OPINIÃO

O homem e as frases

Ao Luís XVI bastou vir de uma esteira de Luíses e Johann Sebastian Bach herdou 53 familiares músicos em quatro gerações... Ao Luís XVI correu-lhe mal; ao Bach, bem. Não dando a origem familiar plena garantia de sucesso, Roman Kacew, mais tarde Romain Gary, escolheu outra carta de apresentação: uma vida agitada.

Nasceu em Vilnius, então russa (1914), agora capital lituana. A mãe, que era judia, com a errância que isso pressupõe, partiu com o adolescente para França, na década de 1920. Ao longo da vida, Roman Kacew sugeriu que o seu progenitor era Ivan Mosjoukine, o maior ator de cinema russo antes do comunismo.

Fez-se francês e com nome mais fácil, Romain Gary. Com a invasão da nova pátria pelos nazis, ofereceu-se, em Londres, ao general De Gaulle para participar numa esquadrilha de aviação. Eram 200 jovens no início e cinco aviadores sobreviventes no fim da guerra. Ao regressar a Paris, Gary posava com o casaco de aviador da RAF e medalhado, Cruz de Guerra, Legião de Honra, Companheiro da Libertação… A mãe tinha-o incitado à glória desde a infância e em cartas, era ele combatente. Mas quando a foi visitar já ela tinha morrido há três anos: deixara uma resma de cartas para uma vizinha ir enviando. É o que Romain Gary escreve na autobiografia, Promessa ao Amanhecer, levada a filme no ano passado.

Logo em 1944, Sartre e Simone Beauvoir, que haviam vivido a guerra muito quietinhos, foram visitar o herói. Romain Gary passou o encontro a falar de si, o seu assunto preferido, incluindo grandes mentiras, com a convicção íntima e petulantemente verdadeira de que a sua vida real ainda era maior. Sartre disse à Beauvoir: «Que mina de ouro a vida dele!» Nessa altura, ele já tinha um romance, Educação Europeia, escrito quando andava a atirar espingardas de paraquedas para os resistentes franceses. O livro era sobre outra resistência ao nazismo, a dos camponeses polacos – uma subtil mensagem, em 1943!, sobre a identidade europeia. De Gaulle definiria mais tarde a sua Europa: do Atlântico aos Urais. Na vida e na obra, já há muito o seu admirador Romain Gary escolhera essas fronteiras.

O herói de guerra e dândi efabulava e o escritor escolhia o infinitamente simples. Romain Gary ganha o prémio Goncourt, em 1956, com As Raízes do Céu, para pagar uma dívida de gratidão, um homem vai para África combater a caça aos elefantes. Ele sobrevivera ao campo de concentração ao imaginar as manadas de elefantes na savana…

Nomeado cônsul-geral em Los Angeles, Gary adapta-se bem ao mundo de fantasia. Um dia, conhece Jean Seberg, bela americana de cabelos curtos e prateados, estrela do primeiro sucesso de Godard, À Bout de Souffle. Ele insiste com o marido, quer calçar-lhe os sapatos. Embora intrigado, o marido aceita e o diplomata foge com a mulher dele. A mulher da sua vida, muito mais do que uma estrela no passeio da fama de Romain Gary, mas também isso.

Em 1975, em segredo, ele concorre sob o nome Émile Ajar a um segundo Goncourt, o que é interdito pelos estatutos do prémio e ganha. Um dos mais fantasiosos escândalos da literatura francesa. Quanto a Uma Vida à Sua Frente, é comoventemente simples: uma velha e gorda judia, ex-presa dos nazis e puta, guarda os filhos de imigrantes, num bairro parisiense de imigrantes, Belleville. O livro é contado na voz de um garoto. Frase deste: «É sempre pelos olhos que as pessoas estão mais tristes.»

Já estavam separados quando Jean Seberg se suicida. Meses depois, no inverno de 1980, Romain Gary mete à boca o cano de um revólver 38 e dispara. Deixou um bilhete: «Nada a ver com Jean Seberg.» O bilhete não era do escritor, era do mitómano. Quase 40 anos depois, ainda recentemente o The New York Times e a revista The New Yorker dedicaram longos artigos à lenda do homem e à visão moral dos seus livros.