OPINIÃO

Sei quem ela é

No final, da colaboração entre o júri e o público, chegar-se-á à melhor escolha. E se for a escolha certa, daqui a 50 anos será cantada e lembrada por muitos, porque, à parte de todo o aparato festivaleiro, era, sobretudo e acima de tudo, apenas e só uma grande canção cantada por um grande intérprete.

Jurar não é coisa para se fazer em vão. Ou bem que se acredita no que se jura, ou bem que não se jura.

E jura-se imparcialidade, lisura e objectividade no julgamento. É difícil, quando se trata de uma questão subjectiva: avaliar música. Tem de se encontrar um conjunto de critérios que nos ajudem na tarefa.

Sobretudo, temos de ser impermeáveis a factores externos. Julgamos colegas de profissão, pessoas que tanto admiramos, com quem já trabalhámos, com quem queremos vir a trabalhar. Mas nada disso importa naquele momento.

Não pode existir nenhuma outra vontade para lá da vontade de ser justo e imparcial.
Umas canções são derrotadas pelo intérprete, uns intérpretes são derrotados pela canção e, por vezes, a perfeição junta-se nos dois lados e criam-se momentos preciosos.

Quando nos esquecemos que estamos a julgar e sentimo-nos no concerto do intérprete que canta sabemos que temos à nossa frente algo especial.

Quando, mesmo não conhecendo a pessoa que nos canta, pressentimos quem é, pela forma como diz as palavras, de forma sincera, como se move, sem gestos estudados, deixando passar alguma vulnerabilidade e muita força, ao mesmo tempo, sabemos que sim.

Quando a melodia se nos cola, quando as palavras são certeiras, quando a canção mostra que nela habitam o sangue, suor e vida de quem a escreveu, sabemos que será uma canção que irá ficar connosco muito para lá de qualquer festival.

É de canções que se fala e só delas interessa a história. Se fosse para julgar o talento de pessoas que fizeram e fazem coisas importantes na música portuguesa, não teria aceitado. Aqui, no meu coração e cabeça, julga-se uma canção, criada para aquele festival e que
possa ter essa ligação preciosa entre o autor, o intérprete e quem os ouve.

No final, da colaboração entre o júri e o público, chegar-se-á à melhor escolha. E se for a escolha certa, daqui a 50 anos será cantada e lembrada por muitos, porque, à parte de todo o aparato festivaleiro, era, sobretudo e acima de tudo, apenas e só uma grande canção cantada por um grande intérprete.