OPINIÃO

Esta é a última crónica na Notícias Magazine

Foram oito anos e quase quatrocentos textos. Sobre a vida, as relações, as famílias e o que fazemos com tudo isto. Com uma única condição: que os leitores se revissem naquelas palavras.

Foi a 6 de junho de 2010. Chamava-se «A Fronteira da Intimidade». Foi a primeira crónica que assinei na Notícias Magazine – na verdade, a primeira crónica que assinei – e marcava o arranque de uma relação que termina hoje. Agora. Esta é a última crónica que assino nesta revista.

Essa crónica em particular era sobre o espaço que conseguimos dar – ou não – a outra pessoa quando entra na nossa vida e, muito importante, na nossa casa. A margem de manobra que concedemos a alguém especial para abrir armários e gavetas, deixar os artigos de higiene pessoal na nossa casa de banho ou mudar o canal da nossa televisão. Não terá sido o pedaço de prosa mais brilhante que escrevi, mas não é nada que me embarace. De todo.

Não posso dizer o mesmo de todas as crónicas que escrevi. Entre os quase quatrocentos textos que aqui deixei ao longo de oito anos, alguns haverá que não deixam memórias. Outros que foram verdadeiramente mal conseguidos. E uns quantos mereceriam, até, ir diretamente para o lixo sem hipótese de redenção do autor.

Mas depois houve mais. Houve aqueles. Os que motivaram e-mails de leitores que se reviam naquelas palavras. Histórias de pessoas que escreviam a dizer que ficavam felizes e se sentiam menos estranhas por saberem que havia mais quem pensasse como elas.

E nesses dias, nesses momentos em que abria um e-mail desses ou uma carta manuscrita (sabem que ainda há quem escreva cartas para os autores de textos na comunicação social, não sabem?), eu sentia que um dos propósitos daquelas crónicas estava alcançado: escrever sobre a nossa vida. Sobre a vida das pessoas.

Escrever de maneira que os leitores se revissem naquelas palavras. Ou porque lhes acontecia o mesmo. Ou porque sabiam de um primo de um amigo de um vizinho de um antigo colega a quem tinha acontecido o mesmo.

Ao longo destes anos, muitas destas crónicas foram sobre mim. Mas o que eu queria mesmo era que os leitores se encontrassem nelas, diretamente ou por interposta pessoa.
É que eu escrevo sobre relações. Mais tarde, quando nasceram as minhas filhas, passei a escrever também sobre pais e filhos. E sobre famílias. E até mudei o nome da crónica: deixou de se chamar Isto não É o Que Parece e passou a chamar-se Vida em Comum.

No fundo, penso agora, acho que sempre escrevi sobre a vida em comum e sobre famílias. Elas podem é ter várias formas. E nelas podem caber várias pessoas. Cada um sabe das suas: das suas pessoas, das suas famílias, das suas relações e da sua vida em comum com os outros.

E aqui cabe tanta coisa. Cabe o sexo, o flirt, o engate e a conquista (são coisas diferentes), a aventura de começar a viver com alguém, a traição, os filhos e o que isso faz ao casal, os divórcios, as reconciliações, as amigas da namorada, os pais do noivo, os Natais em família. Aqui, nestas crónicas, coube isso tudo. Percebem porque era tão importante que as pessoas se revissem nisto?

Com algumas destas crónicas escrevi um livro. Com as que escrevi depois poderia fazer mais três ou quatro – lá chegarei. A partir de algumas delas nasceram outras, convites noutras marcas e até a possibilidade de falar para plateias sobre igualdade de género e prevenção da violência no namoro ou partilha de tarefas em casa. O que eu cresci por dentro enquanto deitava coisas cá para fora.

Quando comecei a escrever na Notícias Magazine ainda não era editor executivo da revista. Esta não era, ainda, a minha casa de trabalho, da qual saio agora de alma cheia e com a sensação de tarefa cumprida. Obrigado a todos. Obrigado aos leitores. Longa vida à Notícias Magazine.

Vemo-nos daqui a umas semanas, num título mesmo aqui ao lado.

 

PS: Um obrigado especial à Catarina Carvalho pelo convite para editar e, antes disso, pelo convite para escrever – com base apenas em cinco ideias de crónicas, nenhuma delas ainda materializada. Obrigado ao Ricardo J. Rodrigues por ter dito um dia: “Conheço um tipo que era capaz de fazer isto bem”. Obrigado à Catarina Pires pelo companheirismo. Obrigado ao Rui Leitão por endireitar (ou apagar) as ideias que iam tortas. Obrigado à Sofia, por tudo.