OPINIÃO

Raquel Macedo: «O argumento que mais me irrita é ‘tu não tens filhos, não percebes’»

Raquel escolheu não olhar a pressões sociais, nunca teve filhos e vive feliz com essa escolha. Amanhã, dia 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Nunca como agora se falou tanto do seu papel e dos seus direitos. Falámos com cinco mulheres com percursos, histórias e escolhas diferentes para perceber se este é mesmo o tempo das mulheres.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Jorge Simão

Quem conhece a noite do Bairro Alto, provavelmente, frequenta o Clube de Esquina, na Rua da Barroca. Raquel Macedo, 45 anos, concilia o trabalho na área de marketing jurídico com a atividade de empresária. «Diziam que eu era workaholic mas nunca pensei nesses termos. Era o trabalho e pronto. Mas há quatro anos tive de repensar a minha vida.»

Uma mamografia de rotina revelou o pior. O diagnóstico de cancro da mama acontecia dois meses depois da morte da sua mãe, Virgínia. «Foi o pior ano da minha vida. Ter continuado a trabalhar ajudou‑me a não mergulhar numa tristeza profunda.»

«Para mim, a decisão de ter um filho implica uma relação biparental. Uma criança deve nascer no seio de uma família.»

Numa das consultas o médico perguntou‑lhe se pensava engravidar. Com 42 anos e nas condições em que se encontrava, teria de ser planeado e no prazo de dois anos. Não tinha parceiro e ter um filho sozinha estava fora de questão. «Para mim, a decisão de ter um filho implica uma relação biparental. Uma criança deve nascer no seio de uma família. Não podemos decidir por alguém que ainda não nasceu que não vai ter pai.»

Ao longo da vida, a empresária nunca sentiu a necessidade de ser mãe. E não entende as pessoas que estabelecem metas para si mesmas que não conseguem controlar. «Como é que se pode ter como metas casar, viver junto, ter uma família? Um momento que depende de terceiros não pode ser uma meta porque existem variáveis que são incontroláveis. É falível à partida. E eu gosto de coisas concretas.»

Chegou a viver um relacionamento, entre os 27 e os 30 anos, em que o companheiro queria filhos. Sentiu que não era o momento e não se arrependeu. Aos 35 estava sozinha e colocou a hipótese de adotar mas não se concretizou.

«Não sou o caso de alguém que colocou totalmente de parte a ideia de ter filhos. Simplesmente, não aconteceu», explica. E vai mais longe. «Porque é que as pessoas têm filhos? Têm porque vivem com a pessoa que amam? É válido. Mas nem sempre é assim.

Uma grande percentagem dos nascimentos são os não planeados. É um risco enorme.»
Raquel sabe do que fala. «Eu fui fruto de um acidente. A minha mãe biológica, Eugénia, tinha 19 anos quando engravidou. Não conheço o meu pai. A minha mãe ficou em casa e os meus avós acabaram por ser os meus pais (Virgínia, que morreu dois meses antes do diagnóstico de cancro era, na realidade, avó de Raquel). Quando a minha mãe biológica casou, eu tinha 9 anos, quis ficar em casa.»

«Não preciso de filhos para me afirmar. Não me sinto em dívida com nada.»

Tem ainda oito tios a quem chama de «irmãos» e 21 sobrinhos. A família sempre foi muito unida. «Para mim, a família é tudo.» Por outro lado, a hipótese de lhe acontecer o mesmo nunca se colocou. «Eu não tenho acidentes. Sempre tive dupla preocupação.»

No seu grupo de amigos, há quem tenha crianças e quem não as tenha e há poucas coisas que a enervem tanto como o clássico «tu não tens filhos, por isso, não percebes». «Às vezes, numa discussão mais acesa, lá vem esse argumento. Isso irrita‑me. Não preciso de filhos para me afirmar. Não me sinto em dívida com nada.»

Outra ideia preconcebida que a empresária tenta combater é a de que «se estás sozinha, estás disponível. O que não é, de todo, verdade». No bar, à noite, ou nas empresas por onde trabalhou no passado já foi alvo de provocações, mas nada que a afetasse. «Nunca me senti ameaçada e nunca dei troco.»

Desde que esteve doente, Raquel passou a valorizar cada dia e a cuidar conscientemente da sua felicidade. Por isso, gostaria que lhe fizessem uma pergunta diferente: «Porque é que as pessoas perguntam se temos filhos e não perguntam se somos felizes?»

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