Pode um smartphone «gravar» conversas privadas?

A 25 de maio vai entrar em vigor um novo regulamento para uniformizar as leis de privacidade das aplicações em toda a Europa. Publicidade utiliza chamadas para ser ainda mais personalizada. Quais os limites de privacidade dos utilizadores?

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

As dúvidas começaram por surgir no Reddit. «Estava a conversar com um amigo para o ajudar a levar algumas coisas suas para Chico, na Califórnia. De seguida, surge uma notificação da TripAdvisor sobre a minha próxima viagem a Chico», comenta um dos utilizadores daquela rede social.

Segundo o El País, as dúvidas espalharam-se por outros utilizadores. «Quando estou com os meus amigos, e com os telemóveis deles, tenho sempre dúvidas sobre os temas que devo abordar. Já ouvi e li muitas histórias», descreve outro.

«99% dos utilizadores são ignorantes. Para o bem da humanidade deveria existir um exame de aptidão para permitir a utilização de um smartphone, tablet ou computador, tal como acontece com a carta de condução para circular na via pública»

Estão os limites de privacidade colocados em causa para que a publicidade seja mais personalizada? Que formas há de contornar este problema? Enrique Vidal, que mereceu reconhecimento da Sociedade Científica e Informática de Espanha diz ao El País que o problema está na ignorância dos utilizadores.

«99% dos utilizadores são ignorantes. Para o bem da humanidade deveria existir um exame de aptidão para permitir a utilização de um smartphone, tablet ou computador, tal como acontece com a carta de condução para circular na via pública», frisa o especialista.

Carlos Martínez, professor de programação em Valência, também ouvido pelo jornal espanhol, conclui que o principal problema está nas condições de privacidade das aplicações que os utilizadores instalam no telemóvel sem qualquer conhecimento. «Entender a linguagem da Internet é básico e deveria ser incluído no programa académico», sustenta o espanhol.

A juntar-se à facilidade de «gravar» estas conversas, junta-se a falta de transparência das aplicações e os longos e complexos textos sobre os termos e condições a aceitar para a instalação das mesmas.

Em 2016, foi a vez do jornalista Zoe Kleinman provar que seria bastante fácil escutar conversas telefónicas privadas. Numa reportagem posteriormente apresentada na BBC, o jornalista desafiou dois especialistas da empresa Pen Test Partners, em Buckingham, a desenvolver uma aplicação para ouvir os utilizadores através do microfone do trabalho. Resultado? Os informáticos tiveram total acesso às conversas, ainda que «com algumas dificuldades».

A juntar-se à facilidade de «gravar» estas conversas, junta-se a falta de transparência das aplicações e os longos e complexos textos sobre os termos e condições a aceitar para a instalação das mesmas.

Para tentar resolver estas dificuldades, a 25 de maio entrará em vigor um novo Regulamento Geral da Proteção de Dados, de modo a uniformizar as leis de privacidade em toda a Europa.