OPINIÃO

Sou a pior mãe do mundo – parte 350 (mas isso vai mudar em 2018)

Vivemos como se fôssemos imortais e pudéssemos voltar atrás, as vezes que quisermos. Não podemos. De maneira que, quando acabar de escrever esta crónica, vou estar com os meus filhos.

«Mãe, hoje tiraste um dia de férias e vais trabalhar?» «Não, filha, vou só escrever a crónica que não escrevi quando devia ter escrito». «Ah, ok», diz ela, já distraída de mim e de olhos postos no telemóvel.

O telemóvel, a televisão e a Playstation são os meus maiores cúmplices no tempo que roubo aos meus filhos. Se eles estão entretidos com aquilo, eu posso estar no computador ou no messenger ou onde for preciso, a responder a e-mails, todos eles inadiáveis, e a resolver questões, todas elas essenciais para o futuro da humanidade e a sobrevivência da espécie. Inverto a ordem natural das coisas e convenço-me de que são eles que não têm tempo para mim, pobrezinha, que por isso não tem alternativa senão trabalhar.

E, no entanto, enfiei a carapuça e as lágrimas correram-me cara abaixo quando, em outubro, na grande conferência da NOTÍCIAS MAGAZINE sobre família, ouvi o brasileiro Marcos Piangers traçar um retrato de como os pais se relacionam com o tempo que passam com os filhos.

Eles a pedirem «olha, pai, olha, pai» e nós a olhar sem olhar, «sim, filho, estou a ver» e eles a perceberem que não, que não estamos a olhar, porque eles percebem tudo e a encolherem os ombros e a adaptarem-se, que é o que as crianças fazem, quando só queriam que olhássemos para elas, naquele momento em que marcaram o golo ou conseguiram equilibrar-se na bicicleta ou deram o mergulho perfeito ou fizeram o passo de ballet xpto.

Enfiei a carapuça, mas aqui estou eu, num dia de férias, fechada no escritório, ao computador, a escrever uma crónica que não escrevi quando devia ter escrito. Mas isso vai mudar, no momento em que acabar de a escrever.

Vai mudar não só por eles, por mim, também. Entrámos ontem num ano novo (é dia 2 de janeiro no momento em que escrevo) e eu olhei para o espelho e depois olhei para eles, o João já maior do que eu, a Rita a caminhar para lá, e percebi como o tempo passa depressa de mais e nós nem damos conta.

Vivemos como se fôssemos imortais e pudéssemos voltar atrás, as vezes que quisermos. Não podemos. De maneira que, quando acabar de escrever esta crónica, vou estar com os meus filhos. Olhar para eles. Brincar com eles. Ser mãe deles. A melhor mãe que conseguir ser. Bom ano novo.