OPINIÃO

O problema com as couves

As diretivas europeias aconselham a que se produza de acordo com as necessidades e não se armazene em demasia. Mas, e este é o problema dos ecologistas, Portugal constrói e enche barragens ao ponto de ultrapassar em cinquenta por cento aquilo que era preciso. É por isso que pagamos uma fatura de eletricidade tão cara.

O Diário de Trás-os-Montes trazia nesta semana uma notícia tramada, que quase ninguém leu. Neste chuvoso mês de março, precisamente por causa da chuva, a barragem do Baixo Sabor encheu acima da cota estabelecida.

As concessionárias estão obrigadas contratualmente a escoar a água em excesso, mas a EDP respondeu que, depois de um período de seca, está a reter água ao máximo.
Ninguém parecia propriamente preocupado com o assunto, a não ser uma pequena empresa familiar de produção de couves em Torre de Moncorvo.

Acusam a barragem de ter subido além da cota máxima e inundado dez dos seus quinze hectares de produção. A EDP respondeu que já se sabia que aquele vale era inundável. Era um azar para quem ali plantou as couves, mas já se sabia que aquele era leito de cheia.

Mas depois há isto: encher as barragens além da sua capacidade contribui mais para aumentar a capacidade de produção de energia do que para travar a seca. Há uns anos, numa reportagem sobre a reconstrução da barragem do Tua, os ambientalistas da Geota ensinaram-me que as concessionárias não ganham apenas dinheiro com a energia que nós gastamos, ganham também com a que armazenam.

As diretivas europeias aconselham a que se produza de acordo com as necessidades e não se armazene em demasia. Mas, e este é o problema dos ecologistas, Portugal constrói e enche barragens ao ponto de ultrapassar em cinquenta por cento aquilo que era preciso. É por isso que pagamos uma fatura de eletricidade tão cara.

Estamos a produzir energia de que não precisamos. Encher o Baixo Sabor além do limite serve em boa verdade um propósito: produzir excessivamente para que os contribuintes paguem o excesso.

Há um certo consenso na comunidade científica que uma barragem altera drasticamente os ecossistemas e trava a renovação e a salubridade dos cursos. Quando no verão sentimos que o areais das praias encolheram, a explicação primeira está na construção de barragens.

Quando dizemos que o Tejo está a secar, é aqui que encontramos o fator de calamidade. Quando sentimos a seca nas torneiras, percebemos que foi a tentativa de contenção da água, o seu desvio para o regadio e para explorações intensivas que a tornou inviável nos cursos e nos canos.

A Geota diz que não é teoria, é facto. Uma barragem nunca é saudável para um rio ou para as populações que o ladeiam – homens ou bichos ou plantas. São aliás tão prejudiciais que há países europeus que andam por estes dias a destruí-las. Suécia, Reino Unido, Espanha, França e os Estados Unidos já retiraram perto de cinco mil barragens dos seus rios.

Tivemos um ano de seca extrema e severa e as barragens que esvaziaram começam a encher. Isso é bom, sim. Mas é melhor que os cursos de água sejam de facto cursos de água. A contenção excessiva da mesma piora o drama da falta dela.

E o azar daquela empresa familiar que produz couves em Torre de Moncorvo, bem vistas as coisas, é bem capaz de ser um azar para todos nós. Salvemos as couves e, com isso, salvemo-nos a nós.