Perfil de Jean-Claude Juncker: longevidade e bizarria

REUTERS/Yves Herman

Texto de Alexandra Tavares-Teles

Não esconde que cede ao prazer do fumo e da bebida. Paga o preço. Mal foi visto a cambalear no jantar de gala da NATO, logo se apontou o dedo ao uísque de malte que tanto aprecia. Verdade seja dita: não é a primeira vez que o presidente da Comissão Europeia caminha cambado, resultado, a crer na declaração oficial, de uma violenta crise ciática. Nem é a primeira vez que oferece dos mais caricatos momentos protagonizados por um político. Seja quando saca do velho Nokia em plena reunião em Bruxelas para atender a mulher, Christian, seja quando desliga o telefone a Angela Merkel, convencido de que lhe ligavam de casa.

De linguagem destravada, Juncker não se atrapalha. Nem quando foi obrigado a pedir desculpa por declarar “ridículo” o Parlamento Europeu ou quando cumprimentou o húngaro Viktor Orbán com um “Olá ditador”. Nem quando anunciou um novo mapa da União: “A Europa vai de Espanha à Bulgária.” À-vontade que se manifesta até no ar amarrotado com que se apresenta por regra, só possível a quem conhece de cor os corredores europeus do poder.

Federalista convicto, Juncker assumiu a presidência da Comissão Europeia em 15 de julho de 2014. Muito antes, foi ministro das Finanças e presidente do Ecofin em 1991 e liderou as negociações do Tratado de Maastricht até ser eleito primeiro-ministro do Luxemburgo, em 1995. Aí esteve 18 anos, recorde europeu em democracia. E daí transitou para a presidência do Eurogrupo, que liderou durante oito anos.

Filho de pai sindicalista, Juncker formou-se na Universidade de Estrasburgo. Entrou para o Partido Popular Social Cristão em 1974, início de uma carreira marcada pela longevidade, alguma bizarria e dois escândalos. O primeiro, em 2013, sobre os sistemas da informação, ditaria o abandono do governo luxemburguês; e em 2017, quando foram tornados públicos entraves colocados a iniciativas da União Europeia de combate à evasão fiscal das multinacionais.

Católico e intransigente defensor da disciplina orçamental reconheceu, referindo-se à austeridade imposta pela troika: “Pecámos contra a dignidade dos cidadãos na Grécia, Portugal e Irlanda.”

Em vésperas de ser recebido na Casa Branca e em contagem decrescente para o final de mandato, Jean-Claude Juncker diz-se defensor de uma “Europa de valores, um projeto muito mais vasto do que o mercado único, a moeda ou o euro”, propondo a fusão dos cargos dos presidentes da Comissão e do Conselho. A visão tem um lado estritamente pessoal – “Sou um caso de amor pela Europa.”