Pedrógão: No tanque da salvação

Na aldeia-mártir de Nodeirinho, concelho de Pedrógão Grande, floresta de Portugal central, havia 31 habitantes, uma maioria de idosos que nasceram e ainda vivem lá. Mas nos incêndios de 17 de junho de 2017, 11 dos habitantes morreram, reduzindo a aldeia a um terço. Os sobreviventes, outros 11 que se salvaram na água do tanque público, relatam agora esse dia trágico, interminável e demente.

Texto de José Miguel Gaspar e fotografias de Rui Oliveira/Global Imagens

Não foi como no cinema, em que eles se metem na água e as cabeças submergem e depois emergem muito direitas e lentamente e ficam ali, a água quieta a rasar os olhos, os olhos boquiabertos, expectantes a boiar, protegidos no manto molhado, enquanto o mundo inteiro se desenrola à volta, como se fosse fora dali e não fosse real, como nos filmes de pragas e de terror.

Não foi assim, foi muito pior. Foi confuso, demente, irracional, inclemente, pungente, e sentiu-se a morte a vociferar, a rondar e a ceifar, sentiu-se tudo, da cabeça à pele. E apesar de tudo já ter terminado há um ano, muito daquilo continua mentalmente a acontecer, às vezes é só um segundo, às vezes é uma noite inteira, pode ser numa manhã de nevoeiro, na cabeça de muitos há muita escuridão, o buraco negro não chegou ao fim, não se acendeu a luz, nada nunca voltará a ser normal.

Oficialmente, o Nodeirinho, aldeia da freguesia da Graça, 31 habitantes, concelho de Pedrógão Grande, sofreu, juntamente com as aldeias de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, concelhos do interior central de Portugal, 66 mortes nos incêndios iniciados a 17 de junho de 2017. (A contagem geral marcava de início 64 mortos, mas houve depois registo de uma mulher que morreu atropelada por um carro que fugia do fogo e outra pessoa internada em Coimbra desde então e que acabou também por falecer.) Foram 11 as pessoas que se salvaram no tanque público da aldeia. Tragicamente, como num horroroso espelho irónico anverso, foram também 11 as pessoas que ali morreram. E todas morreram nesse dia de sábado a arder.

Dona Marta foi levada ao colo até ao tanque
O tanque comunitário, um bloco cimentado com 80 centímetros de água em altura e diâmetro de dois metros por três, água corrida muito fria que vem da nascente da eira, lá do cimo da aldeia, fica colado à casa amarela de Maria do Céu. Tem 47 anos, é filha de Marta da Conceição, de 85, e de Manuel da Silva Antunes, de 81, e moram ali os quatro, com o marido da Céu, desde que ali viram o mundo pela primeira vez.

Já foi tudo muito diferente, diz dona Marta, que está sempre sentada no pátio cimentado da casa, invalidada, e que quando se levanta deita as mãos a um andarilho para se suster. Ela lembra-se da construção do tanque, foi muito lá atrás, 1940, era cachopa, todos eram agricultores ou pastores, os animais da faina e do carrego iam lá beber, na altura a luz era às candeias, a água não havia canalizada, só chegou em 1980, a luz elétrica foi só na década anterior, a televisão também, eram outros tempos, só em 1960 começou a passar a primeira camioneta para levar as crianças ao liceu de Pedrógão ou de Figueiró, na aldeia moravam mais de 200 pessoas, a maioria deu o salto e emigrou nas décadas a seguir, foram ficando os mais velhos, cada vez mais velhos, depois disso o tanque já foi cimentado, foi ampliado, fez-se um coberto para o sol, um lavadouro melhor, só a água permanece na mesma, sempre gelada, sempre a correr, agora também tem uma pia onde as pessoas põem as mãos em concha para beber.

Nos 85 anos que leva ali, dona Marta nunca viu coisa como a daquele sábado em que tudo se toldou. “Estava sentadinha aqui onde agora estou, estou sempre aqui, neste pátio”, virada para a porta aberta da rua, “ainda não era a hora do telejornal, o dia ainda ia alto, estava um sol de muito calor, e depois chegou aquilo de repente. Mais cedo na tarde já víramos fumos ao longe, mas depois foi de repente, um barulho muito alto, muito estranho, a rugir, e explodia, pareciam várias explosões, uma ventania de arrepelar e começámos todos a gritar, é o que me lembro. Eu disse logo: vamos todos aqui morrer! Mas se morrermos, morremos juntos, não vamos sair daqui, disse logo eu.”

Escureceu, foi assim, abruptamente, o vento chegou e acelerou, “uma louquice”, corria por todo o lado, a figueira em frente à casa enlouquecia, “dobrava-se toda até ao chão, parecia que se ia esborrachar”, tudo pelo ar, era “um vendaval e vinha cheio de fogo, parecia que caía do céu”, e vinha, vinha a voar, um fogo cheio de fumo, muito vermelho, muito amarelo, muito grosso, estava escuro, um fogo às bolas, aos repelões, “um fogo que parecia que queria entrar em nós”, um calor aterrador. Foi tudo muito confuso, muito depressa, mas dona Marta viu o genro pegar nela ao colo e sair com ela casa fora a correr. Quando percebeu onde estava, já estava no tanque, toda vestida, e o seu cabelo escorria água, apanhado num novelo, é sempre assim que o traz.

Os mortos só foram levantados ao terceiro dia
“Nem sei se pensamos ou se só reagimos, mas não nos deu tempo para fugir”, diz agora a filha, Maria do Céu, que ainda há pouco estava no tanque a lavar as patas cortadas e os miúdos ensanguentados de dois frangos que são para o jantar. “Acho que a nossa intenção era fugir, mas já não dava e o melhor era ficarmos ali. Fui à torneira, já não havia água, a luz apagou-se logo também, os telefones nem sinal, ficou tudo numa escuridão. E fomos todos para o tanque, o meu pai também, já lá estava a minha mãe, mais vizinhos, e havia mais pessoas a passar e a parar. No meio daquela loucura e da confusão, ouvíamos gritos a vir de todos os lados, e tanto calor, ali parecia-nos ser um sítio seguro, era o único sítio em que havia água, era ali que íamos ficar.”

Maria do Céu, ajudante de lar no Centro de Dia da Graça, passou aquele sábado a entrar e a sair de casa “numa aflição, a trazer bacias para a água, a procurar bisnagas, betadines, benurons, as pessoas gritavam, o calor queimava, tanto calor, Jesus, e foram chegando mais pessoas, chegavam a pé, vinham de carro, havia carros por este caminho todo fora até ali à curva, e começámos a atirar água a tudo, à casa, ao caminho, aos carros, e a mandar toda a gente para o tanque para se molhar. E assim ficámos, uns lá dentro, outros de fora a molharem-se com panos, eu a querer ajudar quem chegava, um desespero só.”

Confusamente, aquela tarde feita noite em que ninguém se deitou, ficou assim pela madrugada fora, Maria do Céu não sabe precisar, “mas aquilo, aquele calor, durou muito para lá da meia-noite, o fogo que aqui passou não, o tornado, era como um tornado incendiado, esse foi entre as sete e as oito da tarde”. E depois escureceu para sempre, não se via nada ali nem no céu, “e quando o dia começou a clarear, o meu marido mais outros homens foram ver, eu não consegui, e viram os vizinhos que estavam mortos. Foi horrível, horrível, os corpos só foram levantados na terça-feira, três dias depois, foi horrível sabermos que eles tinham morrido e os cadáveres deles continuavam ali”. E a mãe dela, dona Marta, que permanecia ali calada – ou quase, repetia muitas vezes baixinho, “ai meu Deus”, e suspirava, “ai meu Deus” -, as mãos paradas no regaço, vai rematar e depois não vai dizer mais nada: “Nada é nosso, é tudo emprestado, até o nosso corpo, somos todos de Deus.”

A parte das mortes
Três mortes: Sidnel Belchior ficou com o sobrinho, Rodrigo Miguel Cardita Rosário, de quatro anos, para os pais da criança, recém-casados, irem de lua-de-mel. Ao tentar fugir, de automóvel, das chamas, colidiu com outra viatura, conduzida por Afonso Lopes da Conceição, emigrante em França, que fugia de casa com a mulher. Depois da colisão, dois pinheiros em chamas abatem-se no caminho, bloqueando a saída, ficando o carro encurralado pelas chamas. Os seus corpos, tio e sobrinho, foram encontrados abraçados.

O emigrante Afonso e a mulher também acabaram cercados, mas a mulher logrou abandonar o carro e pôr-se a salvo; o corpo de Afonso foi encontrado no dia a seguir carbonizado, não estava muito longe do tanque.

Duas mortes: Mário de Carvalho, madeireiro de 50 anos, tentou salvar as máquinas de trabalhar; salvou uma, quando voltou para a outra foi asfixiado no lume do ar. O seu corpo foi achado caído nas terras. Diogo Carvalho, de 21 anos, sobrinho de Mário, saiu de casa para procurar o tio, mas desapareceu. O seu corpo foi encontrado mais tarde, carbonizado na estrada, e foi o último a enterrar derivado das dificuldades na identificação.

Uma morte: Sandra Costa, 37 anos, morreu queimada e asfixiada pelos fumos. Encontraram o seu corpo debaixo de uma caravana, onde se foi abrigar.

Três mortes: o casal Vasco Antunes Rosa e Maria Luísa Araújo Courela Antunes viviam em Lisboa mas tinham casa em Nodeirinho, onde iam passar os fins de semana. Foram colhidos pelas chamas, juntamente com o filho.

Duas mortes: Bianca Antunes Henriques Nunes, de quatro anos, a mais jovem vítima, e a avó, Maria Odete Rosa Rodrigues, morreram cercadas pelas chamas na estrada, dentro do carro, pouco metros depois de terem passado o tanque da aldeia. A mãe da criança, Gina, de 41 anos, filha de Odete, o marido, Aníbal Nunes, e o sobrinho, Marcelo, de 21, também seguiam no automóvel e fugiram para pedir ajuda. Os três sobreviventes foram internados no hospital de Coimbra em estado grave com queimaduras.

“Ajoelhámo-nos, orámos e entregámo-nos”
Maria Coelho, 40 anos, que viveu aquilo com o marido, João Paulo, 52 anos, primeiro de joelhos e depois a regar, crê na infalibilidade bíblica e na iminente segunda vinda de Cristo. É adventista do sétimo dia, uma denominação cristã protestante mortalista e aniquilacionista que acredita numa necessidade de restauração e no regresso ao primitivismo cristão. Naquele sábado, o seu dia do Senhor, julgou que “tinha chegado o fim do mundo porque nunca tínhamos visto nada assim”. E preparou-se: “Ajoelhámo-nos os dois dentro de casa, orámos e entregámo-nos ao Senhor. Ele que fizesse o que quisesse.” Quando aquilo passou, Maria, que mora uns metros acima com vista para o tanque, não sabe quantos minutos demorou, “mas pareceu-me a eternidade”, levantaram-se a medo, espreitaram as trevas, “estava noite escura mas ainda era bem dia”, saíram e desataram a regar tudo o que podiam regar até a água falhar. Ardeu-lhes o jardim e as rosas ressequidas, estourou-lhes a estufa lá em baixo, “foi um estrondo, parecia uma explosão”, ardia a lenha que estava no coberto, o cão, que era velho, preto e adoentado, jazia no seu sítio aninhado, tinha partido sem ar.

Maria, que tem condição depressiva, “admira-me como me estou a aguentar, como ainda nem me fui abaixo de vez”, continua a tomar os antidepressivos, “nem mais, nem menos, são os mesmos” e tem, como todos, dificuldades em dormir. “Lembro-me de tudo, tudo. O meu marido ouviu morrer o senhor Vasco a gritar. Vimos o Mário morto nas suas terras, à beira da estrada. O meu marido, que é ajudante de coveiro na Junta de Freguesia da Graça, enterrou o Mário, enterrou o Vasco, enterrou a Bianca, a pequenina Bianca, tão linda, às vezes olho e ainda a vejo ali em baixo a correr, tão alegre, tão pequenina, mas porquê, e enterrou o Diogo Carvalho, foi o último a enterrar, foi muito difícil de identificar, nem acredito que ele morreu.”

Foi a mãe de Maria que salvou a família de arder
Há ali outra Maria do Céu, apelido Dinis e Silva, de 51 anos, professora de artes visuais, e ela lembra-se que há um ano o dia começou muito bem. Estava a família toda em casa, são ali da Figueira, fica a uns minutos a pé do tanque do Nodeirinho, estava o pai, a mãe, a irmã, o cunhado, dois sobrinhos, muita conversa, as crianças cheias de riso.

“Era sábado, estava calor, almoçámos e estávamos por ali pela relva do quintal entretidos. Às três horas, ou às quatro, não sei dizer, vi nas notícias que havia fogo acima de Pedrógão, nos Escalos Fundeiros. Não ligámos, aqui arde todos os anos, desliguei a TV e continuámos. Mas às tantas, seriam já cinco, foi antes de pensar em fazer de lanchar, começámos a ver um fumo que preocupava e o fumo parecia que vinha a vir, um fumo muito preto. Não era habitual. Abri outra vez a televisão, e diziam que o fogo crescia, já ia nas Regadas Cimeiras, diziam que convergia ou que era um segundo fogo e que continuava a aumentar. Deixei a TV ligada e comecei a ter medo. Deixei passar uns minutos, fui à janela e o fumo enegrecia, ia alto lá no fundo, e chamei toda a gente e disse que era melhor irmos embora. Mas a minha mãe, é Maria de Lurdes Silva, tem 71 anos, viveu sempre aqui, nasceu aqui, não queria, não vamos nada embora, esta é a nossa casa, aqui não arde, vamos ficar aqui.”

Mas “aquilo foi um prenúncio, era tudo muito estranho”, diz Maria do Céu e Silva, “estava cada vez mais calor, chegava mais vento, muito vento, e havia um barulho que nunca se ouvira ali, não sei explicar, um rumor muito alto e continuava a crescer”.

E agora era o cunhado que também queria abalar, “já estava assustado, o melhor é sairmos daqui, tínhamos quatro carros, fechámos a casa, a minha mãe fechou as galinhas, os meninos calados, estávamos todos assustados, e decidimos que íamos sair. Mas, em minutos, aquela nuvem preta chegou e ficou ali sobre nós, era fumo, era cinza, era muito lixo pelo ar, parecia que trovoava, os meninos apavorados, a minha mãe a entrar e a sair, já era fogo, assim aos bofetões pelo ar, um calor, o cabelo parecia que ardia, e o vento, tanto vento, o vento atirava-nos ao chão. Metemos o meu pai no carro, ele muito calado, o vento não deixava fechar as portas do carro, e a minha mãe lá entrou e ficou no carro a arfar. No meio da confusão, tanto caos, parecia que tudo estava a voar, que íamos todos arder, eu perdi a chave do meu carro, estava na bolsa, não a vi na confusão, encontrei-a à noite depois, e saímos só em dois carros a descer para Nodeirinho.”

Quase nada andaram, “era o caos, só via lixo pelo ar, paus pelo ar, isto não é normal, pensei eu, as telhas a cair, as árvores a abanar a arder, todos em pânico dentro do carro, foi tudo muito rápido, queríamos ir por Nodeirinho, fugir por aquela Nacional [EN236-1] e chegar ao IC8. Mas já não deu, no Nodeirinho já não se passava, havia árvores caídas, carros batidos, abandonados de portas abertas no caminho, em chamas, demos a volta, o meu cunhado não conseguiu, veio à nossa frente o tempo todo em marcha atrás, aos esses, que aflição, e eu lembro-me de olhar para o meu sobrinho e de ele ter a cara toda desfigurada, ó tia, eu vi uma pessoa a arder, diz-me o menino a tremer.”

Não sabem como, pararam no tanque, largaram os carros, já lá estava mais gente a esbracejar e a chamar, e foram a correr para o abrigo da água. E depois Maria do Céu e Silva viu chegar a Gina, Gina Antunes Nunes, filha de Odete, mãe de Bianca, “e a Gina só gritava, acudam, ajudem-me, ajudem-me, via-se que ela estava queimada nos braços e nas mãos e no cabelo, ajudem-me, e ela apontava e dizia que a filha estava a arder, que a mãe estava a arder, acudam, e eu não percebia como é que isso podia ser, como é que isto podia estar a acontecer.”

A noite foi um só clarão de negro, “uma infinidade de horas, passámos o tempo a molhar tudo, os gritos das pessoas, os animais a guinchar, que aflição, que desorientação, não vi bombeiros, não vi ambulâncias, e eu lembro-me de ouvir a voz do Diogo a dizer que ia sair dali, que tinha que ir saber do tio, era o Mário, o Mário de Carvalho, ele morreu, e eu lembro-me que ele saiu, ó Diogo não vás, deixa-te ficar aqui, estás seguro, mas ele tinha que ir, e foi e nunca mais voltou”.

Muitos meses depois daquilo, Maria do Céu, que continua a agradecer à mãe por ter atrasado a saída de casa, a casa que não ardeu, viram eles quando voltaram depois da meia-noite, “se saíamos mais cedo tínhamos ido com os outros morrer na nacional a arder”, muitos meses depois daquilo, era uma manhã de inverno e nevoeiro, e Maria do Céu, que curvava para as aulas em Pedrógão, entra num banco cerrado de neblina e desata imediatamente a chorar. “Foi assim, de repente, veio-me tudo à memória outra vez, até os gritos, e eu paralisei. Fiquei ali não sei quanto tempo parada, dentro do carro e do nevoeiro, cheia de frio, sem conseguir parar de chorar.”

Duas lágrimas de pedra no ar
Ali, de frente para o tanque, do outro lado da estrada do Caminho Municipal 1169-1, a enlaçar a vista do Vale Pardieiro, da Moita, do Cabeceiro e do Outeiro que compõem toda a aldeia do Nodeirinho, com a torre sineira da capela da Nossa Senhora do Leite a aguardar ao fundo, branca, vazia e silente, estão a erguer-se duas asas de xisto e ferro. São dois monólitos desiguais, a asa do dorso direito é maior, parecem duas lágrimas escuras gigantes, agarradas ao sopé de cimento, petrificadas na recordação daquilo que não pode tornar nunca mais a acontecer.

A base enterrada na terra, num alicerce de memória e dor, contém cacos de casas que arderam e pedaços de vidro e de metal dos carros derretidos pelo horroroso fogo desse dia de há um ano.

Na parte traseira, quase sem que se possa ver, a estátua tem uma pequenina gruta escavada, tem o tamanho de uma mão fechada, uma concha do mar e uma pedra branca oblonga de cristal. “É uma fonte, uma fonte de vida, uma fonte astral”, diz a explicar João Carvalho Rosa Duarte, de 61 anos, o jardineiro e artista plástico nodeirense que tomou, juntamente com a mulher, Dina Duarte, 45 anos, psicóloga social, a iniciativa de se começar a mexer e sacudir aquele torpor assustador que tomou conta de toda a gente nos dias cheios de silêncio atroador – arderam os pássaros, arderam as cigarras e os grilos, não havia abelhas, os cães também ficaram cegos de voz – que vieram logo a seguir. É o primeiro memorial das 11 vítimas dali e à volta dele, além de uma placa queimada a dizer Nodeirinho que o João pintou por cima e coloriu num graduado que vai do vermelho trevor ao verde luz, o João assestou plantas novas e vida, violetas, malmequeres, urzes, alecrim, pequeninas papoilas que cabeceiam vermelhas e vivas no chão cheio de escuridão.

Os eucaliptos trepam pelos paus pretos acima
Dali até tudo à volta, numa vastidão de 54 mil hectares que mancharam três concelhos, de Pedrógão Grande a Castanheira de Pera e até Figueiró dos Vinhos, jazem milhares de árvores mortas de pé. Muitas já foram ou estão a ser cortadas mas a maioria não, as garras finas erguidas reviradas no céu, pinheiros inabaláveis, como se fossem de ferro forjado. Já não são árvores, são memória que queimou e que ali ficou, como uma anomalia, são esquissos torcidos e dobrados, de espinha partida, e lembram permanentemente que a vida cessou.

Mas a vida, como o contrário do poema de amor de Hauden que manda parar todos os relógios, desligar a lua e desmontar o sol, “porque o meu amor morreu” e “nada agora pode chegar a bem algum”, a vida desponta na terra da negridão. Há carvalhos pequeninos a nascer dos carvalhos mortos, há fetos, ervas daninhas muito verdes, malmequeres, margaridas, calêndulas rasantes nas bermas das estradas, e há eucaliptos, milhares de eucaliptos a trepar pelos paus pretos acima, são assim os eucaliptos, rebentam sempre sem erradicação, quando se queima um eucaliptal nasce outro eucaliptal, raiam como pequenos bonsais de um ano, irreais na vastidão, pontilhando a paisagem fúnebre de um desafiante verde glauco surreal.

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