OPINIÃO

Quem foi misericordioso para o Montepio?

Estranho que, quando se salva um banco sem intervenção estatal ou financiamento estrangeiro, ninguém reclame os créditos da misericordiosa ideia.

É negócio para acabar em «inquérito parlamentar ou investigação judicial» por suspeitas de «gestão danosa», vaticinou Marques Mendes. No passado dia 5, no El País lia-se que se Robin Hood olhasse «ficaria atónito» com a mudança dos tempos. É que, dizia o diário espanhol, «em Portugal vai usar-se o dinheiro da caridade para salvar um banco».

Sim, a notícia dos duzentos milhões de euros que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa se prepara para trocar por dez por cento do Montepio já chegou a Espanha. E lá, como cá, desconhece-se origem da misericordiosa salvação.

Sabemos que Pedro Santana Lopes, ex-provedor da Santa Casa, e o governo socialista aprovam a ideia, ou não haveria possibilidade de a passar à prática. Já lemos que teria partido de Vieira da Silva, mas o ministro do Trabalho e da Segurança Social já garantiu que a iniciativa foi de Santana Lopes.

Por sua vez, o ex-primeiro-ministro apressou-se a ceder os louros ao governo e ao Banco de Portugal. No mínimo estranho que, quando se salva um banco sem intervenção estatal ou financiamento estrangeiro, ninguém reclame os créditos da misericordiosa ideia. Não é, contudo, inédito.

Foi em 1981 que Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Nicky Headon se juntaram em Nova Iorque para gravar o seu quinto disco. Punks de créditos firmados, nessa altura ainda os Clash procuravam a entrada no mainstream, um problema que Combat Rock resolveria. Além de Rock the Casbah, também Should I Stay or Should I Go foi lançado como single – o único da banda a chegar ao topo das tabelas britânicas e também o mais misterioso dos seus temas.

Alguém tinha uma justificação para, a meio, começarem a cantar em espanhol? Durante anos ninguém soube explicar o porquê de a meio «this indecision buggin me» passar a «esta indecisión me molesta», mas a mudança de idioma tornou-se parte do single. Uma boa ideia que ninguém assumiu?

No caso dos Clash, livres de investigações ou acusações de danos, a justificação chegou décadas depois – terá sido Joe Strummer quem começou a cantar em espanhol e a mãe de um engenheiro de som equatoriano quem traduziu a letra. O porquê nunca se soube. No caso do Montepio sabemos o porquê, não sabemos o quem. Na eventualidade de a previsão de Marques Mendes ser certeira, a informação poderá vir a ser útil.

COMBAT ROCK
The Clash
23,90 euros

A MINHA ESCOLHA

UM PRATO COM DIREITO A TODOS

Um maestro tunisino, dois músicos clássicos do jazz norte-americano e um pianista britânico, juntos com o carimbo da ECM a promover as sessões em estúdio. Por cá, Blue Maqams, lançado no final do ano passado, passou quase despercebido.

Um erro que qualquer fã de jazz deve tentar corrigir. Começa por soar a música árabe – Opening Day, a faixa de abertura –, mas ouve-se o piano de Django Bates e tudo se torna mais confuso. Depois, volta a intensificar-se o toque a jazz com a entrada do contrabaixo de Dave Holland e a delicada bateria de Jack DeJohnette.

Desconfiado? O melhor é seguir caminho, numa viagem em que é impossível prever o rumo. Ouve-se música clássica, sentem-se balanços sul-americanos – Bahia e Bom Dia Rio – e no final permanece a dúvida instalada às primeiras notas. Afinal, isto é o quê?

Unexpected Outcome, a faixa que encerra o disco, não ajuda a catalogar, mas torna o rótulo desnecessário. A lista de cúmplices e o carimbo da editora colocam o disco nas prateleiras do jazz, a facilidade com que se deixa ouvir deixa-o entre os mais simpáticos do ano, a curiosidade que nos obriga a voltar a carregar no play entre os candidatos a resistir à passagem do tempo. A não perder.

BLUE MAQAMS
Anouar Brahem, Jack DeJonhette,
Dave Holland, Django Bates
15,99 euros