Sofia Borges: a melodia dos refugiados

Maria Leonardo Cabrita

Texto de Ana Tulha

No final de mais uma aula de música, Sofia, lisboeta de 38 anos a fazer carreira na Alemanha, recebeu um convite de um aluno. “O meu irmão já nasceu. Queres ir vê-lo?” Sofia foi. Derretida com o rebento, deu por ela a fazer um daqueles comentários rotineiros, inocentes até à última letra. “Agora já tens uma irmãzinha.”

Num ápice, o rosto da criança fechou-se. A mãe desatou num pranto. Sofia ficou meia perdida. “Eu tenho mais irmãos, mas não estão cá. Estão em África”, apressou-se a explicar o miúdo. Sofia só não foi completamente apanhada de surpresa porque está habituada a lidar com crianças que trazem cravados na pele traumas de toda a espécie. É assim desde que, em agosto do ano passado, se juntou ao projeto MitMachMusik e se dedica a ensinar música a crianças refugiadas, nos centros de acolhimento de Berlim.

“Eles contam-nos com toda a naturalidade que já moraram na Somália, no Egito, em vários países africanos. Muitas destas famílias já são refugiadas pela terceira vez. Há palestinianos que fugiram para a Síria e depois tiveram de fugir outra vez. Para nós é chocante, para eles é uma realidade quase natural”, conta Sofia Borges, um ADN que grita música até à exaustão. Razões de sobra para que o trabalho de Sofia – e, de resto, todo o projeto MitMachMusik – assuma importância redobrada.

“Quando eclodiu a crise dos refugiados, em 2015, houve um grupo de amigos que decidiu fazer alguma coisa. Num país como a Alemanha, que tem uma tradição muito grande de música orquestral, a ideia foi ensinar-lhes um instrumento de orquestra, para que depois possam tocar com as crianças de cá. Ainda por cima, toda a gente sabe o quão bem faz tocar em conjunto”, frisa, orgulhosa.

Dá quatro aulas por semana, remuneradas. Depois há o resto. Os ensaios, os concertos, os campos de férias. Tudo atividades voluntárias, que cobrem qualquer salário. “Fazem-me desenhos, dão-me cartas, às vezes entro na sala e fizeram um desenho no quadro para mim. Dão-me a mão, abraços. Perguntam se somos amigos. E o sorriso dos pais. Às vezes nem falam alemão, mas dizem “danke” três, quatro, cinco vezes. São gestos muito simples que dizem muito.”

Para lá do MitMachMusik, Sofia, amante da música desde sempre (“já na primária, dizia à professora que aquilo era muito chato e perguntava se podia cantar”), trabalha como freelancer e até tem em mãos um projeto para a icónica escola Bauhaus. Tudo enquanto ajuda quem perdeu o tom a redescobrir a melodia da vida.