Será que estamos fartos de estar online?

Hotéis em que os aparelhos tecnológicos ficam fechados a sete chaves, almoços e jantares em que os telemóveis não entram, músicos que proíbem os telefones nos concertos. A vontade de desintoxicar de um mundo em comunicação incessante ganha força. A vingança do offline pode estar a chegar.
Offline Portugal, guest house em Aljezur onde a parafernália eletrónica fica no cacifo à entrada

Texto de Ana Tulha

Se há retrato que Rita Gomes retém dos anos em que viveu em Londres é o das ruas atulhadas de gente que, de tão mergulhada nos telemóveis, mal ergue os olhos para ver o caminho que tem à frente. A imagem, que está longe de se cingir à realidade londrina, moldou-lhe o regresso às origens: em 2015, de novo em Portugal, abriu uma guest house em que a lei é clara – telemóveis e tablets ficam à porta. Ou como o detox digital vai ganhando força numa sociedade incessantemente online.

“Em Londres já se faziam coisas deste género. Há empresas que alugam casas e promovem retiros em que, durante uma semana, não há aparelhos de telecomunicações. Mas a ideia de abrirmos este espaço surgiu muito por uma experiência própria, pelo sentimento de que as pessoas estão bastante agarradas aos seus ecrãs, à sua realidade virtual”, justifica.

Por isso, juntamente com Bárbara Miranda, abriu, em Aljezur, a Offline Portugal. O conceito é simples: “É um formato absolutamente normal de guest house. A única diferença é que à entrada há um cacifo para as pessoas deixarem os smartphones, tablets e computadores. As pessoas ficam com a chave, por uma questão de segurança e tranquilidade. Caso haja uma situação de emergência, têm a liberdade de ir abrir o cacifo.”

Ganham as relações sociais, que podem fluir naturalmente, sem “elementos perturbadores”. E não apenas nos dias em que estão na casa. “Muitas pessoas, quando saem daqui, adotam estratégias para recuperarem o controlo. Desligam as notificações, passam a definir uma hora por dia para as redes sociais ou estabelecem que a partir de certa hora não voltam a ver os emails do trabalho”, garante Rita.

Elísio Estanque, sociólogo com trabalho feito ao nível do impacto dos meios digitais na sociedade, ajuda a ler esta tendência. “É uma resposta à saturação, a um hábito que cria vício. Neste momento, o uso das tecnologias normalizou-se de tal forma que há até uma alienação. São precisas chamadas de atenção que abanem consciências.”

Afinal, não é à toa que já se fala em nomofobia. Não sabe o que é? Se calhar sabe melhor do que julga. Aquele momento em que se apercebe que saiu de casa sem o telemóvel e dá por si ansioso por estar incontactável? Eis a manifestação de uma fobia que, garantem os cientistas, afeta nove em cada dez pessoas.

Não admira que o detox digital esteja a ganhar adeptos. Rita Gomes sentiu isso quando avançou para uma outra forma de se estar desligado: os jantares que organiza em Lisboa. O primeiro aconteceu a 1 de junho e o segundo está agendado para 12 deste mês. Com uma premissa comum e irredutível: todos entregam o telemóvel à chegada.

“Quando não se tem assunto, muitas vezes a tendência é pegar no telemóvel. É um porto seguro. Não tendo essa distração, tendemos naturalmente a fazer o ‘engagement’ com quem está à volta. No fim, toda a gente comentou que conheceu muito mais gente”, relata.

Um cenário idêntico acontece todas as semanas no Porto, ainda que, no caso dos encontros Almoço Mistério, promovidos por Carmen Santos Lima, a entrega dos telefones não seja obrigatória. “As pessoas podem levar os telemóveis, não podem é fotografar quem está presente [daí o mistério]. De qualquer forma, no início do almoço passamos um cestinho de pão para quem quiser pôr o telefone e, salvo situações excecionais, toda a gente tem optado por o fazer”, garante.

No fim, assegura, ninguém lamenta. “No início, muitos dizem, ‘Oh my god, como é que vou estar duas horas sem telemóvel?’ Mas depois saem de lá a dizer que vão implementar esse sistema nos encontros com a família e os amigos”, explica, orgulhosa.

O assunto voltou a ganhar força nas últimas semanas com a proibição do uso do telemóvel nas escolas francesas. A medida, aprovada pelo Parlamento local, abrange estabelecimentos do ensino básico e secundário, entrando em vigor no próximo ano letivo e visa combater tanto as distrações na sala de aula como o bullying. Mas as restrições em estabelecimentos de ensino estão longe de ser novidade.

Que o diga Isabel Soares, diretora do Colégio Moderno, em Lisboa, onde os telemóveis não entram “há seguramente dez anos”. “Os alunos não o podem usar em nenhum espaço da escola. Nem nos pátios, nem nos corredores. A maior parte até o traz, para quando sai, mas anda com ele desligado. É uma medida perfeitamente aceite, que já está interiorizada por todos”, vinca a autora da decisão, que se aplica a todos os frequentadores do estabelecimento – do infantário ao 12.º ano.

É também uma medida que a enche de orgulho: “Às vezes vou às outras escolas e, nos intervalos, olho para os miúdos e está cada um com o seu telemóvel. Aqui, uma das coisas que mais me dá prazer é passar nos pátios e ver que estão todos a brincar uns com os outros.”

Elísio Estanque, habituado a estudar, em particular, os movimentos sociais e as culturas juvenis, salienta que a dependência das tecnologias “incide sobre os vários setores da sociedade”, mas que os jovens estão “particularmente expostos”. “Isso tem, evidentemente, repercussões nos comportamentos. É uma situação visível em todos os espaços públicos por onde passamos. Os jovens estão juntos e estão a comunicar através dos dedos”, salienta.

Até porque o uso dos telemóveis se generalizou. Segundo dados da Marktest, mais de 90% das crianças e adolescentes em Portugal têm um telemóvel e 78% dos jovens entre os 16 e os 17 anos usa Internet no dispositivo móvel.

Tudo razões que levam a diretora do Colégio Moderno a manter-se fiel à política de não deixar usar os telemóveis na escola. “Atualmente, utilizamos as tecnologias em tudo. Se for a um concerto na Gulbenkian, acaba-se de ouvir o anúncio para se desligar o telemóvel e ele já está a tocar. É uma dependência enorme.”

Isabel toca num ponto relevante. É que também na música parece haver uma tendência, se bem que ainda pouco consensual, avessa ao uso do telemóvel. Ao ponto de se contarem cada vez mais artistas a querer banir os telefones dos concertos. É o caso dos Guns’n’Roses, de Alicia Keys, Jack White ou dos Lumineers. Queixam-se da obsessão pelo registo do momento e do alheamento do público. Ao invés, advogam a necessidade da fruição daquele instante – no fundo, os mesmos princípios que norteiam a guest house de Rita Gomes, os almoços mistérios de Cármen e a política do Colégio Moderno. Andaremos fartos de estar online?