OPINIÃO

Aperfeiçoar a capacidade de nos emocionarmos. Isso é que vale a pena

E um dia, nasce-nos um filho. Um colega morre. Perdemos um familiar. Um amigo de infância vai viver para outro país. Apanhamos um susto. Recebemos um diagnóstico médico que nos faz repensar tudo.

Uma das primeiras grandes surpresas que tive ao tornar-me adulto — ou, vá lá, pronto, mais crescido — foi a constatação de que, afinal, as coisas não são assim tão diferentes do que eram quando eu era miúdo.

Algumas coisas, entenda-se. As fraturantes, as que são mesmo essenciais, os comportamentos que nos definem como maridos, mulheres, pais, filhos, amantes, a forma como reagimos perante as mesmas situações importantes, isso pouco muda. Vamos acrescentando velas ao bolo de aniversário mas continuamos a ter o mesmo jeito — ou falta dele! — para as mesmas situações. Honra nos seja feita, o feitiozinho difícil de aturar, o coração mole, a propensão para sermos enganados ou a capacidade para meter os pés pelas mãos na hora de pedir o número de telefone a uma mulher são coisas que nos acompanharão a vida toda. Haja alguma constância nestes tempos incertos.

É claro que as voltas da vida, a experiência e/ou alguma terapia pelo meio podem ajudar-nos a fazer alterações de relevo, na esperança de nos tornarmos melhores seres humanos. Mais decentes. Mais justos com o que o universo nos dá. E acabamos por corrigir isto ou aquilo, aprender com os erros, afinar trajetórias… Eu, que passei trinta anos da minha vida a ter náuseas cada vez que sentia o cheiro de polvo cozido e que revirava os olhos com a ideia de Lulas à Sevilhana, sei bem do que falo. Os cefalópodes à mesa foram paixão tardia.

E um dia, nasce-nos um filho. Um colega morre. Perdemos um familiar. Um amigo de infância vai viver para outro país. Apanhamos um susto. Recebemos um diagnóstico médico que nos faz repensar tudo. Tudo. Cada um sente estas dores de crescimento de uma forma própria, mas na meia dúzia de coisas importantes que realmente conseguimos mudar, há uma que parece ser consensual: quanto mais velhos ficamos, mais leves nos queremos tornar. E, camada após camada, vamos deixando cair uma série de carapaças a que antes dávamos importância. São as pequenas coisas que vamos deixando para trás. De que nos vamos despojando. As que já não importam. Para podermos acreditar que ficámos melhores. Mais espertos, mais elegantes, mais tranquilos, afinal. E queremos mesmo fazer um esforço para deixarmos de ser tão casmurros com o que não interessa. Para passarmos a dar mais valor ao que realmente conta.

E o que conta, mesmo? Os afetos. Os mimos. O tempo que passamos com as pessoas de quem gostamos. O dizer à boca cheia «gosto de ti». Ver o Gran Torino e sentir aquela mesma dor. Chorar feito piegas com as cenas finais d” O Carteiro de Pablo Neruda , d” A Vida É Bela ou de Cinema Paraíso. Rir enternecido com o Up e sentir na pele as dores daquele homem animado que tem mais carne e osso do que nós.

Estas linhas vão lançadas em direção a uma coisa lamechas, quase-quase-lugar-comum, daqueles que vemos no Facebook com pensamentos bonitos numa imagem com fundo de estrelas, queda de água ou pôr do sol, que acabam quase sempre em Carpe Diem ou Só Temos Uma Vida. Por isso, cá vai o maior cliché de todos: redefinir prioridades. Ou, em alternativa, borrifar-se nas prioridades. Das duas uma. Ambas são aceites, no momento de deitar fora o que não importa. São os dois bons sinais de crescermos, de vermos mais, de vermos mais longe, de vermos mais dentro. Ah, e mais outra: aperfeiçoar a capacidade de nos emocionarmos. É uma arte. Tem de ser trabalhada.

 

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Editado. Versão original publicada na Notícias Magazine de 2 de março de 2013 (com o título «Uma crónica cheia de coisas lamechas»).