Rui Vilar: senador e sedutor

Foto: Tony Dias/Global Imagens

Texto de Alexandra Tavares-Teles

“Discreto, muito cuidado no trato, com natural autoridade na área da cultura e conhecimentos em todas as disciplinas culturais”, começa por traçar Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, e primeiro proponente de Rui Vilar para a presidência do Conselho de Fundadores de Serralves, órgão consultivo da Fundação. “Um senador da cultura, dos poucos que restam”, diz ainda o autarca, e “alguém merecedor” do voto unânime dos pares, na eleição que decorreu a 5 de dezembro.

Jurista licenciado pela Universidade de Coimbra, membro do Conselho Superior da Universidade Católica Portuguesa, com experiência política obtida nos primeiros anos da revolução – ministro da Economia dos II e III Governos Provisórios (1974-1975) e ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional (1976-1978) -, gestor público tarimbado em passagens pela vice-governação do Banco de Portugal (1975-1984) e pela presidência da Caixa Geral de Depósitos, o nome está ligado à cultura há muito.

O reconhecimento maior chegou nos dez anos (2002-2012) em que foi presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, cargo em que seria substituído pelo banqueiro Artur Santos Silva, de quem é grande amigo. De resto, Rui Vilar – casado com Isabel Alçada, professora, escritora e ex-ministra da Educação – permanece administrador não executivo daquela fundação. “Pessoa nada arrogante, adepto da simplicidade, capaz de ouvir, mas também de um sorriso irónico perante a ignorância arrogante de alguns”, ainda as palavras de Rui Moreira.

“Pessoa nada arrogante, adepto da simplicidade, capaz de ouvir, mas também de um sorriso irónico perante a ignorância arrogante de alguns” (Rui Moreira sobre Rui Vilar)

Muito bom aluno desde o tempo do liceu Alexandre Herculano, tentou o ingresso na magistratura do Ministério Público, logo após a licenciatura. Afastado do concurso por interferência da PIDE, o destino seria outro e muito duro: Angola e a Guerra Colonial.

“Da esquerda moderada, republicano e cristão, teve um papel moderador nos anos quentes que se seguiram à revolução”, lembra quem viveu esses dias. Sempre com o “sentido da prudência e do equilíbrio”, construiu uma rede de influências “consistente e invejável”. Trata-se, dizem, de “alguém muito culto, muito inteligente”. De “um sedutor e, portanto, de alguém que, se quiser, sabe manipular”, traços que casam bem com uma das suas primeiras paixões, o teatro, consumada nos tempos de Coimbra.