Pegadas de dor e esperança

A foto da pegada de sangue de Leonor, tirada há um ano, é um ícone daquele dia fatídico. (Foto: André Gouveia/Global Imagens)

Texto de Salomé Filipe

O sangue de Leonor já não está na estrada. Foi lavado pelo passar dos meses, depois de lá ter permanecido pelo menos meio ano. As pegadas da menina de 11 anos que marcaram os incêndios de 15 de outubro de 2017, em Oliveira do Hospital, já não se veem. Mas o fogo deixou outras marcas, cravadas mais fundo, que não se apagarão tão cedo.

Tanto em Leonor, ainda internada, como em todos os habitantes de uma terra que viu as chamas levarem doze dos seus. Entre eles, Cristiana, mãe. Mãe de Leonor. Um ano depois, por todo o lado ainda há pegadas de dor marcadas a vermelho, do sangue, a laranja, das labaredas, e a negro. Um negro que pinta a paisagem, agora salpicado pelo verde dos eucaliptos nascediços. Um negro verdejado pela esperança.

Faz esta segunda-feira, dia 15, um ano. Um doloroso ano. Era domingo e Cristiana Brito, de 44 anos, estava em casa, em Gramaços, Oliveira do Hospital, com a filha, Leonor, de 11 anos, e o marido, Márcio. Da janela da cozinha, viu as chamas que consumiam uma habitação não muito longe da sua. E por ter medo das labaredas – “nem do fogo da lareira gostava”, recorda a mãe – quis deixar a habitação e ir ter com familiares à aldeia ao lado, Catraia de S. Paio.

Mas o caos já estava instalado em todo o concelho. Chamas, fumo, estoiros, casas e árvores a arder, gritos ao longe, ruas cortadas. E, por entre um cenário dantesco, tentando encontrar um caminho seguro, a família despistou-se de carro, numa estrada ladeada por árvores em chamas. Márcio conseguiu guiar a filha para longe do fogo, encontrando guarida numa casa nas imediações.

Pela estrada, ficou o rasto de sangue das pegadas da pequena Leonor, queimada em grande parte do corpo. Na mesma rua, no dia seguinte, do lado oposto àquele onde estava a carcaça ardida do automóvel, as autoridades encontraram o cadáver de Cristiana. Crê-se que se tenha desorientado durante a fuga, sendo apanhada pelo fogo, infernal.

Cristiana Brito, na fotografia, desorientou-se com as chamas e não conseguiu fugir. Foto: André Gouveia/Global Imagens

Passou um ano e Matilde Gouveia não largou o preto das roupas. Talvez não o largue nunca. Tem 81 anos e uma dor proporcional à idade. É mãe de Cristiana, avó de Leonor e, sozinha em casa, ao fundo de uma rua íngreme e estreita, ladeada por habitações em pedra, chora todos os dias a perda da sua “companhia de fim de semana”.

A filha, a neta e o genro, dantes, rumavam sempre à aldeia de S. Gião, a dez quilómetros de Gramaços, para a visitar. Hoje, a semana passa com a certeza de que aquela companhia, pelo menos, não vai chegar. Mas há conforto quando pensa na neta. Afinal, “é um milagre de Deus ela estar viva”, acredita Matilde.

Hoje, os dias de Leonor e de Márcio são passados em Coimbra, acompanhados de perto pela tia e pela avó paterna da menina. Da vida que conheciam antes do dia 15 de outubro do ano passado, pouco resta. A casa, em Gramaços, está vazia e em silêncio. Muitos dos vizinhos nunca mais os viram.

A menina, um ano depois, ainda necessita de tratamentos diários no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, estando alojada na casa da associação Acreditar. E o pai, operador na Sonae Indústria, sedeada perto de casa, teve de deixar temporariamente o emprego para a acompanhar de perto, todos os dias, numa nova rotina, marcada pela esperança da recuperação total da filha.

“Já perdemos as contas às anestesias que levou e aos enxertos de pele que fez. Mas a minha menina está a recuperar, apesar de ainda não conseguir meter o pezinho direito no chão. Ficou queimadinha dos pés à cabeça. A vida é muito triste”, lamenta Matilde, com os olhos rasos de água.

“Já perdemos as contas às anestesias que levou e aos enxertos de pele que fez. Mas a minha menina está a recuperar, apesar de ainda não conseguir meter o pezinho direito no chão” (Matilde Gouveia)

Leonor já conseguiu visitar a avó, em S. Gião, terra que a leva também para perto da mãe, ali sepultada. Ainda há poucas semanas o fez. Em agosto também, na altura em que a progenitora faria anos. Na aldeia, questiona-se quando a “menina-milagre” regressa. Em Gramaços, também. Os médicos acreditam que o sofrimento que tem passado ainda não a deixou fazer o luto. Mas, aos poucos, recupera a alegria de viver, ao lado de um “pai-herói” que não a deixa nunca. Ele que também sofreu queimaduras graves no corpo.

Matilde Gouveia, 81 anos, nunca mais largou o preto. A mãe de Cristiana e avó de Leonor chora todos os dias. (Foto: André Gouveia/Global Imagens)

As visitas privadas de Marcelo
Leonor fez questão de continuar a frequentar a mesma escola, mesmo à distância, tendo agora aulas por videoconferência, para que os seus dias, tão diferentes daquilo que foram um dia, tenham um pouco de normalidade. E, no hospital, já foi visitada “umas quatro vezes” por Marcelo Rebelo de Sousa, em iniciativas do presidente da República não divulgadas ao público.

“Isso mostra o quão querida ela é. Era uma criança com uma alegria que só visto. Um dia ainda vão voltar a vê-la a correr e a brincar na rua. Tenho a certeza”, atesta outra familiar, com um sorriso esperançoso.

Matilde Gouveia sofre ao longe. Chegou a ir visitar a neta ao hospital, mas, agora, limita-se a esperar pelas parcas visitas e pelos telefonemas que a vão mantendo a par de evolução da menina. O rosto ilumina-se quando se fala das visitas presidenciais à neta. Sente-se honrada. Mas volta a fechar-se, logo de seguida, e a mergulhar na dor que teima em não a largar.

Dos quatro filhos, já só tem dois. Um deles, José Luís, morreu aos 32 anos, eletrocutado, quando trabalhava. Depois, perdeu Cristiana, a filha que viu sobreviver à queda de uma varanda, quando tinha apenas 13 meses. E o marido, esse, morreu quando Cristiana, a mais nova dos quatro, era bebé.

“Tenho tido um azar na vida que sei lá. Mas, quem fica, um dia ri, outro dia chora. O mal é de quem vai”, conforma-se, enquanto se prepara para a saída diária de casa, depois de almoço, até ao café da aldeia, onde ficam preocupados se não aparece à hora habitual.

Foi na estrada que liga Catraia de S. Paio a Oliveira do Hospital que Cristiana e Márcio se despistaram. Mas hoje quem por lá passa mal reconhece o local, uma vez que todas as árvores queimadas foram cortadas bem rente ao solo, há alguns meses.

Quando se desce, numa das primeiras casas depois da antiga zona florestal, continuam a viver Conceição e José Manuel Pedro, ela de 58, ele de 63 anos. No dia fatídico, foram os primeiros a acudir a Márcio e a Leonor, juntamente com o vizinho, António Coimbra, atualmente internado, depois de ter sofrido um acidente grave no início de 2018.

No último ano, o casal já perdeu a conta às vezes que recordou a história, que nunca lhes vai sair da cabeça. Está presente a memória de Márcio a chegar, aos gritos. “Ó São, acode-me”, suplicava. Está presente a dor de Leonor, de calções e pernas finas queimadas, “que primeiro tinha muito calor e depois começou a tremer de frio”, à espera quase duas horas por um ambulância que nunca chegou. Está presente a angústia que José Manuel sentiu quando tentou ir procurar Cristiana, sem ter conseguido encontrá-la. “Acabei por ser eu e o meu vizinho António a ir levar a menina ao hospital. Estava tudo a arder, era um terror”, relembra o reformado.

Leonor já visitou a avó, em S. Gião, terra que a leva também para perto da mãe, ali sepultada. (Foto: André Gouveia/Global Imagens)

Ainda hoje, nos dias de muito calor, pairam de novo as memórias daquele dia de outubro. Nas ruas, volta-se a falar do fogo, nas conversas entre vizinhos. Mas, pelo menos ali, numa rua despida do outrora verde das árvores, já não há medo. “Ardeu tudo o que havia para arder”, remata Conceição Pedro.

Para as gentes de Oliveira do Hospital, o fogo é um monstro que, infelizmente, não habita apenas nos livros de fantasia. Falam “dele”, “aquele bandido”, como se de alguém se tratasse. Alguém que não é bem-vindo numa terra pacata como aquela, onde reinava a paz num domingo quente de outono.

“Ele andou por onde quis, queimou o que quis e foi embora quando quis. O meu marido está sempre a repetir isso.” As palavras são de Graciosa Fontinha Nunes, de 60 anos, residente na aldeia de Vila Pouca da Beira. Só ali morreram três das 12 vítimas mortais de Oliveira do Hospital, o concelho do país onde mais mortes houve nos incêndios daquele mês. E Graciosa – que não perdeu nenhum familiar, apenas bens materiais, como um trator ou os painéis solares da casa – não consegue conter a emoção ao recordar um dia “impossível de esquecer”. Um dia que destruiu parte da freguesia a que presidiu durante 12 anos e que conhece, e ama, como ninguém.

“Ele [o incêndio] andou por onde quis, queimou o que quis e foi embora quando quis. O meu marido está sempre a repetir isso.” (Graciosa Fontinha Nunes)

Ajuda psicológica para acabar com as insónias
O padre novo tinha acabado de chegar à aldeia e Vila Pouca da Beira rumou à igreja, naquele dia, para o receber. À saída da missa, avistava-se o fumo, ao longe. “Tive um pressentimento de que ia chegar cá, apesar de toda a gente se ter rido quando disse isso”, conta Graciosa. Foi ver o fogo de mais perto.

Primeiro, pareceu-lhe ainda muito distante e, por isso, voltou para casa. Mas, meia hora depois, inquieta, regressou ao local onde tinha vista para a serra. De repente, descobriu uma coluna de fumo. Pegou no telemóvel, para tirar uma fotografia. Quando olhou para a câmara, já via três frentes de chamas. Saiu dali e correu para o centro da aldeia, onde foi fechar as janelas da loja de artesanato de que é proprietária. Dali, seguiu para casa.

Algo lhe dizia que tinha de tentar proteger a habitação o melhor que podia. Assim fez. Pouco tempo depois, o incêndio chegou, veloz. “Começaram a cair bolas de fogo em cima da casa. Pareciam bombas. Era um calor que não conseguem imaginar. Falhou logo a eletricidade, as comunicações e a água. Não tínhamos água para apagar o fogo. E não apareceu ninguém. Nem bombeiros, nem polícia… ninguém.

Nem nesse dia, nem nos seguintes”, salienta, num discurso frenético, marcado ainda pelos nervos, que até se traduzem na respiração ofegante. “Desculpem, mas é que eu vivi muito o incêndio. Muito mesmo. Ninguém imagina o que passámos naquelas horas”, justifica Graciosa. A angústia causada pelo fogo hoje é menor, mas ainda a magoa por dentro. Na altura, precisou mesmo de procurar um psicólogo. “Nos dias a seguir, não conseguia dormir. Aconteceu também a outras pessoas.”

Em Vila Pouca da Beira, toda a gente foi afetada pelas chamas de alguma forma. Mas a partida de três dos filhos da terra deixou as memórias mais dolorosas. Graciosa deixa de conseguir conter as lágrimas quando recorda as perdas humanas, todas elas de pessoas por quem tinha estima e amizade. Lamenta a morte de Maria Celeste, de 70 anos, que devido aos problemas de locomoção não conseguiu sair da habitação, falecendo queimada lá dentro, enquanto o marido tinha ido às compras ao supermercado.

José Manuel Pedro e Conceição Pedro foram os primeiros a socorrer Márcio e Leonor, juntamente com o vizinho António Coimbra, no dia fatídico. (Foto: Maria João Gala/Global Imagens)

E, principalmente, a dos “miúdos”, como carinhosamente ainda trata João André Costa, de 29 anos, e Paulo Alexandre, de 34, os dois irmãos que foram encontrados sem vida, no dia a seguir aos incêndios, num eucaliptal. Tinham tentado chegar a uma quinta da família, para salvaguardar os bens, quando foram apanhados pelo fogo. A família esperou por eles toda a noite, em angústia. No dia seguinte, um casal passou num caminho florestal e viu dois vultos. “Pensaram que eram dois bonecos. Quando se aproximaram, viram que eram dois corpos caídos.”

Falta de apoios gera revolta
Tocamos à campainha e, tal como há um ano, Isabel abre a porta, sem sair pelo portão para fora do pátio. Não é só cautela, é dor e cansaço de quem perdeu dois sobrinhos a quem via quase como filhos. Isabel pede desculpa, mas não quer falar. “Estou demasiado revoltada com tudo. Prefiro nem dizer nada. Os apoios são só garganta para irem para a televisão. Mas, na realidade, ninguém quer saber”, dispara.

“Estou demasiado revoltada com tudo. Prefiro nem dizer nada. Os apoios são só garganta para irem para a televisão. Mas, na realidade, ninguém quer saber” (Isabel)

Paulo, o mais velho dos dois irmãos, deixou dois filhos menores que estavam a seu cargo, depois de ter sido abandonado pela mãe das crianças. O menino, agora com oito anos, ficou a viver com Isabel. A menina, com 11, foi entregue à avó paterna, que, já este ano, poucos meses depois de perder os filhos, também viu o marido morrer. A família continua mergulhada numa dor profunda. E a filha de Paulo, em negação, ainda acredita que o pai está vivo. Tudo porque o funeral foi feito sem o corpo, apenas entregue à família tempos depois.

“Soubemos pela televisão que o corpo ia ser enterrado. É por tudo isso que estou muito, muito revoltada. Na altura, vieram cá os da Câmara, diziam que nos iam pagar pelo menos o funeral. Nem isso. A Segurança Social pagou uma parte, como paga a toda a gente. O resto foi do nosso bolso. É só garganta, é só para parecerem bem nas televisões”, critica Isabel, antes de se despedir.

Percorrer o concelho de Oliveira do Hospital é ler uma história que não precisa de palavras para ser entendida. Um ano não chegou para voltar a pintar de verde as planícies e os montes. Há manchas negras para onde quer que se olhe. E espreita muito verde por entre o negro das árvores queimadas, com plantas a treparem pelos troncos nus. Além disso, há milhares de eucaliptos a nascer de forma selvagem, através das sementes dos que arderam. Sem qualquer tipo de ordenamento, sem qualquer tipo de lei. Até em locais que outrora não tinham árvores. Os populares já comentam a nova paisagem e a sabedoria popular teme que, se nada for feito, “uma nova catástrofe aconteça daqui a alguns anos”.

Há muitas casas que não eram de primeira habitação ainda por recuperar. Aliás, as casas de primeira habitação que arderam na totalidade, por aqueles lados, foram poucas. Mas houve famílias a ficar sem nada, como um casal de estrangeiros, ele inglês e ela sul-africana, com uma filha menor. Vivem junto à Cruz de Pedra, na freguesia de Avô, e da casa de madeira que tinham construído não sobrou nada. Nem a máquina de costura com a qual o homem fazia calçado. Durante meses, viveram num parque de campismo. Entretanto, depois de se candidatarem a apoios, conseguiram reerguer uma pequena casa, no mesmo local. Em condições precárias, longe do centro da aldeia, estão a reorganizar a vida.

Agarrar a vida com todas as forças
Os muitos edifícios que o fogo consumiu ainda denunciam a tragédia que por ali passou, mesmo que alguém queira esquecer. E há também empresas que, um ano depois, não se reergueram. Umas ainda sem solução à vista, outras em que apenas agora se começa a retirar o entulho negro deixado pelo fogo. Não é o caso da Cláudio Marques Unipessoal Lda, em Catraia de S. Paio, uma empresa de eletricidade e climatização. Ficou totalmente destruída, mas um mês depois estava novamente a laborar.

Cheira a novo. Quem não souber, não sonha sequer que há 12 meses o inferno passou por ali. “Sem palavras. Não foi fácil”, confessa Cláudio Marques, de 36 anos, proprietário da empresa que emprega dez pessoas. Mas quando é que se ganha força para reerguer uma vida destruída em poucas horas? “No dia a seguir, logo. Tinha que ser. A primeira coisa a fazer foi limpar o entulho. Arranjar meios físicos e materiais para limpar tudo. Depois, veio cá o arquiteto, fizemos o levantamento do que aí estava e começámos logo a fazer o projeto. Em dezembro, tínhamos o pavilhão destruído de novo no ar”, orgulha-se o empresário.

Cláudio Marques é proprietário de uma empresa de eletricidade e climatização que emprega dez pessoas (Foto: Maria João Gala/Global Imagens)

Mas, antes disso, já tinha recomeçado a trabalhar, ele que “nem com uma chave de fendas” ficou. Emprestaram-lhe um armazém durante um mês, comprou os materiais mais essenciais e retomou a atividade. Meses antes do incêndio, em março, tinha desativado o seguro, pois iniciara obras no pavilhão onde tinha as ferramentas de trabalho e o stock, atrás do edifício onde se situam os escritórios. Oito dias antes do fogo, havia gasto cinco mil euros numa cobertura. Ia fazer um novo seguro naquela altura, mas não foi a tempo. Por isso, teve de se reerguer com os próprios meios, antes de receber ajudas do Estado.

Foi às três da manhã do dia 16 de outubro que o mundo de Cláudio ruiu, quando conseguiu chegar perto da empresa, que já ardia, segundo veio a saber mais tarde, desde as 00.30 horas. Às 19 horas, tinha estado lá perto, às compras no hipermercado, e não havia vislumbre de as chamas poderem vir a ameaçar a empresa.

O primeiro local que soube que podia estar ameaçado foi a casa dos pais. Pai de dois filhos, Cláudio teve como prioridade a segurança da família e das casas onde vivem. A dele e a dos pais. Ao início da noite, começou a perceber que “algo de errado ia acontecer”. Quando tentou ir à empresa, já não conseguiu passar. “Estava a calamidade instalada. Já só se ouviam explosões, gritos e pedidos de ajuda porque havia pessoas queimadas. Era algo descomunal. E as estradas estavam cortadas.”

Quando finalmente chegou, o pavilhão estava em chamas. Cinco carrinhas tinham ardido. A entrada do edifício com os escritórios tinha desaparecido. Não havia bombeiros para acudirem e Cláudio percebeu que nada havia a fazer. “Não tem sido um ano fácil. Quem pensar que tem sido, engana-se. Muito, mesmo. Mas acabou por ter um lado positivo, porque é nessas alturas que se vê o bom das pessoas. Felizmente, foram muitos os que me deram a mão”, diz, emocionado.

Contas feitas, Cláudio teve um prejuízo que rondou os 800 mil euros. “Tenho que salientar o apoio do Governo, porque não pode ser só criticar. Felizmente, tínhamos tudo legal, tudo em ordem e nada a esconder. O que tínhamos foi o que apresentámos, o valor real das nossas coisas. Mas tenho noção que 90% das empresas que não apresentaram nada, que ainda estão por levantar, não estão a apresentar os valores reais. Isso incomoda”, acusa o empresário, sem esconder alguma revolta. E vai mais longe, em jeito de lamento e de prenúncio: “Creio que aquilo que se está a passar na outra margem, em Pedrógão, mais tarde ou mais cedo vai passar-se por aqui”.

“Creio que aquilo que se está a passar na outra margem, em Pedrógão, mais tarde ou mais cedo vai passar-se por aqui” (Cláudio Marques)

Cláudio recuperou o negócio, o sustento da família. Isabel ainda não conseguiu libertar-se da revolta pela perda dos sobrinhos. Graciosa voltou a dormir tranquila. José Manuel e Conceição não esquecem os detalhes de tudo o que se passou, mas já não receiam que o fogo volte.

Graciosa Fontinha não consegue esquecer o dia que destruiu parte de Vila Pouca da Beira, freguesia que presidiu durante 12 anos. (Foto: Maria João Gala/Global Imagens)

Matilde está entre o luto eterno e a esperança na recuperação plena da neta, Leonor. Como Márcio, que camufla a pesada mágoa na luta diária da filha em recuperar a alegria de viver. Oliveira do Hospital ainda respira o rescaldo do dia 15 de outubro de 2017. Faz hoje um ano. Só que a memória está fresca como se tivesse sido ontem. O tempo apagou as pegadas de sangue de Leonor do asfalto, mas a dor não desaparece com a água da chuva. É uma chama acesa, com mais ou menos intensidade. Arde.