com um discurso nostálgico sobre o tempo que corre. Nem lamentar os cabelos brancos e as rugas que vão surgindo quando nos olhamos ao espelho. Quanto mais velhinha for uma árvore, mais largo é o seu tronco e as histórias que ele conta. Assim são as marcas do tempo em nós. Rugas são sulcos de vida. Sulcos que a vida faz para dar profundidade à alma.